Sem estratégia e objetivos determinados não se salva o SNS
Medicina Interna ULSSA-Porto

Sem estratégia e objetivos determinados não se salva o SNS

É evidente o crescente clamor da população, que reclama voltar a ter o excelente SNS de antes, reconhecido como a maior conquista do 25 de abril.

É impossível disfarçar a confusão instalada, por mais que os relatórios digam que as mortes eram inevitáveis e tudo obedeceu às boas práticas da Medicina. Para além da perceção, é a realidade que nos fustiga.

À descarada, vemos a dificuldade do acesso aos Cuidados Primários, o número crescente de utentes sem Médico de Família e as consultas mantidas por via telefónica desde a pandemia, sem que o doente sinta a mão do médico meses a fio.

As listas de espera para cirurgia programada não diminuem e permite-se fazer cirurgia adicional (SIGIC) a sinais dérmicos inestéticos.

Doentes seguidos nos hospitais por equipas altamente especializadas de Cuidados Paliativos, de Oncologia, de Insuficiência Cardíaca ou de Doença Pulmonar Crónica, continuam a ter de recorrer ao inferno da Urgência Geral quando descompensam.

Há primeiras consultas dalgumas especialidades (Oftalmologia, Dermatologia, Otorrinolaringologia, etc.), com tempos de espera superiores a um ano.

Cerca de 30% das camas dos Serviços de Medicina Interna permanecem ocupadas por casos sociais, ficando doentes agudos internados nas Urgências, em macas miseráveis durante vários dias.

Os bebés nascem nas ambulâncias às catadupas, em perigo de vida, num País de velhos.

Apesar da preocupação dominante seja a de manter as Urgências abertas a qualquer custo, as de Obstetrícia e de Pediatria fecham por todo o lado. Às vezes, numa região inteira como a de Setúbal, as grávidas têm de se deslocar mais de 50 quilómetros.

Com a escassez de meios humanos, os Serviços reduzem a sua atividade normal, direcionando os especialistas jovens apenas para a Urgência, comprometendo a formação dos Internos de Formação Específica e a diferenciação dos Serviços em áreas de excelência.

As Urgências Gerais funcionam à custa de tarefeiros pagos a peso de ouro, que estão sempre mortos que o turno acabe para recomeçarem noutro hospital, sem darem continuidade ao tratamento dos doentes e desresponsabilizados perante a Instituição.

Desde os Governos de António Costa, que temos a comprovação de que mais dinheiro injetado no SNS sem estratégia, não resolve os problemas. Triplicamos os gastos sem ganharmos nada na eficiência do sistema.

Temos de nos fixar na principal causa do caos no SNS: A falta de médicos especialistas dedicados!

A estratégia do Ministério da Saúde e da Direção Executiva do SNS não pode continuar a dar sinais errados, sem resolver esse problema de fundo!

– Não é bom que o Médico tenha o trabalho público e privado, esgotando-se na correria entre os dois. Estar num lado ou noutro é a regra geral na Europa civilizada. A contratação em tempo completo de 40h foi um completo logro para os Serviços, não lhes dando nem mais uma hora de tempo útil dos médicos;

– É lamentável que o trabalho médico à tarefa seja muito mais rentável do que a dedicação exclusiva ao hospital;

– É terrível que o jovem médico prefira não tirar uma especialidade, por constatar que ganha mais numa Urgência Geral como tarefeiro indiferenciado;

– É estúpido não permitir que um especialista ou interno façam Urgência como tarefeiros no próprio hospital, que é obrigado a contratar outros tarefeiros bem menos capazes;

– A autorização de horários reduzidos a especialistas (20h ou menos), que ficam apenas a cumprir a escala de Urgência sem participarem em qualquer outra atividade do Serviço, é o prenúncio do fim do SNS;

Para salvar o SNS, é necessário definir objetivos alcançáveis e delinear as ações que nos aproximem do êxito. Sem ziguezaguear ao sabor das eleições, das lutas sindicais ou dos interesses instalados. Só o consegue fazer alguém com espírito de missão e que não vacila com os obstáculos. Vem-me à memória a campanha de vacinação, na epidemia do século da covid-19. A vitória nessa guerra, devia ser inspiradora!

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