Consulta de reconciliação terapêutica para doentes sem médico de família
A ULS Almada-Seixal (ULSAS) tem a funcionar, desde março de 2025, uma consulta de reconciliação terapêutica nos cuidados de saúde primários, dirigida a utentes sem médico de família. O objetivo é identificar problemas relacionados com medicação, otimizar regimes terapêuticos, aumentar a segurança e reduzir gastos em saúde.

Desde o início da Consulta de Reconciliação Terapêutica nos Cuidados de Saúde primários da ULS Almada Seixal (ULSAS), em março de 2025, foram observados mais de 160 doentes em 217 consultas farmacêuticas, num total de cerca de 600 intervenções farmacêuticas. Esta consulta é orientada por farmacêuticos hospitalares em abordagem multidisciplinar, incluindo também médico e gestor. Começou a ser implementada na UCSP Amora, tendo sido alargada, em novembro de 2025, à UCSP Almada.
“A consulta farmacêutica melhora o acesso, a segurança da terapêutica, a literacia e o autocuidado, assim como acaba por prestar apoio emocional aos utentes, aumentando o seu sentimento de confiança no sistema”, afirma Helena Duarte, farmacêutica.
Continuando: “Para utentes idosos, polimedicados ou sem acompanhamento médico regular, saber que existe um profissional de saúde de referência a quem podem recorrer, para validar a sua terapêutica, reduz a ansiedade associada à doença crónica.”
De acordo com a farmacêutica, o projeto surgiu do reconhecimento de que existia uma lacuna no acompanhamento de doentes complexos, especialmente aqueles sem médico de família, bem como de que o farmacêutico clínico poderia melhorar a segurança do doente e racionalizar os custos com a medicação prescrita para ambulatório.
A sua implementação foi mais fácil do que se poderia esperar, tendo bastado apenas duas reuniões de trabalho com o corpo clínico e o gestor hospitalar para validar o valor clínico do projeto. “Frequentemente, ideias inovadoras perdem-se em processos burocráticos, mas este início permitiu-nos passar rapidamente da teoria à prática, demonstrando que a integração de cuidados pode acontecer de forma fluida e eficiente.”
Helena Duarte diz que a consulta permitiu que se tivesse uma noção da inércia terapêutica. “Os doentes mantêm o medicamento e a mesma dosagem durante anos, sem análises de controlo necessárias (função renal, potássio, HbA1c). Na consulta farmacêutica não fazemos apenas uma conferência de stock, procedemos a uma revisão clínica da terapêutica, com acesso ao historial do doente, focada na identificação e prevenção de PRN (Resultados Negativos associados à Medicação).”
Os alvos prioritários de desprescrição têm sido as benzodiazepinas (redução gradual para prevenir quedas e declínio cognitivo), inibidores das bombas de protões (doentes sem indicação crónica), estatinas em idosos em profilaxia primária, e sulfonilureias, com substituição ou descontinuação em idosos com risco elevado de hipoglicemia. A consulta permite, ainda, a Deteção Precoce de Alerta (Red Flags), ou seja, o farmacêutico atua como uma “sentinela”, encaminhando precocemente situações de descompensação clínica que poderiam agravar-se se esperassem pela consulta de rotina. “A taxa de referenciação para o médico ronda os 32%.”
Médico de família. “Parar, rever com profundidade e colocar a segurança do utente no centro”
Ricardo Silva é o médico de família que dá apoio na consulta. A sua intervenção centra-se na revisão sistemática da terapêutica crónica de cada utente, integrado no contexto clínico do doente. “Não se trata apenas de renovar receituário — é um trabalho de análise crítica e individualizada, em que avalio a pertinência de cada fármaco prescrito, a sua adequação ao estado clínico atual do utente, possíveis interações medicamentosas, duplicações terapêuticas e riscos associados à polimedicação”, especifica.
“Com base nessa avaliação, sempre de acordo com a leges artis e em articulação com a equipa de farmacêuticos, procedo a ajustes de dose, substituição de fármacos ou, quando clinicamente indicado, à desprescrição — um processo ativo e deliberado de redução de medicação que constitui, muitas vezes, um ato médico de grande valor terapêutico e de proteção do utente”, acrescenta.
Este projeto permite, na sua perspetiva, fazer aquilo que a pressão assistencial do dia a dia frequentemente não deixa espaço: “parar, rever com profundidade e colocar a segurança do utente no centro da decisão clínica”.
Questionado sobre o impacto do projeto na saúde dos utentes sem médico de família atribuído, lembra, primeiramente, que este é com frequência o único momento em que alguém revê a sua terapêutica de forma integrada e longitudinal. “Sem um médico de referência que conheça a sua história clínica, estes doentes estão particularmente vulneráveis à acumulação de medicação prescrita em múltiplos episódios, por diferentes profissionais, em diferentes contextos — urgências, consultas de especialidade, serviços de atendimento complementar.”
A consulta de reconciliação terapêutica vem assim colmatar essa lacuna, oferecendo a estes utentes um olhar clínico estruturado sobre o seu perfil farmacoterapêutico. “Na prática, identificamos situações de polimedicação inapropriada, fármacos desatualizados face à evolução clínica, riscos que ninguém havia ainda detetado — e atuamos sobre eles.”
Para Ricardo Silva é ainda uma oportunidade de humanização do cuidado. “O utente sente que alguém reviu o seu processo com atenção, explicou as alterações introduzidas e o envolveu nas decisões. Isso tem um impacto direto na adesão terapêutica e na confiança no sistema de saúde.”
Quantos aos desafios de se trabalhar em multidisciplinaridade considera que essa é “a maior força e o maior desafio desta consulta”. “Articular a disponibilidade dos diferentes profissionais exige uma organização cuidadosa e uma cultura de colaboração que não se constrói de forma espontânea — tem de ser cultivada. A gestão das cargas horárias de cada grupo profissional implica uma calendarização rigorosa, flexibilidade e, sobretudo, um compromisso partilhado com o objetivo comum: a segurança do utente.”
Outro desafio relevante é a comunicação entre níveis de cuidados e a acessibilidade à informação clínica completa, que nem sempre está centralizada ou atualizada nos sistemas disponíveis. Mesmo assim, o médico de família realça que o “desafio mais estrutural” é o reconhecimento deste tipo de consulta como uma prioridade assistencial, garantindo que tem espaço formal na agenda dos profissionais.
Gestor. Um papel de ponte entre a visão estratégica e a prática assistencial
Ao gestor cabe facilitar e viabilizar a integração da Consulta Farmacêutica no funcionamento regular dos Cuidados de Saúde Primários (CSP), garantindo que “uma ideia clínica com elevado potencial se transformava numa resposta concreta e operacional”, como diz Joaquim Figueira, gestor dos CSP da ULSAS. “Isso implicou, por um lado, validar o valor clínico e organizacional do projeto, assegurando que a intervenção do farmacêutico clínico acrescentava segurança, eficiência e racionalidade ao circuito do doente, e, por outro lado, exigiu remover barreiras administrativas e promover a articulação entre serviços e unidades”, afirma.
O gestor assume, no seu entender, um papel de ponte entre a visão estratégica e a prática assistencial, criando condições para que os profissionais de saúde se possam focar no utente, com circuitos claros, critérios de referenciação bem definidos e alinhamento com os objetivos institucionais – qualidade, segurança do doente e sustentabilidade do sistema.
Fazendo uma avaliação do trabalho desenvolvido há pouco mais de um ano, é perentório: “claramente muito positivo”. E explica porquê: “A Consulta Farmacêutica mostrou, em pouco tempo, que consegue responder a uma lacuna do sistema, sobretudo no acompanhamento de doentes complexos e sem médico de família atribuído.”
Segundo o responsável, os resultados observados vão além do impacto clínico direto, destacando-se a melhoria da segurança da terapêutica, a deteção precoce de problemas relacionados com a medicação e a redução da fragmentação dos cuidados. “O facto de cerca de um terço dos doentes necessitar de referenciação médica demonstra, simultaneamente, a pertinência da triagem clínica realizada e o papel do farmacêutico como elemento de vigilância ativa.”
Do ponto de vista da gestão, há também ganhos claros na utilização mais eficiente dos recursos, na prevenção de iatrogenia e, potencialmente, na redução de episódios evitáveis à urgência hospitalar. “Trata-se de um exemplo concreto de como a integração interprofissional pode gerar valor clínico e organizacional com estruturas simples e foco no utente.” Ao longo do tempo, o principal desafio tem sido a integração de um modelo inovador dentro de um sistema ainda segmentado, quer ao nível organizacional, quer ao nível informático.
Outro é a gestão do tempo e das agendas dos diferentes profissionais. “O trabalho multidisciplinar exige coordenação, comunicação contínua e flexibilidade, o que nem sempre é fácil de operacionalizar no dia a dia.”
Por fim, existe também o desafio de mudar paradigmas. “A integração do farmacêutico clínico como profissional de contacto direto com o doente ainda é uma realidade recente em muitos contextos, exigindo confiança interprofissional e uma cultura organizacional aberta à inovação.”
Olhando para o futuro, Joaquim Figueira acredita que passará pelo “alargamento sustentado e estratégico” da consulta, nomeadamente às Unidades de Saúde Familiar em processo de certificação pela Direção-Geral da Saúde. Além disso, “espera-se uma consolidação do papel do farmacêutico clínico na gestão da polifarmácia, reconciliação terapêutica e apoio às equipas médicas, contribuindo diretamente para o cumprimento de indicadores clínicos e de acreditação”.
A médio prazo, este modelo poderá servir de referência para outras unidades da ULS, na opinião do gestor, já que a Consulta Farmacêutica é vista como um investimento na qualidade dos cuidados, centrados no doente e “alinhados com uma visão moderna e integrada do Serviço Nacional de Saúde, onde cada profissional atua no topo das suas competências em benefício da segurança, eficácia terapêutica e sustentabilidade do sistema”.
Maria João Garcia
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