23 Set, 2026

Doença de Alzheimer. “Estima-se que cerca de 45% dos casos sejam preveníveis com modificações do estilo de vida”

Os primeiros sintomas de doença de Alzheimer nem sempre são valorizados, o que acaba por atrasar a procura de ajuda médica. Carolina Pires, coordenadora da área de Neurologia do Hospital Lusíadas Alfragide, fala sobre a doença e a importância do médico de família na prevenção e no diagnóstico precoce.

Doença de Alzheimer. “Estima-se que cerca de 45% dos casos sejam preveníveis com modificações do estilo de vida”

Quais são os sinais/sintomas da doença de Alzheimer que ainda são pouco valorizados pelos doentes e que os leva a pedir ajuda mais tarde do que seria suposto?

A doença de Alzheimer pode apresentar-se com alguns sintomas menos conhecidos do que a perda de memória e que vale a pena realçar. Começo por referir a apatia, na qual a pessoa apresenta uma importante falta de iniciativa e de motivação, levando a que tenha menos interações sociais e menos interesse em realizar atividades. Esta pode confundir-se com uma depressão (e ambas podem coexistir), podendo passar despercebida e levar a atrasos no diagnóstico. Adicionalmente, uma maior dificuldade em executar tarefas complexas, alterações na orientação espacial, como, por exemplo, maior dificuldade em conduzir, e alterações da linguagem, como a dificuldade progressiva e frequente em encontrar palavras, também devem ser valorizadas.

Alguns desses sinais/sintomas também poderão ser menos considerados pelo médico, como é o caso dos esquecimentos, se se tiver em conta pessoas com historial de doença mental, como burnout?

É verdade que os esquecimentos, entre outras queixas cognitivas, são frequentes em muitas outras doenças que não a doença de Alzheimer, incluindo doenças mentais, tais como a depressão, as perturbações da ansiedade e o burnout. Contudo, tipicamente, as queixas cognitivas nesses casos são flutuantes e não progressivas (por exemplo, melhoram com o tratamento da depressão), e as suas características na avaliação neuropsicológica tendem a ser diferentes. Apesar disso, poderá ser difícil distinguir a causa e haver confusão, mesmo dentro da comunidade médica.

“… uma parte da população não terá acesso à referenciação para Neurologia a não ser através do médico de família (e milhares de pessoas, infelizmente, não têm médico de família)”

Qual o papel do médico de família, quer no diagnóstico, quer no tratamento, na medida que mesmo quando a pessoa é referenciada a Neurologia, continua a ser seguida por outras causas nos cuidados de saúde primários?

Mesmo que a pessoa já seja seguida em contexto de cuidados especializados, nomeadamente por Neurologia, o médico de família continua a ter um papel fundamental na correção de fatores de risco que influenciam o prognóstico da doença. Saliento a importância na promoção do exercício físico, no controlo dos fatores de risco cardiovasculares (tais como diabetes, hipertensão, excesso de peso e tabagismo), na redução do consumo de álcool, na identificação de alterações sensoriais e na promoção de atividades de estimulação cognitiva.

Estima-se que cerca de 45% dos casos de demência sejam preveníveis com modificações do estilo de vida. Nesse sentido, o médico de família tem um papel importante na promoção destes hábitos de saúde cerebral, de forma transversal em todas as faixas etárias, e na prevenção do declínio cognitivo, mesmo em adultos assintomáticos.

 

Relativamente à referenciação para Neurologia, é feita de forma atempada ou com os constrangimentos que existem atualmente no Serviço Nacional de Saúde, há atrasos?

Por um lado, a fase mais inicial de alteração cognitiva por doença de Alzheimer, isto é, o defeito cognitivo ligeiro, poderá passar despercebida ou ser desvalorizada pela pessoa e pelos seus familiares, o que condiciona atrasos de vários meses (ou mesmo anos) na procura de ajuda.

Por outro lado, uma parte da população não terá acesso à referenciação para Neurologia a não ser através do médico de família (e milhares de pessoas, infelizmente, não têm médico de família), que posteriormente poderá encaminhar a pessoa para uma consulta hospitalar de avaliação especializada.

 O tempo médio de espera da consulta de Neurologia no SNS é variável, mas tipicamente é de vários meses, levando a que, neste processo, se consuma tempo crucial para o diagnóstico e tratamento atempados e, consequentemente, a atrasos que podem conduzir a uma deterioração clínica significativa.

“… volto a reforçar a importância do diagnóstico numa fase inicial, na qual existem terapêuticas aprovadas que podem levar a uma diminuição da velocidade de progressão da doença”

Tem havido avanços nas abordagens terapêuticas. O que gostaria de destacar?

Foram realizados avanços científicos muito importantes nos últimos anos. Surgiram novas terapêuticas, os anticorpos anti amiloide, que já são administrados em Portugal e que mostraram uma redução da velocidade de progressão da doença em cerca de 30%, aos 18 meses de tratamento, nas formas iniciais da doença de Alzheimer (defeito cognitivo ligeiro e demência ligeira). Os anticorpos ligam-se à beta-amiloide, que é uma proteína que forma placas e se deposita a nível cerebral nas pessoas com doença de Alzheimer, levando à sua eliminação.

Os novos tratamentos não estão aprovados nas formas moderadas ou avançadas da doença. Assim, volto a reforçar a importância do diagnóstico numa fase inicial, na qual existem terapêuticas aprovadas que podem levar a uma diminuição da velocidade de progressão da doença.

 

Foi a “Clínica do Cérebro” no Hospital Lusíadas Alfragide. Em que consiste o projeto e de que forma vai mudar o paradigma do diagnóstico e tratamento da doença de Alzheimer?

O Centro Avançado de Saúde do Cérebro do Hospital Lusíadas Alfragide já se encontra em funcionamento e pretende incorporar todas as valências necessárias à saúde cerebral no mesmo espaço. Isto inclui não só a consulta de Neurologia, mas também outras especialidades médicas (tais como Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar, Neurocirurgia, Psiquiatria, Neurorradiologia, Endocrinologia e Fisiatria), Neuropsicologia/Psicologia, Enfermagem e Nutrição. Neste mesmo centro, temos disponíveis os novos tratamentos da doença de Alzheimer e todos os exames complementares de diagnóstico necessários, como análises (incluindo os novos biomarcadores de sangue periférico), exames cardiológicos, TAC, RMN, punção lombar, entre outros.

Salientamos ainda a nossa equipa de neuropsicólogos, que possibilita uma avaliação neuropsicológica rigorosa, a consulta de apoio ao cuidador e a possibilidade de realizar estimulação cognitiva (individual e em grupo).

A comunicação interna entre várias unidades hospitalares encontra-se facilitada, permitindo que as pessoas com queixas cognitivas sejam rapidamente avaliadas. Penso, contudo, que a mais-valia não é apenas a soma de todos estes componentes, mas sim as reuniões que realizamos frequentemente para discutir casos clínicos (incluindo reuniões com neurorradiologistas, neuropsicólogos, Medicina Interna e Medicina Física e Reabilitação), que permitem um contacto próximo e multidisciplinar entre todas as especialidades e profissionais envolvidos no diagnóstico e tratamento da pessoa.

Maria João Garcia

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