Farmacêutica / Diretora Técnica Farmácia S. José

Covid19: A importância da informação em contexto farmacológico

A Covid-19 é uma pandemia grave a nível global, cujo número de casos tem vindo a crescer a um ritmo alucinante. O mesmo se pode afirmar acerca da quantidade de informação sobre esta temática; sabe-se cada vez mais sobre esta doença e o acesso à informação nunca foi tão fácil. No entanto, é fundamental saber filtrar o que é publicado, consultando fontes fidedignas e credíveis.

A adoção de comportamentos de risco, tais como a toma indiscriminada e sem aconselhamento médico ou farmacêutico de medicamentos considerados “preventivos” ou o abandono de terapêutica crónica, pode pôr em causa o tratamento de patologias pré-existentes que não podem ser esquecidas.

Têm surgido dúvidas relativamente à toma de certos medicamentos e a sua relação com sintomas da Covid-19, nomeadamente medicamentos anti-hipertensores e anti-inflamatórios não esteróides (AINEs).

Os medicamentos anti-hipertensores são amplamente usados de forma crónica pela população portuguesa, sendo prescritos para o controlo da pressão arterial, doença cardíaca ou renal. Tem surgido alguma especulação em torno de dois grupos particulares deste tipo de fármacos:

  • Inibidores da Enzima de Conversão da Angiotensina (IECAs), cujo nome geralmente termina em –pril;
  • Antagonistas da Conversão da Angiotensina 2 (ARAII), cujo nome geralmente termina em –an.

Os autores do estudo que gerou a polémica sugeriram que as pessoas sob tratamento com estes fármacos poderiam estar sujeitas a uma evolução mais grave da Covid-19. Na origem destas preocupações estão questões válidas apoiadas em dados epidemiológicos, dados relativos ao mecanismo de acção dos fármacos e também factores relacionados com resposta do hospedeiro face a uma infecção por coronavírus.

No entanto, actualmente a comunidade científica considera que este estudo apresenta falhas e que não existe evidência clínica que justifique a paragem da toma deste tipo de medicamentos. Acrescenta ainda que, a sua retirada abrupta em doentes estáveis pode trazer consequências negativas, com resultados mais lesivos do que a continuação do tratamento.

Em relação à toma de AINEs, nomeadamente de ibuprofeno, as entidades competentes consideram que, até agora, não existe evidência científica que estabeleça qualquer relação entre este medicamento e a exacerbação de Covid-19.

A indicação de não interromper o tratamento é particularmente importante para doentes a quem foi prescrita a toma prolongada de ibuprofeno ou outros anti-inflamatórios não esteróides, em contexto de doenças crónicas. No caso de dor e febre, salienta-se que, no geral, o tratamento de primeira opção deverá ser sempre o paracetamol, podendo os doentes continuar a utilizar os AINEs de acordo com as indicações aprovadas e que constam no folheto informativo. As orientações terapêuticas nacionais actuais referem que estes medicamentos devem ser usados na menor dose eficaz, durante o mais curto período de tempo possível e, em caso de dúvida ou persistência de sintomas consultar a linha de saúde 24, o médico ou farmacêutico.

O crescente conhecimento acerca desta doença leva a que a actualização da informação seja constante, o que leva a que algo tomado como certo à data possa não ser a mais correcto num espaço temporal mas alargado.

As entidades competentes nacionais e internacionais, como o Infarmed, a EMA (European Medicines Agency) ou a OMS (Organização Geral da Saúde), emitem frequentemente comunicados actualizados e alinhados com os mais recentes avanços científicos sobre esta temática. A detenção de informação fidedigna e actualizada por parte de todos é uma ferramenta fundamental para a diminuição dos efeitos nefastos e para a gestão adequada desta pandemia.

 

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