Vacinar em proximidade: o papel da Medicina Geral e Familiar na hesitação vacinal
Secretária da Direção da APMGF
6 Out, 2026

Vacinar em proximidade: o papel da Medicina Geral e Familiar na hesitação vacinal

Estamos em 2026 e a ideia de uma pessoa morrer devido à difteria seria, à primeira vista, algo impensável, pertencente a um romance distópico de gosto duvidoso. Contudo foi exatamente o que aconteceu em Itália. Em agosto deste ano, uma criança de quatro anos morreu, em Palermo, de difteria. Foi a primeira morte por esta doença, em Itália, em mais de trinta anos. A informação divulgada nos dias seguintes dava-nos conta que os pais terão optado por não vacinar a criança nem nenhum dos seus outros irmãos, baseados na crença de que esta vacina poderia provocar autismo.

Também em agosto deste ano, assistiu-se a um aumento do número de casos de sarampo no Brasil, mais concretamente em São Paulo. Este aumento dos casos de sarampo acontece num momento em que o sarampo também avança noutros países do continente americano, nomeadamente no Estados Unidos da América, que enfrentam o seu maior surto da doença em 35 anos.

Mas como chegamos até aqui? O que explica o ressurgimento destas doenças evitáveis que estavam, até há algum tempo, erradicadas destes países?

 O que verificamos é que a desinformação vacinal tem vindo a tornar-se um dos principais desafios da saúde pública contemporânea. Questões sobre a segurança, eficácia ou necessidade das vacinas têm vindo a proliferar, principalmente nas redes sociais, distorcendo a compreensão do público sobre a importância da imunização e alimentando o ceticismo em relação às vacinas.

A Organização Mundial da Saúde classifica a hesitação vacinal, impulsionada pela desinformação, como estando entre as dez maiores ameaças à saúde global, pelo seu potencial em comprometer os esforços de erradicação da poliomielite, eliminação do sarampo e controlo do cancro do colo do útero (Vaccine Misinformation Management Field Guide, OMS/UNICEF).

Os cuidados de saúde primários (CSP) são a base da concretização e sucesso do Programa Nacional de Vacinação (PNV) em Portugal, atuando como o principal ponto de contato entre os utentes e o sistema de saúde. Nas suas características de proximidade e acessibilidade, os CSP garantem que as vacinas presentes no PNV sejam universais, gratuitas e acessíveis a toda a população, desempenhando também um papel fulcral na distribuição e administração de vacinas sazonais, como a vacina contra a gripe e COVID-19.

Desta forma, o papel dos Médicos de Família é fundamental no combate à desinformação e hesitação vacinal que possa existir em Portugal. Se bem que o relatório anual da DGS, divulgado em junho de 2026, confirme que Portugal mantém uma das coberturas vacinais mais elevadas da Europa, não podemos achar que estamos isentos do risco das campanhas de desinformação. Importa entender os possíveis determinantes da hesitação e ir construindo confiança, nos profissionais, no sistema e nas suas recomendações, consulta após consulta, conversa depois de conversa. Antecipar a desinformação será sempre mais eficaz do que a desmentir após estar instalada.

A desinformação sobre vacinas tem impactos mensuráveis e graves na saúde pública, desde o ressurgimento de doenças evitáveis até custos económicos elevados e erosão da confiança institucional. O combate eficaz exige uma abordagem multidisciplinar e sustentada no tempo, mas sem dúvida que os Médicos de Família podem e devem liderar este caminho, esclarecendo dúvidas, desmascarando mitos e informando sobre receios relativos a efeitos secundários e eficácia das vacinas, promovendo assim a literacia em saúde com base científica.

Numa altura em que estamos à porta de mais uma época de vacinação sazonal contra a gripe e a COVID-19, urge que não esqueçamos o papel fundamental dos CSP e dos médicos de família na confiança e adesão da população às recomendações da Direção Geral de Saúde.

Notícia relacionada

Associações alertam para “iniquidade inaceitável” no acesso a vacina contra herpes zoster

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais