Sexualidade na menopausa: uma abordagem centrada na pessoa
Soraia Moreira, Médica Interna de MGF, USF Tornada ULS Oeste; Daniela Vieira Lopes, Médica Interna de MGF - USF Aqueduto, ULS Póvoa de Varzim e Vila do Conde

Sexualidade na menopausa: uma abordagem centrada na pessoa

A menopausa continua a ser um tema que provoca muitas dúvidas, tanto entre os nossos utentes como entre muitos Médicos de Família. Quando pensamos em menopausa, pensamos na cessação espontânea da menstruação, confirmada após 12 meses de amenorreia, que ocorre por volta dos 50 anos, mas esta fase manifesta-se de diversas formas, desde a menopausa precoce à iatrogénica, incluindo a muitas vezes esquecida perimenopausa.

Do ponto de vista biológico, ocorre uma diminuição de hormonas, como o estrogénio e a progesterona, que influenciam diretamente a vivência da sexualidade. A menopausa não é apenas uma transição física, mas também emocional e identitária. A menopausa não significa o fim do desejo sexual nem da necessidade de intimidade, mas as alterações biológicas podem gerar dificuldades como secura vaginal, diminuição da libido, alterações do sono e do humor. Para muitas pessoas, esta fase é associada ao declínio da vida sexual, com dor, perda de autoestima e a ideia de que é normal relegar a intimidade para segundo plano.

Desconstruir estes mitos promove uma comunicação aberta que permite encontrar estratégias ajustadas a cada pessoa ou casal. Esta fase pode ser uma oportunidade de redefinição pessoal e autoconhecimento, favorecendo novas formas de intimidade.

Em termos farmacológicos, a terapêutica hormonal de substituição é a mais eficaz na gestão dos sintomas do climatério, devendo a sua utilização ser individualizada e discutida com a utente após avaliação do perfil de risco-benefício. Terapêuticas locais com estrogénios têm menor absorção sistémica, com menor impacto nos sintomas vasomotores, mas com bons resultados sobre a mucosa vaginal e lubrificação. Para utentes com contraindicações, ou que prefiram alternativas não hormonais, surgem opções como lubrificantes e hidratantes vaginais.

No entanto, a sexualidade não se resume à função hormonal e fatores como o sono, nutrição e atividade física desempenham um papel determinante, sendo recomendada a prática de atividade física regular, uma alimentação equilibrada e variada, gestão de stress através de técnicas de relaxamento, mindfulness ou psicoterapia, quando necessário, e promover o diálogo conjugal ou afetivo, fortalecendo a intimidade e reduzindo o impacto de sintomas físicos na satisfação sexual.

Aliadas à escuta ativa e acompanhamento pelo Médico de Família, estas medidas reforçam a autonomia e o bem-estar.

Em suma, a sexualidade na menopausa deve ser entendida como um processo dinâmico e multifatorial, envolvendo fatores biológicos, psicológicos e socioculturais, exigindo uma abordagem global e centrada na pessoa, livre de preconceitos.

 

Bibliografia:

  • https://spginecologia.pt/wp-content/uploads/2021/10/Consenso-Nacional-Menopausa-2021.pdf
  • https://www.worldsexualhealth.net/was-declaration-on-sexual-pleasure
  • Direção-Geral da Saúde. Norma n.º 011/2015: Terapêutica hormonal da menopausa – critérios de segurança e uso adequado. Lisboa: DGS; 2015.
  • Ordem dos Médicos. Princípios éticos e orientações clínicas na abordagem da sexualidade em Medicina Geral e Familiar. Lisboa: Conselho Nacional da OM; 2018.
  • Sociedade Portuguesa de Ginecologia. Consenso sobre menopausa e terapêutica hormonal. Rev Soc Port Ginecol. 2021;42(2):75–86.
  • Costa, MJ., & Lopes, C. Menopausa e qualidade de vida sexual em contexto português. Rev Port MGF. 2020;36(1):27–34.
  • Silva, A. Promoção da saúde sexual em consulta de MGF: estratégias não farmacológicas. Lisboa: APMGF; 2022.

 

 

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais