“A confiança no SNS, não estando ainda aos níveis de 2019, tem vindo a recuperar”

De acordo com o Estudo Saúdes – ‘A Saúde dos Portugueses: Um BI em nome Próprio’, os portugueses consideram que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) tem vindo a melhorar nos últimos tempos. Maria do Carmo Silveira, responsável de orquestração estratégica do ecossistema de saúde do Grupo Ageas Portugal, fala sobre este e outros resultados do estudo, nomeadamente a relação saúde-finanças.

“A confiança no SNS, não estando ainda aos níveis de 2019, tem vindo a recuperar”

“A Saúde dos Portugueses: Um BI em Nome Próprio” demonstra que os portugueses acham que o sistema de saúde português é de qualidade. Esperava este resultado, tendo em conta as notícias mais recentes, que falam de uma grave crise no setor?

Apesar das notícias recentes sobre a crise no setor da saúde, o estudo ‘A Saúde dos Portugueses: Um BI em Nome Próprio’ revela que os portugueses, em geral, consideram o sistema de saúde português como sendo de qualidade. 53% avalia como elevada e/ou muito elevada a qualidade dos serviços (público e privado). Este resultado contrasta com os relatos frequentes da agudização crescente dos problemas no setor. O estudo, apoiado pela Médis e feito em parceria com a Return On Ideas (ROI), aponta para uma melhoria ligeira, mas geral, na avaliação da qualidade dos serviços de saúde em relação a 2021 (de 7.0 para 7.3, respetivamente).

Revela ainda que o setor público é o grande motor da evolução: 19% dos que utilizam mais ou até exclusivamente os serviços públicos consideram que o acompanhamento em saúde que recebe tem vindo a melhorar. No privado, a percentagem dos que fazem a mesma avaliação é de 12%. Verifica-se também que a confiança no SNS, não estando ainda aos níveis de 2019 (7.4, numa escala de 1 a 10), tem vindo a recuperar face a 2021, período em que estávamos em pandemia (entre 2021 e 2024 subiu de 6.1 para 6.7, numa escala de 1 a 10).

Existem, contudo, assimetrias regionais. É o mais preocupante neste momento?

A desigualdade no acesso à saúde em Portugal é uma realidade e uma preocupação. A 2.ª edição do estudo “A Saúde dos Portugueses: Um BI em Nome Próprio” revela, através dos seus indicadores, que o acesso à saúde não é igual em todo o país. A região do Grande Porto destaca-se como a mais favorecida, com indicadores (de acesso e qualidade) significativamente acima da média nacional. Em contrapartida, o Algarve enfrenta uma situação crítica. Os residentes relatam falta de acompanhamento e dificuldades de acesso à saúde, com uma degradação de -25% nos indicadores analisados, ficando abaixo da média nacional. Também os utentes que residem longe dos grandes centros urbanos são fortemente afetados. As entrevistas realizadas durante o estudo sugerem que o acesso à saúde pode estar comprometido em alguns concelhos, possivelmente, devido à crescente pressão demográfica e à falta de recursos em alguns serviços.

“A elevada percentagem de 43% de inquiridos que relatam não ter recursos financeiros para enfrentar problemas de saúde é alarmante e expõe a vulnerabilidade de uma parte significativa da população”

Relativamente ao acesso à saúde, o estudo indica que 43% dos inquiridos diz não ter recursos financeiros para fazer face aos seus problemas de saúde. Como vê esta percentagem tão elevada?

A elevada percentagem de 43% de inquiridos que relatam não ter recursos financeiros para enfrentar problemas de saúde é alarmante e expõe a vulnerabilidade de uma parte significativa da população. Testemunhos como “bem- estar é ter as contas pagas. O resto vem depois” evidenciam como a precariedade financeira também afeta as decisões relacionadas com os cuidados médicos. Mas esse não é, infelizmente, o único número que deve despertar consciências. 18% sente que a sua saúde foi negativamente afetada por problemas financeiros no último ano. O número sobe para 33% entre os que têm rendimento abaixo das necessidades do agregado. Portanto, no estudo, fica mais do que provada a correlação saúde-finanças. Esta é uma razão para, como país, tomarmos mais atenção ao tema das desigualdades que criam – também na saúde – enormes fragilidades.

“É verdade que dos cinco indicadores medidos, a literacia teve a maior subida, mas 6.8 em 10 está longe de ser uma ótima pontuação”

Dos inquiridos, 46% enfrentaram problemas de saúde mental nos últimos dois anos, o que demonstra o impacto das dificuldades financeiras no bem-estar psicológico, de acordo com o estudo. Esta é uma das áreas que deve ser prioritária nos próximos tempos?

Sim, claramente. Quando, segundo a amostra do estudo, 46% dos que indicam rendimento abaixo das necessidades do agregado referem problemas mentais nos últimos dois anos, tal significa que a relação entre condições socioeconómicas e saúde emerge de forma mais vincada na saúde mental, logo, essa deve ser uma prioridade. Mas não é tudo.

As condições de trabalho também contribuem para o problema da saúde mental. Um em cada três trabalhadores considera o seu ritmo de trabalho prejudicial à saúde, enquanto 47% relata alta pressão de carga e tempo. A consequência direta dessa pressão é o aumento de problemas de saúde relacionados com o trabalho, com 54% dos trabalhadores a indicar pelo menos um problema no último ano, sendo o stress e a ansiedade os mais frequentes (37%). Finalmente, também claríssimo no estudo, temos a questão dos jovens: 18% dos que têm entre 18 e 24 anos afirmam ter doença mental diagnosticada nos últimos dois anos. Esta é uma geração assolada pela falta de esperança e, talvez, pelo excesso de digitalização, a que temos de acudir.

E que outras áreas devem ser importantes num futuro próximo, tendo em conta os resultados deste estudo?

Neste ponto destacaria três áreas, as quais, com base em dados do estudo, merecem a nossa atenção, aprofundamento e dedicação. Na primeira área – resultante da análise das áreas da saúde em que os portugueses mais sentem lacunas – estão temas como a nutrição ou o sono. Claramente, um sinal de que o conceito de saúde é hoje maior e mais abrangente.

Na segunda área, destacando o aumento da nossa autoavaliação de saúde, notamos que há uma percentagem maior da população com um estilo de vida saudável, passando de 59% dos portugueses em 2021 para 64% em 2024. São, sem dúvida boas notícias, algo em que devemos continuar a apostar.

Ainda assim e em contradição, no indicador que mede a capacidade de nos esforçarmos efetivamente a ter comportamentos pró-ativos de saúde – o indicador “Potência Saúde” – pontuamos mal. Numa escala de 1 a 10, estamos nos 5.45, o mais baixo de todos os indicadores. Dito de forma simples: queremos muito ter saúde no futuro, mas esforçamo-nos ainda pouco no presente para a conquistar. Ora, num país que tem uma qualidade de vida e saúde após a reforma abaixo de muitos países da OCDE, o esforço coletivo de promoção de saúde futura deve ser um foco.

Finalmente, na terceira área, a baixa literacia que ainda temos. É verdade que dos cinco indicadores medidos, a literacia teve a maior subida, mas 6.8 em 10 está longe de ser uma ótima pontuação. Também aqui há, por isso, muitos desafios.

MJG

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