Médico Oftalmologista Director Geral da InfoCiência

Gadgets e Saúde: Oportunidade ou Ameaça?

 

No mês passado, o New England Journal of Medicine (NEJM), jornal médico de referência, com mais de 200 anos, publicou um artigo sobre a identificação de casos de fibrilhação auricular mediante o recurso a um smartwatch*.

O estudo, que teve o suporte da Apple, envolveu mais de 400.000 participantes ao longo de oito meses e permitiu concluir que o algoritmo utilizado nestes dispositivos permite identificar correctamente a presença de fibrilhação auricular em utilizadores onde é notificada a ocorrência de um pulso irregular.

Para lá das ressalvas expressas pelos autores sobre a necessidade de uma investigação mais rigorosa para aferir a validade deste tipo de abordagem no contexto clínico, é de salientar a enorme evolução na mentalidade científica de um jornal desta envergadura, que passa a manifestar abertura para publicar artigos clínicos originais cuja informação foi recolhida deste modo e que transmite um inequívoco sinal de optimismo face à saúde digital.

Por esse motivo, mais importante do que dissecar a metodologia do artigo e discutir os seus resultados, é reflectir sobre o significado desta nova metodologia e sobre as suas potenciais implicações num futuro próximo.

A tecnologia tem sido um dos pilares da evolução médica, revolucionando meios de diagnóstico, técnicas cirúrgicas e, neste campo, tendo já iniciado todo um caminho no campo da cirurgia robótica.

Aqui estamos perante algo novo e diferente. O que está agora a acontecer é uma movimentação das imparáveis forças da inovação digital, que já dominam os meios de comunicação, as redes sociais e toda a economia de consumo, em direcção a uma área que, até ao presente, era do estrito domínio da investigação tradicional, dos ensaios clínicos, dos centros universitários e hospitalares. Referimo-nos à própria forma de fazer Medicina e de conduzir investigação clínica.

No fundo, qual a motivação para a realização deste estudo? O uso de relógios capazes de monitorizar o desempenho físico, os passos dados, os quilómetros percorridos, a velocidade média e a frequência cardíaca é já um dado adquirido, sobretudo entre os amantes do desporto e do exercício físico, mas também entre todos os que vão tomando consciência da importância de um estilo de vida mais activo como elemento-chave de uma vida mais saudável.

Sabendo-se que a fibrilhação auricular é uma causa comum de acidente vascular cerebral, seria natural que existisse uma forte curiosidade face a uma aplicação para um smartwatch com o potencial para detectar arritimas que pudessem justificar uma avaliação médica. E essa aplicação foi, por isso, um dos argumentos de “venda” deste novo modelo de relógio da Apple.

Foi, também por isso, que mais de 400.000 pessoas “descarregaram” esta aplicação e aceitaram participar neste estudo. Não por estarem doentes, mas por essa curiosidade e pelo desejo de se sentirem mais tranquilos mediante o recurso a uma nova tecnologia que não implica qualquer dificuldade no que se refere à monitorização cardíaca.

Algumas das consequências deste perfil de motivação (curiosidade e não necessidade) foram a taxa elevada de abandono ao longo do estudo e uma reduzida adesão ao protocolo desenhado, o que dificulta a obtenção de conclusões fidedignas e reprodutíveis, mesmo com um tão elevado número de participantes.

Mesmo assim, este estudo é relevante, tem interesse e oferece novas linhas de investigação. Provavelmente, foi por tudo isso que o NEJM aceitou a sua publicação. Uma das vantagens óbvias desta abordagem é permitir uma monitorização a longo prazo, capaz de detectar de um modo não invasivo episódios de arritmia que, de outro modo, poderiam passar despercebidos.

A miniaturização possibilitada pela tecnologia tem sido crescentemente utilizada em Medicina, tanto no domínio do diagnóstico como do tratamento, e a utilização de dispositivos portáteis tenderá a facilitar a investigação clínica e a permitir a obtenção de dados mais imediatos e, por isso, mais fiáveis.

Uma potencial dificuldade será a dúvida relativa ao modo de utilização dos dados pessoais sobre saúde assim obtidos. Os recentes casos de uso indevido de dados com finalidades políticas e outras tem colocado esta questão no centro do debate e pode tornar as pessoas mais cépticas e relutantes na partilha de dados sobre o seu estado de saúde.

Mesmo nos hospitais e clínicas, é comum ver pacientes a não quererem partilhar o seu endereço de correio electrónico ou outros contactos de modo a manterem a sua privacidade e essa atitude poderá ser ainda mais vincada quando se trata de dispositivos portáteis capazes de monitorizarem e armazenarem de modo contínuo a nossa condição física.

É mais fácil partilhar os nossos problemas médicos com alguém que tem rosto e com quem estabelecemos uma relação de confiança do que dar acesso a uma entidade anónima cuja propriedade pertence a empresas com interesses em tantas outras áreas. Essa sensação de insegurança tenderá a ser ainda maior face à possibilidade de acesso indevido às bases de dados, por negligência ou deliberadamente, por mais seguras que aparentem ou prometam ser.

Na verdade, o mercado global da saúde vale triliões de euros e pensarmos que os nossos dados pessoais poderão servir para “alimentar” esse mercado e não para contribuir para a prestação de melhores cuidados é, no mínimo, desconfortável.

Por tudo isto, a caminho que este estudo aponta e ao qual o NEJM dá força e legitimidade, implica que cada vez mais seja feito para que os interesses das pessoas e dos pacientes sejam defendidos contra uma utilização que ignore esta noção de serviço em nome de uma causa maior.

Tecnologia, ética e moral tenderão sempre a colidir. E quando falamos em saúde, em seres humanos fragilizados pela doença, as cautelas têm de ser ainda maiores.

Embora os autores do presente trabalho sejam claros na identificação das limitações da inovação digital em Medicina, o facto é que as portas vão-se abrindo. Para o bem e para o mal. E competirá a todos nós que o poder da teconologia, como tem ocorrido no passado, continue a servir sempre os melhores propósitos e a fazer do Mundo um local mais saudável.

Caso contrário, não fará sentido.

*Large-Scale Assessment of a Smartwatch to Identify Atrial Fibrillation

Marco V. Perez e col., for the Apple Heart Study Investigators

N Engl J Med 2019;381:1909-17.

 

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