“As tutelas devem perceber que tem de existir uma maior igualdade entre UCSP e USF”
Enquanto a UCSP de Loures não tem coordenador, Alda Monteiro assume essa responsabilidade, apesar de ser diretora clínica para os cuidados de saúde primários da ULS Loures-Odivelas. Com o lema do trabalho em equipa de saúde familiar, quis que a entrevista contasse com a participação dos responsáveis das áreas de Enfermagem e dos Assistentes Técnicos/Secretariado Clínico. Os três são unânimes: as UCSP não se vão extinguir e podem ser uma mais-valia para as novas gerações, mas é preciso que a tutela dê os mesmos incentivos a quem trata, sobretudo, dos utentes sem médico de família e com maiores necessidades.

Quais os principais desafios que enfrenta na coordenação da UCSP Loures, tendo em conta a conjuntura local?
A UCSP de Loures tem mais do que um polo, o que representa um desafio. Além disso, temos cerca de 18 mil utentes sem médico de família. A sede é na Mealhada, a área mais afetada por ter apenas um médico. Os polos são os do Tojal, da Lousa e de Bucelas. Cada um tem características diferentes, pelo que as estratégias variam consoante a unidade. A Mealhada é uma zona mais urbana, com mais utentes sem médico de família; Lousa e Tojal situam-se em áreas mais rurais, com menor densidade populacional; Bucelas também tem as suas especificidades. Em termos de recursos humanos, a resposta é variável. Essencialmente, há falta de médicos e de secretários clínicos; no caso dos enfermeiros, essa carência não é tão significativa.
E qual é o perfil da população?
A ULS abrange dois concelhos: Odivelas e Loures. Odivelas, mais recente enquanto concelho, tem uma população muito jovem. Loures, por outro lado, tem uma população mais envelhecida, o que implica mais doença, comorbilidades e polimedicação. Muitos destes utentes estão sem médico de família há vários anos.
Por exemplo, Bucelas, por ser uma zona mais rural, tem uma elevada percentagem de idosos. Lousa tem tanto idosos como jovens, dado que a habitação é mais acessível. A Mealhada, por sua vez, tem uma grande comunidade imigrante, com cerca de 43 nacionalidades. Isto implica uma diversidade linguística e cultural, com necessidades de saúde muito específicas, nomeadamente entre os mais jovens, onde há maior procura por cuidados de Saúde da Mulher e Infantil. Criámos o Espaço Saúde da Mulher e da Criança, coordenado por uma enfermeira especialista. Foi o primeiro espaço deste tipo num ACeS, e tem-se revelado essencial, especialmente para quem não tem médico de família. Este apoio não se limita à UCSP de Loures; abrange toda a ULS, embora esteja fisicamente localizado na Mealhada.
“Enquanto há USF com equipas de 10 médicos (incluindo internos), na UCSP pode haver apenas um médico para milhares de utentes sem médico de família. E esses utentes, muitas vezes, têm necessidades maiores”
Há muitos anos que o enfoque está nas USF. Sente que as UCSP são, atualmente, o “parente pobre” dos cuidados de saúde primários?
Sim. Embora, do ponto de vista organizacional, as UCSP não sejam necessariamente o “parente pobre” – há histórias de sucesso – a realidade é que muitas equipas integram apenas um médico. Nessas condições, é muito difícil instituir métodos de trabalho semelhantes aos das USF, que têm maior autonomia organizativa e metodológica. Procuramos encontrar estratégias para otimizar as condições existentes. Em Loures, a separação dos polos pode ser uma solução, dado que cada um tem particularidades próprias – seja na equipa, seja na população que serve.
Um dos problemas nas UCSP prende-se com a monitorização da atividade. Bucelas tem um desempenho melhor do que a Lousa, por exemplo, mas os dados da ACSS não refletem essa diferença, pois a avaliação é feita de forma agregada para toda a UCSP Loures. Isso é desmotivante para os colegas que apresentam bons indicadores – muitas vezes melhores do que os de algumas USF. Esta situação também afasta os médicos internos, que estão mais habituados ao modelo USF.
Em Lousa, nem sequer é possível abrir uma USF, porque não se atinge o número mínimo de utentes. E a nova geração de profissionais tem dificuldade em aceitar exercer Medicina nestas condições. O problema não é geográfico – pode ser mais rápido chegar a Lousa do que a Loures -, mas sim o facto de não haver uma equipa com quem discutir casos ou esclarecer dúvidas.
Em termos de constituição de equipas, as UCSP são de facto o “parente pobre”. Mesmo com a possibilidade de dedicação plena, que garante um salário mais elevado, esse incentivo aplica-se apenas aos médicos, deixando de fora os enfermeiros e os assistentes técnicos. Isto tem consequências sérias. Temos assistido à descapitalização das UCSP, porque os profissionais preferem ir para USF, onde toda a equipa recebe incentivos. Trabalhei muitos anos numa USF, no Lavradio, e reconheço as suas vantagens. No entanto, deveria haver igualdade de oportunidades, independentemente do modelo organizacional. As UCSP têm, muitas vezes, mais trabalho do que as USF, mas o vencimento não é igual.
