21 Mai, 2021

Obesidade: redes sociais podem servir de catalisador de hábitos saudáveis

No 28.º Congresso da Associação Europeia para o Estudo da Obesidade (EASO) a psicóloga da Universidade do Minho Sofia Ramalho venceu o prémio europeu para jovens investigadores em obesidade infantil ao tentou perceber como o Facebook pode ajudar os mais novos a ganharem hábitos de vida saudável.

Que prémio lhe foi atribuído pela EASO e que trabalhos estiveram por trás deste galardão?

Este prémio é atribuído anualmente a jovens investigadores a nível europeu que desenvolvem trabalho de investigação com a obesidade em idade pediátrica, ou seja, infância e adolescência. Tem como objetivo reconhecer o percurso académico do investigador nesta área em específico e, ao mesmo tempo, atribuir alguma notoriedade através da possibilidade de publicação de um artigo científico na revista oficial desta associação.

O trabalho em específico que está por trás do prémio é o meu projeto de doutoramento, o APOLO-Teens. Trata-se de um programa de intervenção online que teve como objetivo utilizar as novas tecnologias, nomeadamente as redes sociais, que os jovens e adolescentes já utilizam no seu dia-a-dia, para complementar o tratamento standard para o excesso de peso e a obesidade nesta faixa etária oferecido nos hospitais públicos em Portugal.

Sabemos que o melhor tratamento para o excesso de peso e obesidade em idade infantil é multidisciplinar e envolve não só os pediatras, mas também nutricionistas, psicólogos e fisiologistas do exercício. E também sabemos que, no contexto atual, é muito difícil ao sistema de saúde nacional conseguir oferecer este tipo de tratamento a toda a gente. Existem programas piloto, mas não existe um modelo standard.

Tentamos testar se o Facebook poderia ser uma forma interessante de captar a atenção destes jovens para a importância do tratamento e, ao mesmo tempo, complementar o tratamento habitual em contexto hospitalar.

Quais foram as principais conclusões dessa investigação?

Já publicamos alguns artigos sobre esta intervenção em específico, até mesmo sobre a satisfação dos participantes, que é um ponto importante. É uma intervenção viável, que agrada a estes jovens e em termos de eficácia percebemos que o grupo que recebeu esta intervenção, para além do tratamento habitual em contexto hospitalar, passou a consumir mais fruta no dia-a-dia e os jovens que aderiram à intervenção reduziram a sintomatologia depressiva, reduziram os comportamentos alimentares problemáticos, nomeadamente o petiscar e o medo de engordar. É uma intervenção com resultados promissores, ainda preliminares em termos de eficácia, para complementar estes tratamentos a nível hospitalar.

As redes sociais podem, então, ser uma ferramenta importante em termos da alteração do estilo de vida nas populações mais jovens?

A ideia é mesmo essa: utilizar o tempo de ecrã que os jovens habitualmente já passam nas redes sociais e catalisar a motivação e a energia despendidas nas redes sociais para a modificação comportamental com benefícios para a saúde dos jovens.

Atendendo ao público da sua investigação, que análise faz ao futuro no que diz respeito à prevalência do excesso de peso e da obesidade neste grupo populacional?

Os dados mais recentes do programa de vigilância da obesidade infantil a nível europeu indicam que Portugal tem feito um caminho positivo na diminuição da obesidade infantil nos últimos anos. Contudo, com a emergência da pandemia, com o aumento do tempo de ecrã e a redução do tempo de atividade física, ainda é difícil saber se esta tendência se irá manter ou se pandemia pode ter um impacto negativo no desenvolvimento ou manutenção do excesso de peso nesta faixa etária.

Até porque o facto de a maior parte das atividades destes jovens ter sido reformulada para o formato online pode potenciar a redução da atividade física que é fulcral no tratamento desta problemática e também potenciar hábitos alimentares, comportamentais e emocionais muito baseados numa alimentação não saudável, como forma de regulação emocional num tempo que é de crise e de adaptação.

Já tem alguma análise sobre o impacto da pandemia nos comportamentos desta população mais jovem?

Fizemos um estudo com a população adulta e percebemos que o impacto da pandemia no nível do funcionamento psicossocial levou à alteração no comportamento alimentar, nomeadamente o comer descontrolado e o comer emocional, em resposta a emoções. Ainda não temos dados com as crianças, mas acreditamos que não será diferente.

Tendo em conta o interesse em estudar a obesidade nos mais jovens, que medidas acha premente implementar para diminuir a prevalência do excesso de peso nesta faixa etária?

É urgente investir na prevenção porque, uma vez instalado, o excesso de peso e a obesidade são de difícil tratamento. Muitas vezes estas crianças e adolescentes tornam-se adultos com obesidade, por isso é importante prevenir.

É também importante que o trabalho se faça em jovens em idade fértil, pois as futuras mães terem hábitos de vida saudável pode influenciar de forma muito positiva os hábitos alimentares e o estilo de vida dos filhos.

O ponto-chave será atuar ao nível preventivo e não remediativo, que é o que estamos a fazer.

RV/SO

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