O que os profissionais de saúde precisam de saber ao avaliar se um bebé está bem alimentado
Avaliar se o recém-nascido está a ser adequadamente alimentado nos primeiros dias de vida pode ser uma tarefa desafiante na prática do médico de família. Habituamo-nos a valorizar o peso do bebé já que é um indicador objetivo e rápido de obter. No entanto, a decisão de tranquilizar ou intervir depende de uma observação clínica cuidadosa, que integra três eixos: o estado geral do bebé, a observação da mamada e o registo das dejeções e micções.
Estado geral do bebé
O primeiro passo é observar o comportamento espontâneo do recém-nascido. Um bebé bem nutrido apresenta ciclos de sono e vigília adequados, mostra-se alerta quando acordado, tem tónus e reatividade normais e consegue despertar para mamar. É importante recordar que os bebés não precisam de estar acordados e alerta para conseguir mamar eficazmente — apenas em sono profundo é que isso não é possível. Devemos estar atentos a sinais de alarme como letargia, hipotonia, dificuldade em despertar mesmo com estímulo, choro fraco ou ausente (ou, pelo contrário, inconsolável), instabilidade térmica e icterícia que se agrava ou se prolonga para além do esperado, pois sugerem frequentemente ingestão insuficiente.
Observação da mamada
A frequência e padrão da mamada são altamente variáveis entre os bebés, no entanto, apesar dessa variabilidade, a quantidade total de leite ingerido por dia tende a ser semelhante quando existe livre demanda. Por isso, o que importa clinicamente é garantir a amamentação em livre demanda, garantindo 8 a 12 mamadas por dia e evitar outras formas de sucção do bebé que possam interferir com a ingestão de leite. Se imaginarmos que, a um bebé com sinais de fome, é oferecida uma chupeta e que isso atrasa cada mamada em média 5-10 minutos, ao final do dia vamos perder uma mamada. Se para alguns bebés isto não é significativo, para outros faz toda a diferença.
A observação direta da mamada vai permitir observar a eficácia da transferência de leite e observar o comportamento do bebé durante a mamada. Queremos bebés com um padrão de sucção mais ativo no início e que vão relaxando ao longo da mamada, com uma eficaz transferência de leite, passando progressivamente de uma posição de flexão dos braços e pernas para extensão e relaxamento. Pelo contrário, devem alertar-nos mamadas muito curtas e passivas, sem sucção nutritiva audível nem deglutição percetível, uma pega dolorosa ou ineficaz que a mãe não consegue corrigir, ou um bebé que adormece durante a mamada quase de imediato sem sinais de saciedade.
Dejeções e micções
A frequência das dejecções e das micções é um dos indicadores mais objetivos da eficácia da amamentação e deve ser sistematicamente questionada e registada em cada consulta. A associação entre mamadas muito frequentes e poucas dejeções deve alertar o profissional para a necessidade de reavaliar o peso do bebé, a produção de leite materno e a eficácia da extração durante a mamada. Um bebé durante o primeiro mês de vida em aleitamento materno exclusivo que não tenha 2 a 3 dejecções por dia pode não estar a comer o suficiente e deve ser avaliado. É igualmente relevante questionar o atraso na eliminação do mecónio para além das primeiras 48 horas, a ausência de transição para fezes amareladas depois do 4º dia, menos de 6 fraldas molhadas por dia a partir do 5º-6º dia de vida, ou urina escura e concentrada, por vezes com cristais de urato, persistente além dos primeiros dias.
Peso e sinais de desidratação
Uma perda de peso superior a 7-10% do peso ao nascer, ou a ausência de recuperação do peso até aos 10-14 dias de vida, deve ser sempre investigada. O mesmo se aplica a sinais de desidratação, como fontanela deprimida, mucosas secas ou diminuição do turgor cutâneo, e a hipoglicemia, particularmente em filhos de mães diabéticas ou em pré-termos tardios.
Avaliar se um recém-nascido está bem alimentado é uma competência clínica que vai muito além do peso e que pode ser desenvolvida através de formação estruturada e baseada na evidência. A Academia de Lactação acredita que investir neste conhecimento permite aos profissionais atuar com maior confiança, tomar decisões mais seguras e reduzir os riscos na prática clínica quando o tema é a amamentação.
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