O que se pode fazer para eliminar essa desigualdade?
Deveriam ser atribuídos os mesmos incentivos, com base em critérios de produtividade, a todas as unidades. Isso permitiria que os profissionais escolhessem onde querem trabalhar. Seria também mais fácil atrair e reter pessoas. É muito desmotivante pedir uma tarefa a um grupo de profissionais, quando sabem que não vão ser valorizados como os colegas das USF. Até os tutores de internato não recebem incentivo por darem formação. É uma luta inglória. Tentamos reforçar as equipas, mas as USF acabam por captar os nossos recursos, porque oferecem melhores condições.
Enquanto há USF com equipas de 10 médicos (incluindo internos), na UCSP pode haver apenas um médico para milhares de utentes sem médico de família. E esses utentes, muitas vezes, têm necessidades maiores. Não há igualdade! E isto leva ao desgaste. Tenho reparado que muitos escolhem a USF apenas pelo vencimento, e não por apreciarem o modelo, que é muito fechado e centrado em indicadores. Há quem se sinta mais realizado numa UCSP, onde há mais utentes sem médico e mais diversidade. Na ULS, procuramos integrar os médicos tarefeiros/prestadores na dinâmica da unidade, alinhando práticas com os objetivos da instituição – nomeadamente através dos rastreios e registos clínicos.
“As novas gerações valorizam modelos de trabalho mais flexíveis, e nesse aspeto, as UCSP podem ser mais atrativas”
Dentro da própria classe médica, há pressão para se falar mais de USF do que de UCSP?
Não. As USF têm maior visibilidade, também porque contam com a USF-AN para as representar. As UCSP, não tendo uma estrutura semelhante, ficam em desvantagem. Seria interessante criar algo como uma “UCSP-AN”, para dar visibilidade e apoio às unidades. O que determina o nosso trabalho não é o modelo, mas sim a vontade da equipa. As tutelas devem perceber que tem de haver maior igualdade entre UCSP e USF. Avançar para um modelo único de USF seria, talvez, um tiro no pé.
As novas gerações valorizam modelos de trabalho mais flexíveis, e nesse aspeto, as UCSP podem ser mais atrativas. Já se pergunta nos concursos se os candidatos aceitam horários a meio tempo. Essa flexibilização é mais fácil numa UCSP do que numa USF, onde os incentivos dependem de metas muito rígidas – que, se não forem cumpridas por um só elemento, afetam toda a equipa. Não acredito que as UCSP se venham a extinguir. Há 1,6 milhões de utentes sem médico de família e isso não se vai alterar no curto prazo.
Os médicos da UCSP de Loures são maioritariamente mais velhos ou também há jovens?
A maioria é mais velha, mas também temos jovens que optam por este modelo. Uma das colegas foi convidada para integrar uma USF e recusou, por se identificar mais com o modelo UCSP. Aqui, também damos espaço para que os profissionais se dediquem a áreas específicas. Essa colega, por exemplo, faz consultas de Medicina do Viajante na USP de Loures. Uma vantagem das UCSP é a flexibilidade para desenvolver projetos diferenciadores, desde que não se esteja em dedicação plena. O envelhecimento da população e a diversidade cultural trazem novos desafios – e também oportunidades para projetos inovadores.
“Estamos também a organizar Open Days para dar a conhecer a UCSP e outras unidades funcionais aos internos”
Que projetos têm ou preveem implementar?
Um dos projetos é a teleconsulta, envolvendo médicos e enfermeiros. Queremos investir em equipamentos que permitam, por exemplo, realizar exame objetivo à distância. Outro projeto importante são os rastreios oncológicos. O Espaço Saúde da Mulher e da Criança, com presença em toda a ULS, continua a ser um apoio essencial. Estamos também a organizar Open Days para dar a conhecer a UCSP e outras unidades funcionais aos internos. No âmbito da ULS, está em curso a reorganização do regulamento interno, a formação de lideranças intermédias e o desenvolvimento de processos assistenciais integrados, para uma resposta mais eficiente.
Queremos que enfermeiros e assistentes técnicos tenham um papel mais ativo, porque nem todas as questões são médicas. Um doente com DPOC, por exemplo, poderá beneficiar mais do acompanhamento por Enfermagem. Já um utente com perturbações de ansiedade ou depressão pode beneficiar mais de um psicólogo. Estamos a trabalhar também num guião para implementar um projeto de Prescrição Social, com parcerias na comunidade.
No fundo, queremos conhecer as reais necessidades da população e dar uma resposta mais eficiente, menos centrada no hospital e na doença. A nossa meta é: Promoção, Prevenção e Cuidado, com uma abordagem mais abrangente.

Davide Oca, Alda Monteiro e Patrícia Medina
“Tentamos um ponto de equilíbrio entre promoção/prevenção – situação de doença”
Patrícia Medina, Adjunta da Direção de Enfermagem na ULS Loures Odivelas
Quais os desafios na Enfermagem em UCSP?
