Clínica Universitária de Pediatria da Faculdade de Medicina de Lisboa Unidade de Imunoalergologia Pediátrica do Hospital Santa Maria, Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte

As infeções respiratórias agudas são prevalentes nas crianças

Regresso às aulas em época de pandemia Covid 19

*Principais dúvidas e receios dos pais e educadores.

*O risco infecioso nas crianças e jovens.

*A importância da microbiota intestinal e da alimentação no desenvolvimento de uma resposta imune adequada.

O início do Ano Escolar tem levantado grandes espectativas e muitas dúvidas, não só por parte dos pais e educadores, mas igualmente por parte dos pediatras e médicos de família. Em todas as instituições de ensino, públicas e privadas, medidas de prevenção rigorosas que visam reduzir o risco de contágio, têm sido tomadas, o que tranquiliza os pais, educadores e as próprias crianças e jovens, na sua maioria conscientes da gravidade do período que atravessamos.

Sem dúvida que a principal medida de prevenção é a vacinação específica contra esta doença. No entanto, a tão esperada e desejada vacina, que tem de ser específica, segura e eficaz, está ainda em fase de ensaios e não se encontra disponível, apontando as melhores previsões para o início próximo ano.

Por enquanto, as medidas de prevenção consideradas mais eficazes são o isolamento, o uso obrigatório de máscara facial, a necessidade de manter o distanciamento entre as pessoas e a substituição do tradicional abraço de amizade ou do tradicional beijinho de cortesia pelo simples toque no cotovelo.

Uma espiral de medo ou mesmo de pânico está já instalada numa considerável parte da população. Algumas crianças ficam muito assustadas quando se lhes retira a máscara para uma simples observação clínica. O sentimento de medo dos pais reflete-se nos seus filhos e quando adquirido numa idade jovem poderá deixar marcas futuras, gerando comportamentos de insegurança e de afastamento social. Uma verdadeira Pandemia de medo poderá vir a constituir uma nova patologia. É preciso evitá-la.

As infeções respiratórias agudas são prevalentes nas crianças        

As infeções respiratórias agudas (IRA), incluindo as rinofaringites, amigdalites e a otite média aguda (OMA) de etiologia viral, ou bacteriana, são muito frequentes na idade pediátrica, com uma prevalência que aumenta nos meses mais frios, ou seja, a partir do outono e até ao final do inverno, observando-se um aumento substancial do consumo de antibióticos e um elevado absentismo escolar. Este facto deve-se, por um lado a uma a uma imaturidade imunológica própria da idade e, por outro lado, ao contacto com maior carga de microrganismos (vírus e bactérias) nos infantários e nas escolas.

Do ponto de vista imunológico a criança ao nascer é imunologicamente competente, mas inexperiente, observando-se um maior desenvolvimento do sistema de imunidade celular cujo órgão central é o Timo que está apto a responder à estimulação antigénica, mas uma imaturidade acentuada da imunidade humoral com um défice fisiológico de anticorpos. No recém-nascido existem quase exclusivamente anticorpos da classe IgG de origem materna, que passam da mãe para o feto através da barreira placentária sobretudo a partir do sexto mês de gestação, observando-se uma ausência quase total de anticorpos das classes IgA, IgG e IgM. Estes, irão começar a ser produzidos após o nascimento, mercê da estimulação antigénica do sistema imunológico através do contacto com os antigénios do meio ambiente e com o início da alimentação oral, o que torna as crianças de menor idade mais vulneráveis às infeções.

O papel do intestino na imunidade

O intestino constitui a principal zona de barreira entre o meio exterior e o meio interno sendo considerado o principal órgão linfoide do nosso organismo, pela sua extensão e riqueza em células imunologicamente competentes e em tecido linfoide organizado (GALT- Gut Associated Lynphoid Tissue). A microbiota intestinal que se desenvolve a partir do nascimento irá ter um papel primordial no amadurecimento e manutenção da integridade do sistema imune local e sistémico, condicionando a sua alteração, disbiose, desvios da resposta imune com aparecimento de doenças locais, ou sistémicas. Assim, a existência de uma microbiota intestinal saudável desde o nascimento é um fator essencial para o desenvolvimento de uma resposta imune adequada às múltiplas agressões antigénicas que a mucosa intestinal está permanentemente a ser submetida.

Múltiplos fatores influenciam o tipo de flora microbiana intestinal que se desenvolve desde o período neonatal. O tipo de parto, é um deles, havendo diferenças entre o parto eutócico versus parto por cesariana, no que respeita ao início da estimulação do sistema imune intestinal, a qual é mais precoce no parto eutócico em que existe um contacto direto da mucosa intestinal do recém-nascido com microrganismos da flora vaginal e intestinal materna através da deglutição das secreções e líquido amniótico.

O tipo de alimentação desde o nascimento influencia igualmente a microflora intestinal do recém-nascido e do pequeno lactente e consequentemente o desenvolvimento do sistema imune local. O leite materno para além das suas propriedades nutritivas essenciais ao bom desenvolvimento do lactente constitui um verdadeiro suplemento e um estímulo imunológico natural. A sua riqueza em anticorpos IgA secretores (IgAs), em células imunologicamente competentes, em probióticos naturais como lactobacillus e bifidobactérias e em prebióticos naturais, os oligossacáridos do leite materno (HMO), vai favorecer um desenvolvimento adequado do sistema imune da criança desde o seu nascimento, reduzindo o risco infecioso e alérgico.

Os probióticos

A microbiota intestinal é o principal estímulo orientador do desenvolvimento do sistema imune da mucosa. O desequilíbrio da microbiota, disbiose, irá ter consequências para a saúde a curto e longo prazo com aumento da probabilidade de aparecimento de doenças alérgicas e doenças inflamatórias, “Dysimmune disease”.

Do ponto de vista imunológico, tem um papel na modulação do sistema imune local e manutenção da integridade da parede intestinal, através da estimulação da resposta imune não específica ou inata, mediada em grande parte pelas células dendríticas da mucosa intestinal (CD), que são células fagocitárias importantes na apresentação dos antigénios ao sistema imune específico, linfócitos T, e na resposta imune específica, com maior produção de anticorpos, em especial anticorpos IgA secretores.

Vários trabalhos científicos têm demonstrado o seu papel importante no aumento dos mecanismos de defesa contra doenças infeciosas, em especial as infeções intestinais e respiratórias. Estas últimas, uma importante causa de morbilidade na idade pediátrica, deixam, por vezes, sequelas a nível do aparelho respiratório e são um fator precipitante do aparecimento ou agravamento de alergia respiratória, como a asma brônquica, em crianças mais suscetíveis a esta patologia.

Uma intervenção dietética/nutricional iniciada numa idade precoce da vida através da administração de probióticos específicos, como o Lactobacillus Rhamnosus GG e Bifidobacterium lactis Bb-12, que irão estimular a proliferação de uma microbiota intestinal saudável, assim como, a suplementação com vitamina D, poderá ter um importante papel na prevenção das infeções respiratórias agudas tão frequentes, na idade pediátrica, sobretudo nos grupos etários mais jovens, imunologicamente imaturos e mais suscetíveis às infeções virais e bacterianas, o que, neste período de pandemia Covid-19 que atravessamos, tem seguramente uma extrema relevância clínica.

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