“Temos feito um bom trabalho em Portugal na área da saúde respiratória”
Cláudia Vicente foi eleita presidente do International Primary Care Respiratory Group (IPCRG) para o mandato de 2026-2028. Ao Jornal Médico de Família, realça os avanços na área da saúde respiratória, apesar das melhorias necessárias, e alerta para a importância da vacinação extra-Programa Nacional de Vacinação. Depois de ter liderado o Grupo de Doenças respiratórias da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar (APMGF) é a segunda portuguesa à frente do Grupo. O primeiro foi o médico de família Jaime Correia de Sousa, entre 2016-2018.

Como é estar à frente do IPCGR?
É um enorme desafio. O IPCGR tem crescido muito nos últimos anos, logo fazer parte do Board e ser presidente é uma grande responsabilidade. Atualmente, a associação engloba 41 países, o que implica que exitam muitas diferenças sociais, económicas e políticas e, às quais, é preciso considerar para melhorar a saúde respiratória nos cuidados de saúde primários (CSP). Precisamos igualmente conhecer os recursos assim como as barreiras culturais.
Quais são os seus objetivos para o mandato 2026-2028?
Gostaria de dar continuidade aos projetos já existentes, como por exemplo o RESPIRE, Breath Well e os movimentos Right Care – como o Asthma Right, o novo Rhinitis Righ Care e o CODP Right Care.
Para além disso, seria importante continuar a alargar a abrangência do IPCRG e a sua atuação a outros países, uma vez que os membros do IPCRG são países e não pessoas individuais, permitindo assim a implementação de acordo com a realidade local dos CSP. Esta é uma das magias do IPCRG, a intervenção, educação e investigação tendo em conta o contexto, dada a multiplicidade da constituição dos CSP em cada país.
Por exemplo, em Portugal está muito bem estabelecido e assente no Serviço Nacional de Saúde (SNS), mas noutros países pode não ser estruturado ou em equipa e podem ser não só médicos ou enfermeiros, mas outros técnicos. Também gostaria de dar continuidade e estimular o trabalho já desenvolvido com a Organização Mundial de Saúde (OMS) e outras organizações e task forces internacionais.
“Acresce o facto de haver patologias menos frequentes e conhecidas, como por exemplo a do interstício, que é grave e que deve ser reconhecida pelos profissionais de saúde e pela população”
Olhando para Portugal, quais são os desafios ou barreiras que mais a preocupam na saúde respiratória nos CSP?
A saúde respiratória não tem sido uma prioridade no programa dos CSP. A realidade tem vindo a mostrar-se mais sorridente, com a incorporação de alguns indicadores relacionados, como as consultas de asma e DPOC, a vacinação, entre outros. Não existe um programa estruturado incorporado nos nossos programas, mas sinto que a proatividade dos profissionais de saúde tem sido crescente.
No entanto, e de forma global, ainda existe uma baixa literacia em saúde em todas as áreas, e a área respiratória, não é exceção. Consequentemente, também nos deparamos com uma desvalorização da doença, o que contribui para uma baixa adesão ao tratamento.
Acresce o facto de haver patologias menos frequentes e conhecidas, como por exemplo a do interstício, que é grave e que deve ser reconhecida pelos profissionais de saúde e pela população para que o diagnóstico seja o mais precoce possível. E, inevitavelmente, não podemos esquecer o cancro do pulmão.
Outras barreiras que podem ser facilmente identificadas são o acesso à espirometria ou o ensino da técnica inalatória e a sua repetição. Fazendo uma reflexão sobre este tema, na minha perspetiva, os CSP estão a construir um caminho sólido nos cuidados da saúde respiratórios, mas ainda há muito trabalho a desenvolver.
No caso da adesão terapêutica, além da inércia por parte dos doentes, também existe falta de recursos nas unidades para se possa apostar mais nesta área – consultas, projetos?
Em primeiro lugar, é preciso que haja educação para a saúde, para que se possam reconhecer sinais e sintomas, para que o plano terapêutico possa ser implementado de forma personalizada, e também, para que se aposte na prevenção das doenças respiratórias, nomeadamente através da vacinação. Neste último ponto, não bastam as vacinas contempladas no Programa Nacional de Vacinação (PNV); há as restantes vacinas disponíveis, que também são, igualmente, importantes.
Existe falta de recursos, agendas apertadas, listas de utentes grandes. O ideal seria que existisse uma consulta estruturada em doenças respiratórias, onde nos permitisse, enquanto médicos de família, tratar a doença respiratória enquadrada dentro das comorbilidades do utente. A dinâmica e a estrutura dos CSP também se torna desafiante para desenvolver investigação nesta área – assim como noutras.
Apesar disso, já se veem frutos nos últimos tempos nesta área da saúde respiratória ao se chamar mais a atenção para a sua importância e para o papel dos CSP?
