Há pessoas que deixam de viver por causa do medo, alerta psiquiatra
Num novo livro, "A coragem de ter medo", o psiquiatra João Carlos Melo desmistifica ideias em torno do medo, demonstrando que se trata de uma emoção normal e importante na vida. Contudo, alerta, há situações que estão subjacentes a problemas psicológicos e que necessitam de ajuda especializada, como é o caso de fobias.

O psiquiatra João Carlos Melo alerta, num novo livro, diz que “há pessoas que têm medo de viver”, por isso defende que é essencial reconhecê-lo como uma emoção universal e necessária, que pode tornar-se incapacitante quando condiciona a vida das pessoas. Em “A coragem de ter medo”, o especialista reúne décadas de experiência clínica para explicar os diferentes medos que afetam as pessoas, desde os mais comuns aos mais raros e incapacitantes, procurando desmistificar uma emoção que “existe em todas as pessoas”.
Em entrevista à agência Lusa, João Carlos Melo sustenta que o medo está na origem de muito sofrimento psicológico e de diversas perturbações, embora nem sempre seja reconhecido como tal. “Tenho verificado que em muitas situações, muitas doenças, muitas formas de sofrimento e muitas formas de estar na vida são muito condicionadas pelo medo”, afirma. Como exemplo, apontou a perturbação da personalidade Borderline, uma doença a que se tem dedicado muito, e em que alguns autores descrevem a raiva como a emoção mais prevalecente nesta doença. “Mas o que está por detrás disso? É o medo, sobretudo o medo da rejeição, da separação e do abandono”, devastadores para as pessoas com esta perturbação. Na perturbação narcísica, outro exemplo citado no livro, “o grande medo é o de ser risível e ridículo, de ser alvo de troça e humilhação”.
Para o psiquiatra, também é importante admitir, ainda no contexto clínico, a existência de medos do próprio terapeuta como “o de que o paciente se mate (…), seja vítima de efeitos secundários graves provocados pelos medicamentos” e de como também vive com os seus próprios medos pessoais. O próprio autor admitiu ter receios, entre eles o medo de ficar incapacitado, de desenvolver uma doença grave ou de perder pessoas próximas. “Quando se fala abertamente sobre um medo que se tem, assumindo que o tem, fica com uma dimensão mais pequena”, afirmou à Lusa.
O especialista ressalva, contudo, que esta emoção não está apenas associada à doença mental. “O medo existe em todas as pessoas e aceitar isso é o primeiro passo que deve ser dado para o enfrentar”, disse à Lusa. Na sua opinião, ter a consciência de que “o medo é universal e é útil até, para a pessoa se defender dos perigos”, ajuda também a reduzir a vergonha que muitas pessoas sentem e que por vezes as impede de procurarem ajuda. “Há pessoas que têm medo de viver, porque têm medo de apanhar uma doença, de comer ou beber qualquer coisa que faça mal, de arriscar e, portanto, vivem sob o signo do medo e isso impede-as de viver de uma forma mais plena, mais descontraída”, exemplifica João Carlos Melo.
Nas fobias, acrescenta, essa limitação torna-se ainda mais evidente. A tendência é evitar as situações que provocam ansiedade, restringindo progressivamente a vida quotidiana. Outra das ideias centrais do livro é a distinção entre medo e coragem. “A coragem não significa não ter medo. Significa enfrentar uma situação, mesmo sentindo medo e correndo algum risco”, defende.
Ao longo da obra, o psiquiatra explica igualmente que muitos medos escondem significados mais profundos, como o de morrer, do escuro, do silêncio ou de andar de avião, que podem refletir angústias relacionadas com a separação, o abandono ou a perda.
João Carlos Melo considera que, na maioria dos casos, os medos podem ser melhor geridos quando as pessoas os conhecem e compreendem o seu significado. Ainda assim, alerta que quando passam a condicionar significativamente a vida diária é importante recorrer a ajuda especializada, existindo diferentes abordagens psicoterapêuticas adequadas a cada situação.
Questionado sobre diferenças entre homens e mulheres, admite não existirem dados conclusivos, mas considera que as mulheres tendem a reconhecer e a verbalizar mais facilmente aquilo que sentem, enquanto os homens, por razões culturais e educativas, revelam maior dificuldade.
O psiquiatra diz que o livro “não é uma enciclopédia, um manual com respostas prontas a servir, nem um livro de autoajuda com promessa de soluções rápidas e fáceis”. Quer apenas deixar uma mensagem aos leitores: “Gostava que as pessoas compreendessem que é normal ter medo, que é até útil termos medo e que o medo faz parte da vida” e que aprendessem a olhar para os seus receios “com mais sabedoria, mais tranquilidade e também com mais coragem”, afirmou.
SO/LUSA
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