8 Fev, 2022

Impacto da pandemia. “Pessoas com doenças crónicas acabaram por descompensar sozinhas”

A pandemia prejudicou o tratamento e seguimento de doentes com outras patologias. "Sabemos que doentes deixámos para trás", diz, em entrevista exclusiva, a médica internista e a presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, admitindo que a recuperação da atividade adiada não está a ser feita "a um ritmo aceitável".

Como encara o desafio de presidir à SPMI e quais os objetivos para o seu mandato até 2024?

É um desafio que, em parte, já conheço há muito tempo, uma vez que fiz parte das duas anteriores direções da SPMI. Um dos objetivos, que está entre os mais urgentes, é fazer aumentar o prestígio desta especialidade, que por vezes é pouca reconhecida a nível da população e da tutela – embora a tutela tenha vindo a reconhecer cada vez mais a Medicina Interna (MI), percebendo que a MI é imprescindível nos hospitais como especialidade global.

O combate à pandemia contribui para esse maior reconhecimento?

Já vinha sendo reconhecido antes. Mas, de facto, com a pandemia percebeu-se o quão imprescindível é a MI, num papel de agregadora de outras especialidades, de coordenação de meios e de vontades.

Em relação aos restantes objetivos, um deles é a formação. Temos um centro certificado dentro da SPMI e queremos fazer a formação dos internos e dos especialistas, de modo a ganharem competências nas diversas áreas em que a MI toca. Queremos também dinamizar projetos, conceder bolsas para investigação clínica (uma área que precisa de ser dinamizada) e de nos apresentar à população em geral. Pretendemos ainda criar mais ligações com as outras sociedades nacionais e internacionais, nomeadamente com a Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar.

Quais os desafios mais exigentes que a MI enfrenta atualmente? O défice de recursos humanos tem tendência a agravar-se?

A saúde atravessa uma crise imensa de recursos humanos, de enfermeiros, assistentes operacionais e médicos. Vamos precisar de mais recursos humanos. Há um grande défice de médicos nos hospitais. Este talvez seja o pior momento, uma vez que houve, há alguns anos, muito pouca abertura para a formação de novos internos em várias especialidades, e de forma muito marcada na MI. Temos uma décalage geracional na MI, um hiato, em que os médicos mais velhos se estão a começar a reformar e não temos médicos mais novos para os substituir. O défice vai agravar-se. Há muitos lugares nos concursos que ficam vazios.

Que impacto teve a pandemia na formação?

A pandemia afetou a formação de jovens médicos e dos internos. Ficaram estágios para trás, perdeu-se a aprendizagem no contacto com o doente da MI. Tudo isto foi afetado para os médicos se dedicarem às enfermarias-covid. Foram anos muito maus. Estamos agora a recuperar.

Outro problema que a MI também enfrenta é a falta de atratividade do Serviço Nacional de Saúde (SNS) para os médicos jovens.

O problema são as condições de trabalho que os médicos enfrentam no SNS. As condições de trabalho são más, não só devido à falta de recursos humanos e de material, mas também devido à má organização das estruturas e serviços, principalmente nos hospitais centrais, em que, no que diz respeito à MI, as urgências estão mal organizadas e têm um grande peso. Não há meios nos cuidados de saúde primários (CSP). E depois as urgências acabam por encher com doentes que não precisavam ir ao hospital.

O SNS tem vindo a degradar-se, o que faz com os médicos tenham pouca apetência para continuarem nos serviços. Acabam por divergir para o privado (muitas vezes cumprindo tarefas que nem são muito apelativas), onde encontram mais sossego, mais organização, melhor remuneração e maior reconhecimento do seu trabalho. Não foram aproveitadas as oportunidades que a pandemia nos ensinou.

Que oportunidades são essas que não estão a ser aproveitadas?

A pandemia ensinou-nos, ou ajudou-nos a perceber, que somos desorganizados e que nos faltam recursos. E que temos de colmatar esses dois aspetos. Temos agora um orçamento de Estado com muito dinheiro, que será suficiente para termos mais meios humanos e materiais. Temos de mudar e acho que isso vai acontecer.