Sem dúvida! Ao longo dos anos, tem havido um melhor conhecimento da doença respiratória, mais diagnósticos, mais tratamentos… estamos no bom caminho, apesar de ainda haver muita coisa para fazer. Os desafios existem, a oferta terapêutica é cada vez mais vasta e até as pessoas estão mais capacitadas para a gestão da doença.
“Estamos também numa fase em que é preciso dar mais relevância às vacinas extraprograma. Já existem várias – e não apenas na idade pediátrica -, que são muito importantes, particularmente para a população com doença respiratória e/ou com comorbilidades e para os mais idosos.”
Relativamente à vacinação, Portugal tem uma boa taxa de adesão, mas já se ouve falar de alguns casos de hesitação. Preocupa-a?
No que diz respeito ao PNV, continuamos com uma boa adesão por uma questão essencialmente cultural; contudo a cobertura tem vindo a diminuir por causa de discursos anti-vacinas e por haver imigrantes que vêm de países onde a vacinação não assume a mesma prioridade para as populações e onde o PNV também é muito diferente do nosso.
Uma parte desta quebra na adesão à vacinação pode estar relacionada com a eventual falta de cobertura de médico de família, pois está provado cientificamente que o ambiente e a relação com o profissional que acompanha e com o que administra a vacina é um dos grandes determinantes para a aceitação da vacinação.
Estamos também numa fase em que é preciso dar mais relevância às vacinas extraprograma. Já existem várias – e não apenas na idade pediátrica -, que são muito importantes, particularmente para a população com doença respiratória e/ou com comorbilidades e para os mais idosos. Não podemos esquecer que Portugal é dos países mais envelhecidos da União Europeia, por isso é essencial trabalhar na prevenção.
O principal problema na adesão a vacinas extraprograma é o custo?
Existem vários aspetos. Em primeiro lugar é preciso perceber a importância da vacinação, assim como a sua segurança – algumas destas estão aprovadas e são aconselhadas, inclusive, na gravidez. Em Portugal há vários documentos de consenso e recomendações feitos por várias sociedades científicas que se juntaram para alertar para a sua importância. O Guia da vacinação do Adulto despoletado pelo GRESP/APMGF e realizado por 13 sociedades científicas é um excelente exemplo.
O custo poderá ser uma barreira, mas não cabe ao médico julgar. O profissional de saúde deve informar e recomendar face ao quadro de saúde de cada utente, cabendo ao doente tomar a sua decisão. As barreiras não são apenas económicas.
No caso do cancro do pulmão, os principais desafios são o combate ao tabagismo e a implementação do rastreio?
O médico e, todo o profissional de saúde, deve sempre que possível fazer uma intervenção para desabituação tabágica. Deveria também existir mais incentivos aos profissionais de saúde neste sentido, para que esta prática estivesse mais implementada.
Relativamente ao rastreio do cancro pulmão, não está implementado de forma populacional, embora já existam algumas publicações nesse sentido. No Reino Unido, o rastreio do cancro do pulmão – e, nalguns territórios os programas de desabituação tabágica estão integrados – já é uma realidade e tem sido muito bem aceite pela população.
“A prática clínica e a atenção que tem sido dada às doenças respiratórias tem mostrado o aumento da relevância da patologia respiratória e, penso que, também terá contribuído a contribuição do GRESP”
Portugal, comparativamente aos restantes países do IPCGR, está num bom caminho em termos de indicadores de saúde respiratória?
As realidades são muito diferentes para se fazer uma comparação… Os indicadores de saúde são definidos por cada país, mas os CSP em Portugal são fortíssimos e, por isso, os cuidados respiratórios também têm beneficiado.
Somos então um bom exemplo?
Sim, sem dúvida. Somos um bom exemplo, porque o sistema que temos permite-nos, desde logo, conhecer a realidade em que trabalhamos e perceber o que podemos melhorar. Ao longo do tempo também têm sido criados indicadores nesta área e que têm melhorado ao longo dos anos.
A prática clínica e a atenção que tem sido dada às doenças respiratórias tem mostrado o aumento da relevância da patologia respiratória e, penso que, também terá contribuído a contribuição do GRESP, através da promoção de ações de formação, projetos e documentos e ferramentas. Outra aposta do grupo é a ponte com outras sociedades científicas.
Que mais-valia poderá ter o país com uma representante portuguesa?
Ter uma representante portuguesa na liderança do IPCRG reforça a visibilidade e a capacidade de influência de Portugal no debate internacional sobre os cuidados respiratórios. Permite partilhar a experiência nacional, identificar boas práticas e facilitar o acesso a redes de investigação, formação e implementação. Favorece ainda a adaptação precoce de soluções internacionais à realidade dos cuidados de saúde primários portugueses. Acima de tudo, cria oportunidades de colaboração que podem traduzir-se em melhores cuidados para as pessoas com doença respiratória.
Maria João Garcia
Artigo relacionado
Vacinar em proximidade: o papel da Medicina Geral e Familiar na hesitação vacinal













