1 Jul, 2025

Gerir os doentes idosos em consultas de 20 minutos

O envelhecimento da população é uma tendência crescente, mas ainda é preciso dar vários passos para que os idosos sejam avaliados nas consultas com base nas suas especificidades. Atualmente, já existem ferramentas, inclusive validadas para Portugal, e que permitem ter-se uma visão holística da interação saúde-situação social dos mais velhos e que podem ser usadas nas consultas de 20 minutos dos médicos de família

Gerir os doentes idosos em consultas de 20 minutos

Um sistema de saúde “não amigo dos idosos”, listas de utentes com muitas unidades ponderadas, falta de tempo e pouca formação em Geriatria são os principais problemas que afetam a forma como os médicos de família prestam cuidados às pessoas mais velhas. Quem o aponta é Ana Viegas, coordenadora do Grupo de Estudos de Saúde do Idoso (GESI) da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF).

Uma situação complexa, sobretudo se se tiver em conta que Portugal é o segundo país mais envelhecido dos 27 países da União Europeia, estando atrás apenas de Itália. Os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), de 26 de maio de 2025, indicam que existem 188,1 idosos por 100 jovens. Acresce, ainda, o facto de ser dos países onde se vive até mais tempo, mas com menos qualidade de vida, sobretudo nos últimos anos.

“Os problemas começam logo com o facto de não termos serviços orientados para os idosos, ou seja, não há infraestruturas adequadas para pessoas com pouca mobilidade; é algo estrutural a nível nacional”, refere Ana Viegas. Além da dificuldade em se deslocarem, e que pode mesmo começar em casa e no acesso à unidade de saúde, acresce a barreira da infoexclusão. “Muitos não conseguem lidar com um quiosque e, com a obrigatoriedade de se telefonar para a linha SNS24, em caso de urgência, muitos idosos não o conseguem fazer por problemas cognitivos, de visão e ou audição.”

“Tem de se pensar em formas de integrar os idosos, para se evitar que não procurem os cuidados de saúde mais adequados”, acrescenta-se. Para a médica, é fundamental pensar em todos estes aspetos, de modo que se facilite a acessibilidade, adaptando cada percurso às particularidades dos mais velhos, nomeadamente os geriátricos.

Avaliação Geriátrica Global. Ferramentas simples e priorização de problemas

Se o chegar à unidade de saúde e confirmar a consulta já pode ser um desafio enorme, os problemas não se ficam por aí. A coordenadora do GESI, com competência em Geriatria pela Ordem dos Médicos, realça a dimensão das listas de utentes, algumas muito envelhecidas, o que torna ainda mais complexo dar a atenção de que o idoso necessita em apenas 20 minutos. “Os idosos têm determinadas particularidades, que têm de ser tidas em conta quando os avaliamos e tratamos”, indica.

Especificando: “Não se pode apenas tratar as várias doenças – muitos têm multipatologia e são polimedicados -, mas também ter uma visão mais holística, englobando outros domínios como a mobilidade, a gestão da terapêutica face à idade e à polimedicação, a nutrição, a cognição, a saúde mental, a conjuntura familiar e social.”

Todos estes aspetos podem fazer a diferença na qualidade de vida dos mais velhos, permitindo, segundo a especialista, melhorar  e manter por mais tempo a funcionalidade. “É preciso apostar na autonomia da pessoa.”

Uma das ferramentas que devem ser utilizadas é a avaliação geriátrica global (AGG), que consiste numa “avaliação multidisciplinar, dinâmica e multidimensional, diagnóstica e terapêutica do idoso”. Visa, ainda, “identificar áreas deficitárias e limitações, com o objetivo de desenvolver um plano de cuidados que responda às necessidades, de forma a maximizar a possibilidade de um envelhecimento saudável”.

Na prática, tem de se ter uma visão holística, tendo em conta as necessidades de saúde, mas também as restantes, nomeadamente as sociais. “O lado positivo da Medicina Geral e Familiar (MGF) é que permite esta AGG, já que acompanhamos a pessoa ao longo da vida”, frisa. Reconhece, contudo, que em 20 minutos não é possível fazer tudo. “Não é expectável, nem possível, que tal aconteça, mas isso não nos deve impedir de aplicar esta ferramenta.”

Ana Viegas diz mesmo que já existem escalas de AGG validadas para Portugal e que podem ser aplicadas nas várias consultas de MGF e que permitem criar um plano de cuidados que, ao longo do tempo, vá dar resposta às questões de saúde e sociais, que estão interligadas.

Exemplo disso é a estratégia “Atenção Integrada para os Idosos (ICOPE)”, que foi desenvolvida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para atender as necessidades de saúde das populações que envelhecem rapidamente em todo o mundo. O ICOPE pretende ser um apoio na definição de metas centradas na pessoa e na integração de abordagens nos níveis de sistema, de serviço e clínico. O plano pode incluir várias intervenções para gerir a funcionalidade, o apoio social e a assistência, aumentar a capacidade de autogestão e apoiar os cuidadores.

“Existem várias ferramentas, disponíveis no GESI, que vão ajudar os colegas a fazer uma avaliação e a criar um plano de cuidados do idoso.” Face ao pouco tempo que se tem em consulta, o que está preconizado é que se utilizem escalas simples, já validadas cientificamente, e que se vá priorizando os vários problemas de saúde. “Há idosos que são saudáveis, mas a maioria tem muitos problemas. É importante, por exemplo, diagnosticar a síndrome de fragilidade, que por causa das poucas reservas fisiológicas, vai dificultar a reação a eventos adversos, como uma queda, um internamento, entre outros.”

Estas situações podem, inclusive, aumentar o risco de dependência e, por conseguinte, de institucionalização. “O setor social em Portugal é forte, mas é demasiado focado na institucionalização, quando se deveria promover atividades e recursos na sociedade, que permitam ao idoso ser funcional durante mais anos.” Ana Viegas destaca, neste âmbito, o projeto Prescrição Social, que visa, nomeadamente, promover o envelhecimento ativo e saudável.

Questionada se deveria existir uma consulta de Geriatria ou de Saúde do Idoso em cada unidade local de saúde (ULS), Ana Viegas diz que tal seria o ideal, mas enquanto tal não é uma realidade, é preciso investir na formação pré e pós-graduada. “Já estamos a melhorar e já vai havendo ações formativas. Todos os médicos de família devem ter conhecimentos sobre as particularidades dos idosos, mesmo que esta não seja a sua área de diferenciação.”

Para tal, o GESI tem organizado formações e, no site do grupo, tem publicado manuais que podem ajudar os internos e especialistas de MGF a cuidar dos idosos. A um nível mais superior, o GESI está também envolvido na criação de um plano de vigilância do idoso, a ser desenhado com a Direção-Geral da Saúde. “O sistema informático permite-nos avaliar vários parâmetros/patologias, mas não há nenhum em específico para o idoso. É preciso colmatar esta lacuna.”

Medidas que não podem ser muito mais adiadas, já que os avanços da Medicina são a principal razão para que as pessoas vivam mais anos. Convém, todavia, que os mesmos sejam vividos com o máximo de qualidade de vida.

Maria João Garcia

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