“Alguns dos mecanismos envolvidos no burnout são centrais na depressão”
A síndrome de burnout não é uma patologia psiquiátrica, mas quando não é tratada, pode ser fator de risco para a depressão. João Bessa, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental (SPPSM), fala sobre as duas condições e apela à valorização do descanso e do ‘desligar’ do mundo digital nas férias.

Quais são as principais diferenças entre cansaço físico e mental e o burnout?
O burnout não é propriamente uma perturbação psiquiátrica, mas sim uma síndrome. Por outras palavras, é um conjunto de alterações que acontecem a nível físico, emocional, comportamental e cognitivo e que estão relacionadas com a exposição prolongada ao stress. O cansaço, que todos sentimos no dia a dia, acaba por ser superado facilmente com descanso. No caso do burnout, como está associado a um stress contínuo, acaba por ter um impacto significativo em termos funcionais, não se resolvendo somente com o descanso habitual. Regra geral, esta condição tem sido associada mais a questões laborais – que, atualmente, são centrais -, mas também se poderá dever a stress crónico noutras dimensões da vida da pessoa. No caso concreto do trabalho, as pessoas notam uma diminuição no rendimento, mas também na sua esfera pessoal, nomeadamente no prazer que deixam de sentir nas atividades que sempre gostaram, na sua capacidade e níveis de energia.
A síndrome de burnout pode tornar-se crónica?
A questão não se centra tanto na cronicidade, já que não se trata, per se, de uma patologia psiquiátrica. São conhecidos alguns dos mecanismos que estão envolvidos nestes sintomas associados à exposição ao stress crónico, sobretudo a nível cerebral. Há alterações hormonais importantes, também, com impacto no funcionamento de alguns circuitos cerebrais e na utilização de alguns neurotransmissores do Sistema Nervoso Central (SNC) como a serotonina, noradrenalina e dopamina.
“A conectividade do mundo digital tem vantagens, mas tornou mais difícil o ‘desligar’ em momentos de descanso, inclusive nas férias, que é um período essencial de recuperação física, emocional e cognitiva”
No caso específico dos profissionais de saúde, fala-se cada vez mais de burnout. De que forma se pode prevenir a saúde mental em pessoas que têm de cuidar dos outros?
Os profissionais de saúde são um bom exemplo de um contexto laboral que é propício ao desenvolvimento desta síndrome e que tem a ver com as muitas horas de trabalho e com a exigência, atenção e responsabilidade envolvidas. É essencial proteger as horas de descanso, procurando o bem-estar físico e psíquico, através de atividades prazerosas. Deve-se também fazer pausas ao longo do dia e não se deve esquecer o exercício físico que ajuda a regular alterações no cérebro.
É preciso ‘desligar’, nomeadamente nas férias…
É verdade! A conectividade do mundo digital tem vantagens, mas tornou mais difícil o ‘desligar’ em momentos de descanso, inclusive nas férias, que é um período essencial de recuperação física, emocional e cognitiva. Nas férias tem de se focar a atenção noutras atividades e interesses que vão além do que está acessível a nível digital. Um bom exemplo é a leitura, o exercício físico e o convívio e interação social e familiar. É essencial reforçar os laços afetivos.
A síndrome de burnout é mais um fator de risco para a depressão?
Sim, existe uma associação importante, assim como com a ansiedade. Alguns dos mecanismos envolvidos no burnout são, de facto, centrais na depressão e ansiedade. É muito importante reconhecer os sinais e sintomas desta síndrome numa fase precoce para se garantir que não há uma evolução para doença psiquiátrica.
“A depressão é uma doença como outra qualquer, que passa por alterações físicas e cerebrais importantes”
Para tal deve-se apostar na literacia em saúde. Qual a relevância do projeto “Viva para lá da depressão”?
Este projeto resulta de uma parceria entre a Angelini e a SPPSM e o objetivo principal é a promoção da literacia em saúde, em particular na área da depressão. É uma patologia que tem forte impacto na sociedade. Com o projeto também se pretende combater o estigma associado a patologias psiquiátricas, nomeadamente a depressão. É preciso desconstruir os mitos que ainda persistem.
Esses mitos também afetam os profissionais de saúde?
Hoje em dia, há mais conhecimento sobre o que é a depressão. Mas, de facto, ainda há persistem ideias pré-concebidas que precisam de ser trabalhadas. Por exemplo, considera-se que quem está deprimido é mais frágil ou fraco e isso não é de todo verdade. A depressão pode atingir qualquer pessoa! Pensa-se, ainda, que a pessoa procura algum ganho secundário; todavia, no dia a dia, o indivíduo sente uma enorme angústia por não conseguir lidar com os obstáculos e responsabilidades diárias. É preciso desmistificar, também, o preconceito que existe em se considerar que esta patologia não tem uma componente médica e orgânica como as restantes. Isso não é verdade! A depressão é uma doença como outra qualquer, que passa por alterações físicas e cerebrais importantes, que, atualmente, podem ser colmatadas através de intervenções psicoterapêuticas e psicofarmacológicas. Assim, quando surgem os sintomas é essencial procurar ajuda.
MJG
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