Entrevista. Psoríase está subdiagnosticada em Portugal e estigma ainda persiste

Estima-se que a psoríase afete cerca de 250 mil pessoas em Portugal. Em entrevista, o dermatologista do Hospital CUF Porto alerta para o impacto da doença na vida social e familiar.

Qual é a prevalência da psoríase em Portugal?
A psoríase atinge cerca de 2-3‰ da população mundial. Estima-se que cerca de 250 mil portugueses sejam atingidos pela doença.

Considera que a doença está subdiagnosticada?
A doença parece ser subdiagnosticada porque existem formas frustes de psoríase que podem passar despercebidas e diagnosticadas como outras doenças quando não observadas por um dermatologista.

Quais os principais sintomas desta doença?

A apresentação mais comum é a de placas eritemato-descamativas com descamação caracteristicamente prateada envolvendo simetricamente os joelhos e cotovelos. É comum o atingimento do couro cabeludo, pavilhões auriculares e região lombossagrada. Estas lesões são muito frequentemente acompanhadas de prurido. Felizmente a maioria dos casos é ligeiro e a doença é localizada, porém a doença pode ser extensa, haver atingimento articular e ungueal e por vezes ser localizada a áreas anatómicas específicas como por exemplo as palmas e plantas, bem como a região genital. A abordagem actual é de que a doença não é só cutânea, mas que se encontra associada a fatores cardiovasculares (obesidade, hipertensão e diabetes) e psicológicos (depressão e ansiedade).

Que faixas etárias/grupos populacionais atinge de forma mais marcada?
A psoríase pode aparecer em qualquer idade, mas é mais frequente em 2 picos etários: os 20-30 anos e os 50-60 anos. Atinge de igual modo ambos os sexos e é mais frequente em pessoas de pele clara. Tem uma forte componente hereditária, pelo que uma história clínica familiar de psoríase confere um risco aumentado para desenvolvimento da doença.

Sabe-se que o desenvolvimento de lesões é fortemente relacionado com o stress. Existe também correlação do aparecimento de psoríase com exposição a alguns fatores ambientais, nomeadamente fármacos ou infeções bacterianas em indivíduos geneticamente predispostos.

Que impacto tem a psoríase na qualidade de vida dos doentes, nos vários planos?
A psoríase tem um forte impacto na qualidade de vida dos doentes. Como é compreensível isto pode ser motivado não só pela extensão da doença, mas também pela localização das mesmas. Desta forma podemos ter psoríase apenas na face ou palmas e plantas, mas considerada grave do ponto de vista da qualidade de vida.

Do ponto de vista social as pessoas tendem a diminuir os seus contactos e tendem a isolarem-se. O contacto social gera ansiedade e a preocupação pelo “que os outros acham”. É importante a consciencialização da população de que a doença não é contagiosa. Infelizmente, por este motivo algumas pessoas tendem a procurar profissões que evitam o contacto com o público. No meio familiar também existe disrupção afetiva, sendo importante que os pares e restantes conviventes compreendam a doença.

Que tratamentos existem para a psoríase? Que evolução se tem registado, neste âmbito, nos últimos anos?
Importante salientar que os tratamentos disponíveis contribuem para melhorar os sintomas e controlar a doença, não existindo uma cura para a doença. As modalidades terapêuticas incluem o uso de tópicos (aplicação local) e sistémicos oral (por exemplo a acitretina e a ciclosporina) ou injetável (estes últimos reservados para os casos mais graves). Nos últimos anos temos observado o aparecimento de múltiplas terapêuticas biológicas, a atuar especificamente a nível de alvos celulares e que se mostram cada vez mais eficazes e seguros no controlo da doença e consequentemente na melhoria da qualidade de vida dos doentes psoriáticos.

Quais os maiores desafios na abordagem do doente com psoríase? O que podemos esperar dos próximos anos?
O maior desafio acredito que seja a mudança de mentalidades. Quer o doente quer a população em geral devem estar familiarizadas com a doença. Infelizmente ainda se sente o “estigma” da doença socialmente. O próprio doente deve perceber que a doença é crónica e por isso a adesão terapêutica é crucial para o sucesso. Com o avanço tecnológico observado recentemente e com o aparecimento dos novos fármacos, o futuro parece promissor e risonho para os doentes com psoríase.

TC/SO

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