27 Abr, 2021

Agressividade dos utentes aumenta por falta de acesso a consultas

Deslocação de médicos de família para apoiar as áreas dedicadas à covid-19 está a causar “gravíssimos danos” na saúde dos utentes, diz o secretário-geral do SIM, Jorge Roque da Cunha.

O Sindicato Independente dos Médicos alerta que a retirada de médicos de família das consultas para apoiar as áreas dedicadas à covid-19 está a causar ansiedade nos utentes e a aumentar a agressividade contra os profissionais de saúde.

Em declarações à agência Lusa, o secretário-geral do SIM, Jorge Roque da Cunha, afirmou que a deslocação dos médicos para desempenharem funções em Áreas Dedicadas à Covid-19, Centros de Vacinação e vigilância de casos suspeitos ou confirmados por infeção SARS-CoV-2 está a causar “gravíssimos danos” na saúde dos utentes.

“Estando o Ministério da Saúde persistentemente sem querer contratar profissionais de saúde para esse efeito, sem se organizar junto de autarquias, que se disponibilizaram para fazer a contratação de médicos, enfermeiros e funcionários administrativos faz com dezenas de milhares de portugueses tenham os seus diagnósticos e o acompanhamento das doenças crónicas mais tardios”, salientou.

Para o dirigente sindical, trata-se de uma questão de organização: “os médicos não se eximem do seu trabalho extraordinário, nos seus fins de semana de fazer essa vacinação, mas é impossível, é impraticável, que esse tipo de acompanhamento seja feito” aos utentes.

Além dos seus utentes, os médicos estão a ver doentes sem médico atribuído e os doentes com pulseiras verdes e azuis (menos urgentes) que são enviados dos hospitais para os centros de saúde, uma tarefa “totalmente impossível”.

Médico de família, contou que só na última semana iniciou o tratamento a dois doentes hipertensos e a quatro diabéticos e identificou dois cancros do cólon, um cancro dos pulmões e um nódulo suspeito da mama.

“Se estivesse na vacinação naturalmente isso era impossível”, elucidou, pedindo ao Ministério da Saúde que se organize.

“A vacinação é estratégica e é fundamental, mas que se organize de forma a que não prejudiquem ainda mais os já pouco acompanhados utentes do Serviço Nacional de Saúde”, apelou.

Roque da Cunha disse que esta situação está a causar também “a maior das perturbações em termos de ansiedade, de aumento das crises depressivas por dificuldade de acesso às consultas”.

Ao mesmo tempo, têm-se assistido ultimamente a um “aumento da agressividade” dos utentes contra os médicos por não conseguirem ter consulta.

O SIM alertou há uma semana, por carta, a ministra da Saúde para esta situação, e agora foi a vez de alertar todos os diretores executivos dos Agrupamentos de Centros de Saúde, todos os diretores clínicos e todos presidentes das unidades de saúde locais.

“O facto de haver um milhão de portugueses sem médico de família, o facto de se saber que este processo patriótico de vacinação irá decorrer nos próximos 12 a 18 meses, algo a que se irá juntar a necessidade da vacinação da gripe, tem feito com que os diretores-executivos tenham retirado (…) os médicos de família, os enfermeiros, e os administrativos daquilo que é a sua função, o acompanhamento das doenças crónicas”, salientou.

Roque da Cunha assegurou que o SIM irá utilizar “todos os instrumentos legais” para demonstrar, que para além das “responsabilidades morais e éticas” do Ministério da Saúde, “existem responsabilidades civis e de dolo eventual a toda uma população que necessita de ser acompanhada”.

“O Ministério da Saúde por inação está a ser corresponsável pelo aumento da mortalidade e das incapacidades resultantes das doenças por não serem devidamente tratadas e por não haver acessibilidade por parte dos utentes aos seus médicos”, acusou.

LUSA

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