20 Ago, 2026

“A ULS do Nordeste sofreu nos últimos anos uma profunda mudança estrutural”

A ULS do Nordeste tornou-se a primeira do interior e da zona de fronteira a garantir médico de família a todos os utentes. Em entrevista, Filipa Faria, diretora clínica para os cuidados de saúde primários da ULS, explica como foi possível alcançar o grande desejo de dar médico a toda a população, quando em 2023 não havia uma única unidade de saúde familiar na região.

“A ULS do Nordeste sofreu nos últimos anos uma profunda mudança estrutural”

Quais os principais desafios que a ULS Nordeste enfrenta por estar numa zona rural?

A ULS do Nordeste reúne a particularidade de ter como área de abrangência o distrito de Bragança, tendo uma cobertura de 6608 km². Esta dispersão geográfica, aliada à baixa densidade populacional e numa área com um índice de envelhecimento elevado, representam os maiores desafios estruturais, obrigando a estratégias específicas por áreas sociogeodemográficas, com vista à garantia de equidade ao acesso dos cuidados de saúde e à qualidade dos mesmos.

Como têm ultrapassado esses problemas?

A reforma dos cuidados de saúde primários como linha estratégica nacional, encabeçada pela generalização do modelo B das unidades de saúde familiares (USF), resultou numa visão estratégica de reorganização dos cuidados de saúde primários na ULS do Nordeste. Esta visão permitiu uma reestruturação integrativa e centrada no utente, dando primazia à proximidade de cuidados e à otimização dos recursos disponíveis.

 

“Não se pode tratar por igual o que na sua génese é desigual, tal como não se pode abordar a coesão territorial sem aferir a equidade do acesso e da acessibilidade de cuidados numa gestão que se faz primariamente local” 

Sentem apoio por parte da Tutela ou a Medicina rural ainda é considerada como menos importante?

Recebemos total apoio da tutela e nas linhas por eles delineadas tendo em conta a nossa realidade. A maior dificuldade que enfrentamos centra-se nas condicionantes estruturais destes territórios, situações essas vertidas numa gestão de proximidade e numa dinâmica como a nossa de Unidade Local de Saúde (ULS). Não se pode tratar por igual o que na sua génese é desigual, tal como não se pode abordar a coesão territorial sem aferir a equidade do acesso e da acessibilidade de cuidados numa gestão que se faz primariamente local. Este prisma apenas é possível se alinhados num planeamento estratégico com a tutela e demais estruturas do Serviço Nacional de Saúde (SNS), numa postura concertada e coordenada de cuidados, melhorando proporcionalmente os indicadores de saúde e o desenvolvimento destas regiões. A sustentabilidade do SNS e da ULS do Nordeste estão intrinsecamente ligadas a estas políticas públicas de saúde preconizadas pela tutela, pelo que é indissociável uma visão sem a outra.

Na sua opinião, dever-se-ia apostar mais na formação em meio rural durante o curso e o Internato?

As estratégias de sustentabilidade dos territórios têm que obrigatoriamente firmar-se através da fomentação da formação pré-graduada e pós-graduado, tanto em medicina, como enfermagem, como em outras áreas de abrangência da atividade dos profissionais. É fundamental que não só a formação seja um momento de aquisição de competências e atualização de conhecimentos, como também janelas de oportunidade de redução de estigma associado a territórios menos densos. A visão holística necessária ao desenvolvimento das suas atividades, assim como o necessário e imprescindível determinante social tão diferenciador nestas áreas do domínio da saúde, permitem que a formação aqui seja um diferencial positivo para estes profissionais. De realçar também o papel preponderante que a formação tem na fixação e captação de recursos humanos, uma vez que permite desde muito cedo que estes profissionais desenvolvam competências ajustadas ao contexto local e aumentem a probabilidade de escolha futura destas áreas para o desenvolvimento das suas carreiras.

“Tornar um determinado território atrativo e com capacidade de fixação é uma missão que cada vez mais se quer conjunta”

Como se poderá atrair mais médicos para as regiões mais rurais? Na ULS Nordeste têm alguma medida neste sentido?

Na área dos cuidados de saúde primários é fundamental catapultar a integração de cuidados da esfera meramente de ULS para a esfera de sistema local de saúde. Tornar um determinado território atrativo e com capacidade de fixação é uma missão que cada vez mais se quer conjunta. Em estreita colaboração com os municípios e outros parceiros estratégicos, procurando complementaridade de resposta, numa visão conjunta de aumento da melhoria contínua da qualidade dos serviços de saúde, alinhados com as necessidades específicas de cada população. Paralelamente é fundamental a gestão criteriosa destes recursos humanos, valorizando as suas condições de trabalho e fomentando a sua formação contínua em proximidade. Fazendo gestão da carga horária tendo por base o território, numa partilha dos processos de decisão que permitam a satisfação do profissional, sempre numa senda estrutural de governação clínica que permitam um nível de cuidados sustentados numa relação de confiança entre profissionais, utentes e comunidade.

O Governo quer apostar em USF modelo C. Fazem sentido na vossa região?

A ULS do Nordeste sofreu nos últimos anos uma profunda mudança estrutural. Em 2023 esta área de abrangência não tinha unidades funcionais em modelo USF e neste momento conta com 11 USF modelo B já em funcionamento, mais uma candidata. Esta mudança estrutural aliada aos procedimentos concursais, permitiu uma cobertura integral de médico de família, com a respetiva estabilidade de equipas, pelo que não se prevê necessidade do alargamento do modelo C de USF a este território.

O curso de Medicina da UTAD poderá vir a atrair mais colegas para a região?

Tal como anteriormente descrito, a formação pré-graduada nestas áreas permite não só uma capacitação diferenciadora de cuidados, como também um potencial efetivo de ganho de competências que podem atrair outros profissionais médicos a estes territórios.

“Não sendo a ruralidade uma característica nem uma definição, é sem dúvida um fator preponderante para o desenvolvimento de um clínico mais capaz, com competências acrescidas, autónomo e integrativo”

Quais as mais-valias de se ser médico de família nas zonas rurais? 

Um forte indicador preditivo positivo da atividade do médico de família é o desenvolvimento de determinantes profissionais que reflitam uma atividade centrada no utente. Este potencial diferenciador do médico de família, quando comparado a outras áreas da medicina, é sinónimo indicativo de uma maturidade de governação clínica apenas passível de crescimento em territórios com condições sociogeodemográficas muito específicas como a nossa. Não sendo a ruralidade uma característica nem uma definição, é sem dúvida um fator preponderante para o desenvolvimento de um clínico mais capaz, com competências acrescidas, autónomo e integrativo. A mais-valia não é assim, sob a minha perspetiva, intrínseca ao médico, mas sim sinal dos desafios que a própria comunidade lhe impõe e exige. É uma janela de oportunidade única de se fazer uma medicina mais abrangente, humanizada e sobretudo mais centrada na comunidade e no utente.

 

Maria João Garcia

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