20 Out, 2025

“Portugal deveria reconhecer a Geriatria como especialidade médica”

O reconhecimento da Geriatria como especialidade em Portugal deveria ser um passo fundamental para que haja um maior reconhecimento das suas mais-valias. Quem o defende é Francisco Tarazona, presidente da Sociedade Espanhola de Geriatria e Gerontologia, que, em entrevista, aborda os diferentes modelos de cuidados geriátricos existentes em Espanha. O responsável participou na 8.ª Reunião do Núcleo de Estudos de Geriatria (NEGERMI) da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI), que decorreu nos dias 6 e 8 de outubro, em Espinho.

“Portugal deveria reconhecer a Geriatria como especialidade médica”

Qual a realidade atual da Geriatria em Espanha?

A Geriatria, em Espanha, ganhou relevância nos últimos anos, por causa do envelhecimento acelerado da população e da necessidade de se ter  profissionais de saúde qualificados. Mais de 21% dos espanhóis têm 65 ou mais anos e espera-se que esta percentagem atinja os 30% em 2050. Esta realidade impulsionou a consolidação da Geriatria  como especialidade médica chave, ainda que se enfrentem desafios como assimetrias regionais e escassez de vagas de formação em relação ao número total das que são necessárias. Deve ter-se em conta que entre 2007 e 2025 aumentou o número de internos da especialidade de Geriatria, tendo passado de 50 para 120.

A Geriatria espanhola é inovadora na implementação de novos modelos de cuidados de Geriatria, quer a nível hospitalar quer a nível extrahospitalar. Precisamente por isso, a Sociedade Espanhola de Geriatria e Gerontologia (SEGG) lidera iniciativas para melhorar os cuidados como o projeto “Vivir Mejor en Casa”, que promove a autonomia, o cuidado centrado na pessoa e a desinstitucionalização. Além disso, estão a ser desenvolvidas estratégias, por parte do Estado, para transformar o modelo de cuidados num mais de índole comunitária, personalizado e humanizado.

 

Quais são os modelos de cuidados geriátricos que têm em Espanha?

Há vários, que coexistem:

1 – Modelo hospitalar geriátrico: Presente em hospitais públicos com unidades específicas de Geriatria, como as UGA (Unidad Geriátrica de Agudos); cuidados intermédios, que incluem unidades hospitalares e hospitalização domiciliária; Ortogeriatria; Cardiogeriatria, Oncogeriatria; e unidades dedicadas à fragilidade dos idosos nos serviços de urgência hospitalar.

2 – Modelo de Cuidados Centrados na Pessoa (ACP) em instituições geriátricas: O objetivo é respeitar a autonomia, as preferências e os direitos dos mais idosos, aplicando planos de vida individualizados.

 3 – Modelo partilhado entre Cuidados Primários-Geriatra: Foi desenvolvido durante a pandemia e, posteriormente, foi mantido nas residências geriátricas, com as quais se estabelece um protocolo assistencial em conjunto, para se otimizar a continuidade e a qualidade dos cuidados.

 4 – Modelo comunitário e domiciliário: Relacionado com os anteriores modelos e impulsionado pela Estratégia Estatal de Cuidados (2024–2030), procura impedir a institucionalização e fomentar a vida independente.

Todos os modelos têm por base a valorização geriátrica integral, o planeamento antecipado de cuidados  e a implementação  antecipada de cuidados e a implementação ativa das novidades assistenciais, que têm demonstrado ser eficientes.

“Diminui o idadismo, ao se fomentar uma visão positiva do envelhecimento e ao se combater a discriminação com base na idade”

Quais são as mais-valias de se ter a especialidade de Geriatria?

As principais vantagens desta especialidade é a atenção integral e interdisciplinar, que permite a abordagem dos aspetos físicos, cognitivos, emocionais e sociais dos idosos. Previne também a dependência, mediante intervenções precoces e personalizadas, que prolongam a autonomia. Além disso, otimiza-se a utilização dos recursos de saúde, ao se reduzirem as hospitalizações desnecessárias, ao se melhorar a eficiência e ao se favorecer a coordenação entre níveis assistenciais.

Também se verifica uma melhoria da qualidade de vida, porque se adaptam os cuidados às necessidades reais dos doentes, promovendo ainda o envelhecimento ativo e saudável. Diminui o idadismo, ao se fomentar uma visão positiva do envelhecimento e ao se combater a discriminação com base na idade. Por último, e não menos importante, promove-se a formação especializada, já que os geriatras têm competências para reconhecer síndromes geriátricas, casos de polimedicação, fragilidade e outras condições próprias do envelhecimento.

 

Que caminho deve ser seguido em Portugal para que a Geriatria seja cada vez mais valorizada?

Portugal enfrenta desafios similares a Espanha, mas com a diferença de que a Geriatria não é reconhecida como especialidade. Recomendaria, talvez, para começar, esse passo: Portugal deveria reconhecer a Geriatria como especialidade médica. Isso permitiria fortalecer a formação em Geriatria nas universidades e hospitais – como já o faz o NEGEMI da SPMI. Da mesma forma, uma possibilidade de acreditação em Geriatria para clínicos portugueses poderia ser o Exame Europeu de Especialidade em Medicina Geriátrica (EGeMSE), promovido pela Secção de Medicina Geriátrica da UEMS, em colaboração com o Royal College of Physicians (UK) e o

É preciso ainda sensibilização social, dando visibilidade ao valor da Geriatria nos media e nos congressos; apostar na promoção de políticas públicas; e combater o idadismo. A colaboração internacional também é uma forma de fortalecer vínculos com sociedades europeias, como a EuGMS, para se partilhar boas práticas e formação. O desenvolvimento de modelos centrados na pessoa é outro passo, através da implementação de protocolos de cuidados geriátricos adaptados à realidade portuguesa, respeitando a autonomia e diversidade dos mais idosos. Para se promover o envelhecimento ativo, é preciso relançar programas como o Programa Nacional para a Saúde dos Idosos, que fomenta a participação, a independência e a dignidade das pessoas. Por último, deve-se investir em cuidados domiciliários e comunitários para se evitar a institucionalização  e para se promover redes de apoio locais.

Maria João Garcia

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