
Oncologista médica e investigadora clínica, Centro Clínico Champalimaud, Fundação Champalimaud
Cancro da mama precoce
O estudo “Correlation of serum anti-Müllerian hormone (AMH) levels on identification of premenopausal patients (pts) with hormone receptor positive (HR+), HER2-negative, node-positive breast cancer most likely to benefit from adjuvant chemotherapy in SWOG S1007 (RxPONDER)”, apresentado na ASCO 2024, pretendeu refinar a identificação das mulheres com cancro de mama recetor hormonal positivo (RH+) HER2-negativo e gânglios positivos em pré/peri-menopausa, que beneficiam de quimioterapia.
Para tal, foi utilizada a medição sérica dos níveis de hormona anti-Mülleriana (AMH), como um potencial marcador preditivo de benefício de quimioterapia adjuvante. No estudo, liderado pela equipa de investigadores do SWOG, foram medidos os níveis basais de AMH sérico de mais de 1000 doentes incluídas no estudo RxPONDER com menos de 55 anos de idade em pré/peri-menopausa.
Estas medições permitiram reconhecer que os níveis de AMH refletem a reserva ovárica. Os resultados do estudo demonstraram que doentes com baixos níveis de AMH (<10 pg/mL) não beneficiaram de quimioterapia (21% da população do estudo) e que níveis elevados se correlacionaram com benefício dessa terapêutica, em termos de sobrevivência livre de doença invasiva.
A AMH surge assim como um preditor do benefício de quimioterapia, superior à idade ou marcadores séricos de menopausa, sugerindo que o maior benefício desta terapêutica deriva da ablação ovárica induzida pela quimioterapia, em doentes com RS <= 25. Se estes resultados forem validados, os níveis de AMH séricos poderão ajudar a melhor identificar doentes “pré-menopáusicas” com cancro de mama precoce hormonodependente e 1-3 gânglios positivos que não beneficiam de quimioterapia, melhorando a decisão terapêutica.
O estudo “Prognostic utility of ctDNA detetion in the monarchE trial of adjuvant abemaciclib plus endocrine therapy (ET) in HR+, HER-, node-positive, high-risk early breast cancer”, apresentado na ASCO 2024, avaliou o valor prognóstico da deteção de DNA tumoral circulante (ctDNA) em doentes com cancro de mama precoce de alto risco, recetor hormonal positivo (RH+), HER2 negativo (HER2-) e gânglios positivos, tratados com abemaciclib adjuvante, juntamente com terapêutica endócrina, no ensaio clínico monarchE.
Os resultados apresentados foram relativos ao “biomarker cohort” do estudo que incluiu 910 doentes de ambos os braços de tratamento e foi enriquecido para o endpoint de sobrevivência global livre de doença invasiva. Os níveis de ctDNA foram avaliados, usando o ensaio Signatera, na baseline (pré-abemaciclib) e aos 3, 6 e 24 meses.
Apesar de, e vale salientar, a positividade de ctDNA na baseline ter sido pouco frequente (8%), 17% dos doentes positivaram a sua deteção de ctDNA nas avaliações seguintes. Os resultados demonstraram que a deteção de ctDNA foi altamente prognóstica para piores outcomes, particularmente recidiva metastática.
Embora os detalhes completos do estudo não estejam disponíveis nos resultados fornecidos, é possível inferir que a deteção de ctDNA, após o tratamento adjuvante, pode ter valor prognóstico nesta população de doentes de alto risco, permitindo identificar um subgrupo de doentes que poderão beneficiar de otimização terapêutica. Para endereçar esta importante questão clínica, temos o exemplo de um estudo multicêntrico, atualmente aberto, que randomiza doentes com cdDNA+ (signatera) e exames de imagem negativos, para manter standard of care versus fulvestrant+palbociclib (NCT04567420).
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