Cancro do rim: diagnóstico precoce é determinante numa doença de elevada letalidade
Apesar de representar apenas 2% a 3% dos tumores malignos nos adultos, o cancro do rim apresenta a maior taxa de letalidade entre as neoplasias urológicas. A propósito da Semana Europeia de Urologia, Pedro Nunes, presidente da Associação Portuguesa de Urologia, alerta para os sinais de alarme e sublinha a importância do diagnóstico precoce.

A Semana Europeia de Urologia coloca este ano o cancro do rim no centro das atenções. Promovida anualmente pela Associação Europeia de Urologia, a iniciativa conta com a participação da Associação Portuguesa de Urologia (APU) e pretende sensibilizar a população em geral e os médicos em particular para uma doença que, embora pouco frequente, pode ter consequências graves.
“O cancro do rim é uma neoplasia urológica que, não sendo muito frequente, é bastante grave”, afirma Pedro Nunes. Segundo o presidente da APU, entre as neoplasias urológicas, a do rim é a que apresenta maior taxa de letalidade.
“Cerca de 28% a 30% de todos os doentes que têm um cancro do rim podem vir a falecer pela doença, ou seja, ser essa a causa de morte”, explica.
Segundo contextualiza, a doença representa apenas 2% a 3% de todos os tumores malignos nos adultos, sendo o carcinoma de células renais o tipo mais comum. “A incidência é mais frequente nos países ocidentais”, indica. O cancro do rim afeta sobretudo adultos, com um pico de incidência geralmente entre os 50 e os 75 anos, sendo raro antes dos 45. Os homens são mais afetados do que as mulheres, numa proporção aproximada de 1,5 a dois homens por cada mulher.
Entre os fatores de risco, acrescenta Pedro Nunes, encontram-se o tabagismo, a obesidade e o excesso de peso. A hipertensão arterial poderá também estar associada à doença, assim como a história familiar: cerca de 3% a 10% dos tumores do rim podem estar associados a antecedentes familiares. A doença renal crónica e a realização prolongada de diálise constituem outros fatores etiológicos apontados pelo especialista.
Uma doença que pode permanecer silenciosa
O urologista explica que cerca de metade dos tumores são detetados numa fase localizada, quando a doença se encontra ainda limitada ao rim, muitas vezes de forma incidental, através de exames de imagem, como uma ecografia ou uma TAC. No entanto, uma percentagem significativa dos casos é diagnosticada já em fases avançadas, com sinais de doença à distância, nomeadamente metastização.
É neste contexto que o diagnóstico precoce assume particular importância. “O prognóstico do cancro do rim é tanto melhor quanto mais precoce for feito o seu diagnóstico”, sublinha Pedro Nunes.
Um dos problemas está no facto de a doença poder não provocar sintomas até fases tardias. Entre os sinais que devem merecer atenção, o especialista aponta a dor no flanco ou na região lombar, a presença de sangue na urina — visível ou apenas detetável através de análises — e a existência de uma tumefação na região renal.
Em fases mais avançadas podem surgir, tal como refere, emagrecimento, alterações da massa muscular, falta de apetite ou alterações urinárias. O cancro do rim pode ainda estar associado a síndromes paraneoplásicas, que se podem manifestar através de febre ou de alterações no hemograma e noutros parâmetros analíticos.
O presidente da APU sublinha que a mensagem desta Semana Europeia de Urologia passa, assim, por alertar para a “baixa incidência, mas a elevada gravidade desta doença”, para a possibilidade de ausência de sintomas até fases tardias, para a importância do diagnóstico precoce e para a necessidade de procurar avaliação especializada perante sinais de alarme.
Da suspeita ao tratamento
Questionado acerca do percurso do doente e da articulação entre especialidades, Pedro Nunes explica que, perante uma suspeita de cancro do rim, a Urologia deve ser a primeira especialidade para a qual o doente é encaminhado. O percurso pode depois variar de acordo com a região e a instituição onde é acompanhado.
“A Urologia vai confirmar o diagnóstico e proceder ao seu estadiamento”, explica Pedro Nunes, acrescentando que a Radiologia desempenha também um papel importante nesta fase. As suspeitas identificadas em exames menos detalhados, como a ecografia, exigem a realização de uma TAC para confirmar o diagnóstico e proceder ao estadiamento.
A articulação posterior entre especialidades varia, segundo refere. Em Coimbra, exemplifica o urologista, a Urologia trata tanto a doença localizada como as fases avançadas, enquanto, noutras regiões do país, a Oncologia assume também um papel importante, sobretudo no tratamento da doença avançada ou metastática.
Na doença localizada, o tratamento é habitualmente cirúrgico e a extensão da cirurgia depende das características do tumor. Pode ser removido apenas o tumor ou ser necessária também a remoção do rim, consoante a dimensão, a localização e a complexidade da lesão.
Nas fases avançadas, o tratamento sofreu uma evolução importante. O cancro do rim não é habitualmente sensível à quimioterapia, sendo utilizadas outras opções terapêuticas, como a imunoterapia e terapêuticas dirigidas ao tumor.
“Hoje em dia existem uma série de tratamentos sistémicos que melhoraram de uma forma significativa o prognóstico desta doença”, salienta Pedro Nunes.
O acompanhamento não termina, contudo, com o tratamento. “Não é raro haver recidivas tardias deste tipo de doenças e doença à distância também passados cinco a dez anos do diagnóstico inicial”, alerta o especialista, justificando a necessidade de acompanhamento prolongado pelas várias especialidades envolvidas.
Quanto à resposta existente em Portugal, Pedro Nunes considera que os doentes têm acesso às opções disponíveis nos países mais desenvolvidos nesta área. “Temos os mesmos recursos dos países mais avançados”, conclui.
Sílvia Malheiro
Notícia relacionada
Cirurgia robótica estreia-se na Urologia da ULS Médio Tejo com operação no Hospital de Tomar










