
Médica de família, coordenadora da CUF Porto; Professora Auxiliar na FMUP, Universidade do Porto; Investigadora no CINTESIS |RISE
Medicina Geral e Familiar no sector privado
“A Medicina Geral e Familiar é sobre histórias, não sobre episódios de doença”, disse um dia o Padre e amigo José Nuno Ferreira da Silva, numa aula que lecionávamos em conjunto a estudantes da unidade curricular de Medicina Geral e Familiar do 4.º ano da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
É belíssima esta frase e nem por isso lhe falta rigor: ilustra a continuidade de cuidados ao longo de todo o ciclo de vida da pessoa que caracteriza a Medicina Geral e Familiar (MGF). E é esta continuidade, já agora, que acumulada e robusta evidência demonstra salvar vidas, associando-se a diminuição da mortalidade, diminuição dos recursos ao serviço de urgência e das hospitalizações. Aqui reside o âmago da questão, seja a MGF praticada no sector privado ou no público, o fim último é o mesmo: prestar cuidados de qualidade a quem deles precisa, aos pacientes que nos procuram.
A este momento julgará, porventura, quem lê o texto que estou a evitar a questão ideológica que parece ser a divisão principal quando se discute privado e público. Afianço que não. Defendo um Serviço Nacional de Saúde (SNS) cada vez mais forte, este SNS que considero o edifício maior da história da democracia Portuguesa. Mantendo esta premissa de investimento contínuo na excelência e inovação do SNS, temos também que reconhecer o número crescente de pessoas que possuem seguros e subsistemas de saúde e todos aqueles que exercem a sua liberdade de escolha, ao optar por cuidados de saúde no sector privado.
Não podemos esquecer também que muitos médicos especialistas em MGF optam por trabalhar no sector privado – seja em exclusividade ou em acumulação de funções com o SNS. A maior flexibilidade do modelo de trabalho é um dos factores que muitas vezes prepondera nesta escolha, particularmente quando o médico pretende conciliar o exercício clínico com a docência, investigação, outros projectos pessoais e conseguir um balanço mais equilibrado com a vida familiar.
A MGF manteve-se, na minha óptica e falando genericamente, no seio do sector privado, até há poucos anos, secundarizada em relação às demais especialidades, não concretizando aquilo que são as suas características distintivas de proximidade, continuidade e personalização de cuidados. Olhando o bom exemplo do caminho percorrido no SNS em termos de cuidados de saúde primários, parece-me o caminho natural e desejável – e que constatamos no terreno – que a MGF assuma a posição de primeiro ponto de contacto, pilar e interface principal da coordenação de cuidados, também no sector privado, com a emergência da figura do médico de família, médico que conhece e acompanha a pessoa e a família.
A MGF praticada com este propósito e de acordo com a melhor evidência científica disponível, melhorará a saúde das pessoas e das comunidades, indistintamente de ser praticada no sector público ou privado.
*A autora escreve de acordo com o A.A.O.