Qual é o modelo que a SPMI defende para a organização hospitalar do futuro? Há mudanças a fazer?

Sim. Defendemos uma estrutura hospitalar com grandes departamentos, sem fronteiras, isto é, sem barreiras entre as especialidades. Uma estrutura que se interligue melhor, em que equipas multidisciplinares possam centralizar o doente. Temos, hoje, doentes muito mais complexos, habitualmente mais velhos e que acabam por ter mais comorbilidades. É mais fácil tratar melhor o doente se houver um conjunto multidisciplinar de cuidados à volta, com a coordenação da MI, que vê o doente no seu todo. Toda esta estrutura tem de ter uma boa articulação com os CSP.

Há diferenças entre a MI em Portugal e a MI nos outros países europeus, nomeadamente no que diz respeito ao desempenho?

Existe uma diferença entre os países do Sul e os do norte da Europa. Nos do Sul, sobretudo na Península Ibérica, a MI é uma especialidade muito forte. No Norte, começaram a subespecializar demasiado, a afunilar demasiado as competências dos médicos, o que faz com que os internistas não tenham, nesses países, o peso que têm em Portugal. Essa estratégia revelou-se errada e os países do Norte já começaram a revertê-la. Não podemos esquecer que a MI é a especialidade mais barata que existe; não precisamos de tantos exames complementares de diagnóstico como as outras especialidades, utilizamos muito a comunicação e a história clínica para fazer o diagnóstico. Acabamos por gerar menos custos para o SNS e temos um melhor desempenho se formos bem organizados.

Preocupam-na os doentes que foram deixados, de certa forma, para trás devido à pandemia e que estão agora a chegar aos hospitais com as doenças crónicas mais descompensadas?

Houve pessoas com doenças crónicas que acabaram por descompensar sozinhas. Por um lado, porque não tinham acesso aos seus médicos de família e, por outro, porque também não tinham acesso aos hospitais. Esses doentes estão agora a aparecer. Portanto, sabemos que doentes deixámos para trás: com doenças crónicas e aqueles que viram surgir uma doença durante a pandemia e que não foram diagnosticados atempadamente. Estamos a tentar recuperar estes doentes.

O ritmo a que está a ser feita essa recuperação parece-lhe aceitável?

Não diria que esteja a ser feita a um ritmo aceitável. Numas áreas as coisas têm estado a correr bem, noutras não. Até porque continuamos a ter de lidar com a pandemia, sobretudo na MI. Continuamos a ter muitos internistas envolvidos nas enfermarias-covid. As coisas complicaram-se bastante, de novo.

Os internamentos sociais continuam a condicionar a capacidade de internamento dos hospitais nesta fase? Como está a situação?

Os internamentos sociais são a nossa doença crónica. Os números variam de região para região. O facto de termos a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) parada leva a que não consigamos colocar os doentes onde eles deveriam estar, isto é, em convalescença, em unidades de tratamento. Não tendo vagas, os doentes que cheguem às urgências e que precisem de internamento vão estar mais tempo à espera. Tentamos fazer face a esta situação com as unidades de hospitalização domiciliária, unidades de diagnóstico rápido ou consultas abertas. No entanto, isto não colmata, de modo algum, as necessidades de internamento que temos.

Que soluções defende para ultrapassar este problema “crónico”?

Temos de agilizar a Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI) e colocar os doentes que necessitem em instituições, de forma mais rápida; temos de identificar, precocemente, os doentes que, na comunidade, vão ficar mais dependentes e sem apoio familiar, de modo a que, antes de adoecerem, já terem outro tipo de suporte; por outro lado, admito que os hospitais estejam subdimensionados (foram reduzidas muitas camas a nível nacional e temos de analisar bem todos os casos); o apoio nos CSP deveria ser mais aberto.

 

Nota: Esta entrevista foi realizada no dia 1 de fevereiro

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