Especialista em Medicina Geral e Familiar e Mestre em Evidência e Decisão em Saúde

O médico e a poesia ou como aprender a ler nas entrelinhas

Os médicos estão fazendo a autópsia

Dos desiludidos que se mataram

Que grande coração eles possuíam

Vísceras imensas, tripas sentimentais

E um estômago cheio de poesia.

Carlos Drummond de Andrade

 

Foi notícia recentemente a introdução de uma disciplina opcional de Introdução à Poesia no curso de Medicina do ICBAS (Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar) na Universidade do Porto.

Da responsabilidade do Prof. João Luís Barreto Guimarães, médico e poeta, esta disciplina e esta opção da escola médica ligada umbilicalmente ao Hospital de Santo António é muito mais importante do que possa parecer à primeira vista.

Num momento em que muito do que é feito na sociedade e, especialmente na saúde, é a procura do imediato, da visibilidade fácil, do resultado rápido a escolha da poesia como uma nova área curricular mostra abertura mas, acima de tudo, pensamento estratégico.

A evolução da medicina em Portugal e a qualidade técnica da formação médica estão, na generalidade, num patamar muito elevado. Formamos médicos com aptidão para exercer em qualquer hospital do mundo e com conhecimentos sólidos no que diz respeito ao cariz técnico-científico da nossa atividade.

No entanto, muito daquilo que o médico faz está dependente de outros fatores, de outras valências do conhecimento. E aqui, talvez a mais importante seja saber ler nas entrelinhas.

Como poderemos perceber a história de doença de uma pessoa se não conseguirmos empatizar? Se não conseguirmos comunicar e ler os pequenos sinais.

Como poderemos compreender a saúde de uma comunidade se não percebermos que a vida de um indivíduo é como um poema de Whitman, um verso livre, sem métrica mas pleno de sentido?

Como poderemos querer lançar campanhas de saúde pública se não olhamos para as comunidades como versos brancos, que se estruturam mas nem sempre rimam, que não são rígidos, como Drummond de Andrade bem nos mostrou?

O fugaz é, hoje, quase sempre ufano.

Precisamos de novas métricas de sucesso, precisamos de profundidade de pensamento. Precisamos de auto-crítica.

Precisamos de crescer como pessoas ao mesmo tempo que crescemos como médicos. Aliás, atrevo-me a dizer, só há uma pele aqui, não é possível ser um sem o outro. Precisamos de poesia na medicina, no médico.

A medicina precisa de Mundo. E é isso que a poesia nos dá: mundo, noção dos cinzentos, das nuances, do tanto que temos para descobrir.

Por isso, ao ICBAS e ao Prof. João Luís Barreto Guimarães um reconhecimento pelo mundo que darão aos nossos futuros médicos.

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