Nos últimos anos, as UCSP têm sido descapitalizadas em termos de recursos. O modelo de gestão e de atribuição de incentivos acabou por levar enfermeiros a optarem mais por USF. Com este Conselho de Administração (CA), a nossa aposta é o reforço dos recursos a nível comunitário, ou seja, todos os profissionais que trabalham sob o regime de prestação de serviços, foram convidados a integrar o quadro de Enfermagem da ULS. Estamos, atualmente, a trabalhar no modelo de diferenciação da Consulta de Enfermagem. O enfermeiro é um profissional diferenciado, capacitado, que consegue dar resposta a necessidades de saúde dos utentes e que funciona como elo de ligação pela proximidade que tem às diferentes tipologias de recurso e necessidades do utente. O Espaço da Saúde da Mulher e da Criança é uma das imagens desse investimento, ao ser coordenado pela Enfermagem, apesar do contributo de outros grupos profissionais. Não nos queremos focar muito no modelo curativo e interventivo, mas sim, na avaliação global do utente.
Apesar das limitações, tentam trabalhar em equipa de família?
Sim. Oficialmente, ainda não somos enfermeiros de família, mas estamos a tentar desenvolver um modelo híbrido entre enfermeiro de família e enfermeiro de referência, através da atribuição de lista de utentes, baseada na estratificação de risco. Obviamente, numa UCSP onde há 18 mil utentes sem médico de família, se tenho apenas 7 ou 8 enfermeiros, as necessidades são sempre acrescidas. Mas, mesmo assim, tentamos um ponto de equilíbrio entre promoção/prevenção – necessidades em situação de doença.
Em termos de recursos estamos muito melhor que os médicos, a questão na Enfermagem é mais a organização do modelo de trabalho, porque não há espaço físico. Os CSP, em termos de captação de enfermeiros, são mais atrativos do que o hospital. A autonomia que o enfermeiro tem nos CSP é maior do que na unidade hospitalar e em todo o ciclo vital. Infelizmente, não recebemos incentivos como nas USF, mas este CA tem procurado valorizar as pessoas, com formação, e isso tem dado frutos.
Há mais enfermeiros generalistas ou especialistas?
Há 60% de especialistas, mas ao nível de cuidados de saúde primários.
As UCSP vão desaparecer?
Não! Acredito que se vão manter, porque o modelo USF tem ótimos resultados, mas torna-se, ao longo do tempo, cansativo e desgastante. Corre-se atrás do valor em saúde de uma forma muito centrada nos indicadores. É uma exigência muito grande, para a qual os mais jovens não estão tão predispostos.
“Os assistentes técnicos são os pilares invisíveis das unidades”
Davide Oca, Coordenador dos Assistentes Técnicos da ULS Loures Odivelas
Quais os desafios dos assistentes técnicos na UCSP de Loures?
Atualmente, o grande problema é a falta de recursos humanos. Os assistentes técnicos são os pilares invisíveis das unidades: estamos lá, mas mal nos veem! Não digo isto de forma maliciosa. Acho que o assistente técnico tem um papel importantíssimo e cada vez mais é o elo de ligação com o médico e com o enfermeiro.
Outro desafio é a falta de formação. Hoje, enfrentamos desafios muito grandes, principalmente no que diz respeito à língua. Nem todas as pessoas querem aprender novos idiomas, como o Inglês ou o Francês para atender os utentes imigrantes. Na ULS queremos dar formação, porque é essencial.
Também em línguas?
Atualmente, ainda não temos essa oferta, mas acredito que, em breve, terá de haver.
Em termos de idade, são profissionais mais velhos, na sua maioria. Também sente a pressão das USF?
É muito mais atrativo, do ponto de vista financeiro, ir para uma USF. Podemos recrutar duas assistentes, mas ao fim de dois meses, acabam por sair. Os incentivos atraem, como é lógico. Há colegas que gostam de estar em UCSP, não se revendo no modelo USF, mas há outros que estão desmotivados, porque trabalham muito e não têm direito aos mesmos incentivos.
Existe ainda a questão do não reconhecimento da carreira?
Este mês deu entrada na Assembleia da República uma petição para dar início à criação da tão desejada Carreira Especial de Técnico Secretário Clínico. Acredito que poderá haver resultados a médio prazo. A carreira de assistente técnico existe mas é muito pouco reconhecida e valorizada, daí ser necessária esta mudança para que exista um maior reconhecimento e valorização da mesma.
Será também uma forma de o assistente técnico se sentir mais parte integrante da equipa de família?
Sim! O nosso trabalho tem de ser em equipa para que se obtenham bons resultados. O reconhecimento da carreira de Técnico secretário clínico seria uma grande alavanca para que se tivesse mais motivação nesta profissão.
E as UCSP, vão manter-se?
Sim, não vislumbro o futuro sem estas unidades.
Maria João Garcia
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