Médico de família

INQUIETUDE | Nova fase da pandemia exige novas medidas

A bateria do meu telemóvel já não aguenta um dia! Recebo ou faço mais de 10 chamadas ou mensagens ou emails a cada hora que passa. O contexto de exercício é novo e complexo. Valha-nos a relação médico-doente. É urgente encontrar mais respostas!

A pandemia que vivemos desde 11 de março está a ser avassaladora neste primeiro mês de 2021. O agravamento progressivo e o que temos visto e vivido nos últimos dias em Portugal é diferente dos meses anteriores e não é comparável com a maioria dos países europeus. Não podemos ficar indiferentes. É necessário agir com vigor e determinação, rapidamente.

O que aconteceu afinal? Onde é que nos perdemos?

Por coincidência a vacinação foi iniciada no dia 27 de dezembro. Talvez uma leitura apressada tivesse levado algumas pessoas a admitir erradamente que o problema estaria resolvido ou em fase de resolução. Nada disso!

Uma nova estirpe, ou mesmo várias novas estirpes, estão em circulação na comunidade por todo o mundo! Ainda nem sabemos que mutações do SARS Cov2 estão a ocorrer!

Várias circunstâncias poderão ter contribuído para chegarmos ao cenário dramático deste final de janeiro: muitos descuidos no cumprimento das regras de distanciamento social, na higienização das mãos, no uso correto de máscara facial e até no isolamento obrigatório de pessoas infetadas; a ocorrência de uma vaga de frio intenso, apesar de normal para a época do ano, associado à conhecida pobreza energética da nossa população; a precária preparação de um plano de outono inverno adequado, de modo a orientar uma intervenção comunitária para proteger as pessoas mais vulneráveis; a necessidade de apoio a lares de idosos, uma vasta área de intervenção que está por realizar.

O início tardio do Estado de Emergência na segunda vaga foi declarado apenas no dia 9 de novembro de 2020, quando estávamos com 77 mil casos ativos. Na primeira vaga o Estado de Emergência foi declarado a 19 de março quando tínhamos 1009 casos ativos e as escolas já tinham encerrado a 16 de março. As escolas encerraram no dia 22 de janeiro, ou seja, à décima semana deste segundo período de Estado de Emergência.

Na segunda vaga atingimos um máximo de 89 mil casos ativos em 14 de novembro – sexto dia de Estado de emergência – ocorrendo depois uma descida lenta até 28 de dezembro, (68 mil casos ativos). Porém, nas três semanas seguintes os casos ativos duplicaram. O aparecimento de novos casos continuou a evoluir de forma muito rápida e em apenas 7 dias (de 17 a 23 de janeiro) tivemos mais de 86 mil novos casos, um aumento de quase 50% de doentes.

As pessoas com contactos suspeitos e submetidas a inquéritos epidemiológicos foram sendo cada vez mais ao longo dos meses. Em 5 de janeiro de 2021, quase no fim do décimo mês de pandemia, havia 100 mil pessoas em vigilância na comunidade, além dos 83 mil doentes Covid-19 seguidos pelos médicos de família. Em 21 de janeiro passaram a ser 200 mil pessoas em vigilância e 150 mil doentes Covid-19. Ou seja, em apenas 16 dias ficámos com o dobro de pessoas em vigilância na comunidade! E os recursos?

A mortalidade está como nunca esteve! Em apenas cinco dias do final de janeiro morreram tantas pessoas por Covid-19 como nas primeiras 10 semanas de pandemia. A mortalidade geral em janeiro de 2021 está assustadora: desde o dia 10 de janeiro há mais de 600 óbitos diários, quase o dobro do habitual!

Os números são cruéis. Não podemos esquecer que cada número se refere a uma pessoa. Muitas famílias estão envolvidas, toda a comunidade afetada e um país parado. Os centros de saúde e os hospitais ultrapassaram as linhas vermelhas e a atividade regular de seguimento de todos os outros doentes está fortemente afetada e vai demorar vários meses a recuperar.

Parece inevitável fazer um esforço de preparação de uma resposta organizada para implementação urgente nos próximos dias, senão horas.

Quais são as respostas para esta calamidade? Quais são os planos de intervenção na comunidade? O que está previsto para os próximos dias? Há desanimo e exaustão na população, desde os doentes até aos profissionais de saúde e sente-se a necessidade de ações concretas e rápidas.

O Serviço Nacional de Saúde é uma opção política de Estado. Para que seja possível reverter a situação atual é indispensável uma atitude política clara com uma intervenção robusta. A competência, o conhecimento, o profissionalismo e o humanismo continuam presentes, mas a política visionária de António Arnaut, de Mário Mendes, de Albino Aroso, de Paulo Mendo, de Maria de Belém, de Correia de Campos e de João Semedo faz muita falta!

 

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