Centros de cirurgia cardíaca alertam para dispersão de recursos no Norte
Os dois centros de referência em cirurgia cardíaca do Norte alertam que a criação de novos polos, nomeadamente no Porto, pode comprometer a resposta assistencial, ao dispersar recursos humanos escassos, apesar das listas de espera e das ambições de outras unidades.

Os diretores dos serviços de cirurgia cardiotorácica da ULS São João e da ULS Gaia/Espinho alertaram esta quarta-feira para os riscos associados à criação de novos centros de cirurgia cardíaca na região Norte, considerando que essa opção pode levar a uma dispersão “comprometedora” de recursos humanos e amputar capacidade aos centros atualmente em funcionamento.
Em declarações à agência Lusa, Adelino Leite Moreira, diretor do serviço de Cirurgia Cardiotorácica do São João, defendeu que, havendo disponibilidade financeira, será mais custo-efetivo investir e reforçar os centros já existentes do que abrir novas estruturas. O responsável sublinhou que a criação de novos centros implica duplicar equipas de urgência e prevenção, questionando a lógica de ter vários polos num raio geográfico reduzido.
A posição surge na sequência de uma notícia do Diário de Notícias, que revelou a existência de uma carta subscrita por quatro hospitais do Norte à ministra da Saúde, alertando para as listas de espera de doentes cardíacos que necessitam de cirurgia ou de implantação de válvula da aórtica. Entre os subscritores estão a ULS Santo António, a ULS Tâmega e Sousa, a ULS Trás-os-Montes e Alto Douro e a unidade que gere o Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos.
À ULS Santo António é atribuída a ambição de criar um novo centro de referência, cenário que, segundo Paulo Neves, diretor do serviço de cirurgia cardiotorácica da ULS Gaia/Espinho, colocaria em causa a capacidade dos centros existentes. “Não existe no mercado um conjunto de profissionais que permita abrir um centro novo sem recorrer aos recursos dos centros atuais”, afirmou, lembrando que as normas internacionais recomendam a concentração, e não a dispersão, de recursos.
Paulo Neves manifestou ainda preocupação com o modelo de financiamento que estará a ser equacionado, alegadamente assente em prestação de serviços, alertando para o risco de disrupções salariais e organizacionais entre profissionais que executam atos de complexidade diferente.
Adelino Leite Moreira recordou que a rede de referenciação foi definida em 2023, após um trabalho técnico baseado em dados assistenciais, e que o reforço já ocorreu com a recente abertura de um centro de referência em Braga, ainda a funcionar abaixo da capacidade por falta de recursos humanos. Segundo o responsável, quando estiver plenamente operacional, esse centro poderá responder às necessidades da região Norte.
Ambos os diretores sublinharam que as listas de espera têm vindo a diminuir. Em Gaia/Espinho, a redução foi de cerca de 40% no último ano e meio, com uma média de espera de 2,3 meses, enquanto no São João o número de cirurgias aumentou 6% no último ano, apesar da saída de cirurgiões para apoiar o novo centro de Braga.
A Direção-Executiva do SNS e outros serviços de cardiologia do Norte foram contactados pela Lusa e aguardam-se esclarecimentos.
LUSA/SO
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