A Vacina: realidade ou utopia?

Diana Oliveira

Diana Oliveira

Estudante do MICF

Quando pensamos na criação de uma vacina, raramente visualizamos as várias dimensões envolvidas no seu complexo ciclo de vida. Em plena pandemia, torna-se ainda mais difícil certificarmo-nos que a informação passada pelos media é verídica, transparente e mais importante que tudo, realista.

Gestão de expectativas: um esforço necessário

Apenas 7 meses após a oficialização do aparecimento da COVID-19, são já mais de 100 o número de vacinas candidatas ao combate da nova estirpe de coronavírus. Embora este seja um número extremamente encorajador do ponto de vista científico, dada a rapidez astronómica levada a cabo no âmbito destas investigações, é necessário que haja uma gestão de expectativas realista, principalmente junto das populações que, diariamente, são influenciadas pelos títulos gritantes utilizados pelos media.

Garantir uma vacina contra a mais recente pandemia já no início do próximo ano pode, no entanto, revelar-se perigoso, não só por nos transmitir uma falsa sensação de segurança no que diz respeito à gravidade deste vírus, mas também por nos levar a negligenciar os nossos deveres cívicos enquanto agentes de saúde pública.

Genericamente, qualquer vacina demora vários anos até ser introduzida no mercado. Numa primeira fase de investigação e desenvolvimento, é frequente esperar até 10 anos para que os primeiros resultados promissores apareçam. De seguida, surge a etapa mais importante e desafiante para o sucesso de qualquer vacina, e onde a maioria fica pelo caminho: os testes clínicos, também estes realizados ao longo de vários anos consoante os resultados obtidos em cada fase. Sem robustez clínica e eficácia comprovada nesta etapa, não é dada passagem à próxima etapa de autorização e acesso. Apenas cerca de 10% chega a este nível.

Assim, apesar do trabalho exímio e exigente que está a ser feito por parte de todos os laboratórios e institutos envolvidos nestas investigações sem precedentes, importa manter o escrutínio habitual ainda que estejamos perante pressões acima do normal. Estamos, de facto, perante um autêntico recorde temporal no que à procura de uma vacina diz respeito e tal feito deve ser louvado, mas sem nunca prescindir de etapas essenciais que confiram qualidade ao produto final.

Apesar de todos os avanços positivos que têm sido possível constatar, é necessário termos os pés assentes na terra e colocar todas as cartas em cima da mesa.

Especialistas confessaram ao New York Times que, numa situação normal, teríamos uma vacina pronta por volta de 2036, o que representaria uma espera muito pouco sustentável dado o panorama atual. Embora possa parecer uma previsão pessimista, importa perceber que, até ao momento, a vacina que detém o recorde em termos de rapidez na inserção no mercado, levou cerca de 4 anos a conquistar esse feito. Vacinas bastante conhecidas por nós, como a do HPV, apenas estiveram concluídas 15 após o início das investigações.

Em 1984, após a descoberta do vírus da SIDA, foram feitas previsões de cerca de 2 anos até ao aparecimento de uma vacina. Hoje, 36 anos depois, continuamos sem uma, ainda que ser-se diagnosticado com SIDA já não seja uma sentença de morte. Embora se situem histórica e cientificamente de forma diferente, as lições são as mesmas. Numa perspetiva mais otimista, a situação atual do vírus da SIDA também nos ensina que é possível combater um vírus sem uma vacina e que a prevenção é chave de muitos problemas.

Conviver com o vírus

Esta é a expressão mais ouvida do momento. Num cenário pessimista, não teremos vacina no início do próximo ano e será muito utópico acreditar ser possível manter a população mundial em quarentena até ao “dia D”.

Conviver com o vírus é muito mais do que quebrar o confinamento, ainda que continue a existir uma conotação negativa associada a essa inevitabilidade. Urge informar as populações a adotar hábitos diários de proteção contra a COVID-19, e ainda que já exista uma saturação de informação, ela não é clara, pois continuamos a observar quem não saiba sequer usar uma máscara. O vírus não se educa, mas as pessoas sim. Deixemo-nos de complicações e procedimentos, e sejamos diretos e claros com as populações.

São vários os focos a atacar. Suspender todo e qualquer tipo de atividade não faz parte da solução, não só por ser inviável economicamente, mas por não ser uma solução sustentável por longos períodos de tempo. Investir no desenvolvimento de tratamentos, como antirretrovirais, e na prevenção e educação, é a chave para uma transição saudável até à descoberta da vacina, caso aconteça.

Iniciativas como o Sistema de Incentivos à Inovação Produtiva no contexto da COVID-19, financiado por Fundos Europeus até um limite máximo de 75 milhões de euros, apresentaram taxas de adesão recorde, reiterando assim a necessidade e pertinência de investimento deste género, não só por permitir a reinvenção e adaptação de PME ou não PME, mas também por estimular o aparecimento e crescimento de projetos no âmbito da presente pandemia. Importa ainda prestar o devido acompanhamento a estes projetos, também pelo facto de serem investimentos do âmbito público, de modo a identificar lacunas, avanços ou retrocessos, para que possam ser feitos os devidos ajustes e retificações.

Inúmeras questões ainda se colocam relativamente ao aparecimento de uma vacina e que importam definir à priori. Como será feita a distribuição equitativa a nível mundial? Como garantir um combate eficaz e acessível às populações prioritárias? Será esta uma vacina economicamente viável?

Ainda que muitas delas não tenham resposta de momento, um dado é certo: mais do que um Serviço Nacional de Saúde, Portugal tem um verdadeiro Sistema Nacional de Saúde. Saibamos investir e tirar o máximo partido dele envolvendo todas as camadas de profissionais de saúde que o compõe, para melhor otimizar este combate, desde os médicos e enfermeiros, à maior e mais próxima rede de cuidados do país: as farmácias e os farmacêuticos.

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