7 Abr, 2026

“Devemos olhar para a ciência, investigação e progresso não como um custo, mas como investimento e criação de valor”

No Dia Mundial da Saúde, Hugo Martinho, Medical & Regulatory Affairs Director, AstraZeneca Portugal, destaca a importância da ciência e da investigação como criação de valor. Em entrevista, o responsável defende o papel da indústria farmacêutica na prevenção e tratamento das mais diversas patologias.

“Devemos olhar para a ciência, investigação e progresso não como um custo, mas como investimento e criação de valor”

Qual é o papel da investigação clínica em Portugal e o seu impacto direto para os doentes no acesso precoce à inovação?

Em apenas seis décadas, assistimos a um aumento de 17 anos da esperança média de vida em Portugal. Um português nascido em 1960 esperava viver cerca de 64 anos, enquanto um português nascido em 2020 tem uma esperança média de vida de 81 anos. Este enorme salto civilizacional foi possível devido a melhorias das condições de vida, hábitos e acesso a cuidados de saúde, mas também ao progresso e desenvolvimento da ciência e da medicina.

A aposta na investigação clínica ao longo das últimas décadas e os resultados obtidos permitiram encontrar soluções para tratar melhor, controlar e reduzir a progressão de muitas doenças e a mortalidade associada. A concretização destas soluções em resultados objetivos de saúde apenas tem sido possível pela democratização do acesso, mais ou menos facilitado da população, pelo sistema de saúde, a estas intervenções.

Esse acesso à inovação tem sido facilitado em Portugal ou ainda devem ser adotadas medidas para que o mesmo seja mais agilizado?

O tempo de acesso à inovação continua a ser um dos grandes desafios do nosso sistema de saúde. Apesar de melhorias observadas nos últimos anos, vários rankings internacionais continuam a colocar Portugal como um dos países da Europa em que os medicamentos inovadores demoram mais tempo a chegar aos doentes que deles podem beneficiar. Este aspecto é ainda mais relevante quando falamos de doenças com prognóstico mais desfavorável (como alguns tipos de cancro ou doenças raras) ou em patologias mais prevalentes e com elevada necessidade de utilização de recursos de saúde.

Nestas áreas, que são também aquelas com maior morbilidade e mortalidade, ainda  existem necessidades médicas importantes por satisfazer, pelo que não há nenhum racional científico para que, imediatamente após a demonstração do benefício do medicamento e reconhecida a sua mais-valia clínica (em comparação com o padrão de tratamentos) este não possa ser disponibilizado através de programas acelerados de acesso precoce enquanto se tenta agilizar o tempo de avaliação dos processos de avaliação de medicamentos e reduzir os longos processos de negociação económica. Quando se trata da saúde das pessoas não podemos esperar e perder oportunidades para tomar decisões.

“Os doentes e os profissionais de saúde sabem muito bem reconhecer o valor e a diferença que uma intervenção inovadora lhes proporciona. E sabem-no porque experienciam melhorias de sintomas, de controlo da doença, de melhoria da qualidade de vida”

Atualmente, como se mede o valor da inovação em saúde (outcomes clínicos, qualidade de vida, eficiência do sistema)?

O valor da inovação tem múltiplas dimensões. Desde logo, o valor terapêutico: se se trata de uma terapêutica mais eficaz, segura ou com melhor perfil de tolerabilidade que favoreça, por exemplo, uma maior adesão à terapêutica. Mas também o valor clínico, no controlo, na redução das complicações agudas ou crónicas, na progressão da doença, numa melhor qualidade de vida e ainda mais importante na redução da mortalidade global.

Obviamente que a estas dimensões favoráveis se associa também um impacto orçamental, que muitas vezes não deve ou não pode ser medido no curto prazo, mas sim através da valorização dos benefícios cumulativos de redução de episódios de urgência, número e duração de internamentos e reduções de complicações e tratamentos associados. É a avaliação destas dimensões que permite demonstrar o valor incremental ou disruptivo de um novo medicamento e que deve ser considerada num sistema de saúde moderno e capaz de responder de forma competente aos doentes que dele fazem parte.

 

Mas em Portugal não falta uma certa cultura de medição do valor da inovação? Se sim, como se pode melhorar essa realidade?

Sinceramente não me parece. Os doentes e os profissionais de saúde sabem muito bem reconhecer o valor e a diferença que uma intervenção inovadora lhes proporciona. E sabem-no porque experienciam melhorias de sintomas, de controlo da doença, de melhoria da qualidade de vida e da necessidade de recorrerem aos serviços de saúde. Por outro lado, fruto dos constrangimentos orçamentais crescentes, em que o investimento na saúde concorre com tantas outras prioridades de políticas públicas, temos assistido frequentemente a uma exigência e escrutínio cada vez maior, e mais demorado, no processo de acesso à inovação, o que por si só, num mundo onde tudo corre e acontece mais depressa, é um pouco contraditório.

“Acredito que Portugal tem tomado medidas importantes de promoção da valorização e da atração de investimento. Deve continuar a aprofundar este caminho”

Qual o contributo da indústria farmacêutica para um modelo de saúde mais sustentável e centrado no doente?

A indústria farmacêutica é um parceiro muito e cada vez mais relevante para o sistema de saúde, mas também para a sociedade e economia. Esta parceria materializa-se, desde logo, no investimento em investigação e desenvolvimento tecnológico e científico, em inovação e talento enquanto catalisadores económicos. O produto destes elementos que acabei de enumerar traduz-se na criação, comercialização  e disponibilização de ferramentas que permitem prevenir, tratar ou atrasar o decurso das doenças, contribuindo para que as pessoas possam viver mais e melhor e para um sistema de saúde não centrado  apenas na doença e mitigação dos seus efeitos (como ainda hoje acontece), mas sim num modelo centrado no indivíduo, através de uma intervenção precoce, efetiva e  promotora de bem-estar, saúde e de cuidados baseados em valor.

 

Quais são os principais desafios e oportunidades para se reforçar o ecossistema de investigação em Portugal?

Devemos cada vez mais olhar para a ciência, investigação e para o progresso não como um custo, mas sim como investimento e criação de valor. Está perfeitamente demonstrado que os países que mais investem nestes domínios são também aqueles onde a prosperidade e a qualidade de vida é maior. E acredito que Portugal tem tomado medidas importantes de promoção da valorização e da atração de investimento. Deve continuar a aprofundar este caminho, potenciando a transferência deste valor tangível para transformar, melhorar e modernizar áreas tão relevantes como a saúde e o sistema educativo.

Neste sentido, acredito que é fundamental trabalhar em modelos integrados multidisciplinares entre academia, entidades públicas, privadas e outros parceiros onde todos podem contribuir com ideias, competências e recursos. Existem muitas oportunidades, algumas já conhecidas outras que, com ambição e empreendedorismo, estão ainda à espera de serem criadas. É uma questão de fazer a escolha certa!

SO

 

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