14 Mai, 2026

“O mapeamento de redes de lesões pode aproximar-nos dos circuitos cerebrais envolvidos em patologias psiquiátricas”

O investigador português Gonçalo Cotovio, distinguido pela Genomic Press com o prémio “Rising Star”, explica como o mapeamento de redes de lesões cerebrais poderá ajudar a compreender melhor os mecanismos causais das doenças psiquiátricas.

“O mapeamento de redes de lesões pode aproximar-nos dos circuitos cerebrais envolvidos em patologias psiquiátricas”

O que sente por ter recebido a distinção “Rising Star” da Genomic Press?

É ótimo, fico muito satisfeito. Mas diria que é sobretudo mais um motivo para continuar a trabalhar. Não vejo isto como algo que me faça parar para usufruir do reconhecimento. Vejo-o mais como um sinal de que o trabalho está a ser reconhecido e de que vale a pena continuar. É basicamente isso.

 

O seu trabalho centra-se num dos grandes desafios da Psiquiatria: ultrapassar relações de correlação para identificar mecanismos causais. Em que consiste o mapeamento de redes de lesões?

Na Psiquiatria, infelizmente, ainda não temos uma relação simples de causa-efeito. As doenças psiquiátricas resultam de modelos muito complexos, que envolvem fatores biológicos, genéticos, psicológicos e sociais. É aquilo a que chamamos o modelo biopsicossocial.

No meu trabalho de investigação tento perceber se conseguimos encontrar algum nexo de causalidade através do estudo de lesões cerebrais. Por exemplo, imaginemos uma pessoa que sofre um AVC, desenvolve um tumor cerebral ou outra lesão e que, antes disso, nunca tinha apresentado sintomas psiquiátricos. Depois da lesão passa a desenvolver depressão, mania ou sintomas obsessivo-compulsivos. Aqui, a relação causal torna-se mais evidente: a pessoa não tinha sintomas, ocorreu um evento cerebral e, depois, surgiram manifestações psiquiátricas.

Na verdade, esta abordagem já é utilizada há muito tempo na Neurologia. Historicamente, o estudo das lesões cerebrais permitiu identificar funções específicas do cérebro. Observava-se que determinada região lesionada fazia desaparecer uma função concreta, permitindo inferir a sua localização cerebral.

O que o mapeamento de redes de lesões faz é acrescentar um nível de complexidade. Muitas vezes encontramos doentes com os mesmos sintomas psiquiátricos, mas com lesões em locais diferentes do cérebro. Ou seja, não conseguimos dizer que existe “o local da depressão” ou “o local da perturbação obsessivo-compulsiva”.

“… será que o circuito identificado em pessoas que desenvolveram perturbação obsessivo-compulsiva após uma lesão cerebral corresponde a um circuito importante também na doença psiquiátrica clássica, sem lesão evidente?”

Então não existe uma região única responsável por cada doença psiquiátrica?

Exatamente. Não existe um ponto único. O que esta técnica procura perceber é se essas diferentes lesões fazem parte da mesma rede funcional cerebral. Costumo usar uma analogia: imaginemos uma linha ferroviária. As estações podem ser diferentes, mas pertencem à mesma rede de comboios. Assim, mesmo que as lesões estejam em locais distintos, podem estar ligadas pelo mesmo circuito cerebral. O que eu faço é tentar identificar essa “rede de comboios” que liga os vários locais lesionados. E isso é interessante porque pode aproximar-nos mais de mecanismos causais.

 

De que forma isso pode ajudar a compreender as doenças psiquiátricas?

Não diria nunca, com arrogância científica, que encontrámos “o circuito da doença”. Acho que seria um exagero afirmar isso com certeza absoluta. Mas aquilo que podemos fazer é gerar hipóteses muito relevantes. Por exemplo: será que o circuito identificado em pessoas que desenvolveram perturbação obsessivo-compulsiva após uma lesão cerebral corresponde a um circuito importante também na doença psiquiátrica clássica, sem lesão evidente? Essa é a grande questão. O mapeamento de redes de lesões pode ajudar-nos a aproximar dos circuitos cerebrais envolvidos em determinadas patologias e, eventualmente, abrir caminho para novas formas de diagnóstico ou tratamento.

 

Esse conhecimento poderá ter implicações terapêuticas no futuro?

Potencialmente, sim. Se identificarmos circuitos cerebrais relevantes para determinadas doenças, isso poderá ajudar no desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais dirigidas, como técnicas de neuromodulação ou estimulação cerebral. Mas ainda estamos numa fase de construção do conhecimento. O mais importante, para já, é perceber melhor os mecanismos envolvidos e aproximarmo-nos de uma compreensão mais biológica e causal das doenças psiquiátricas.

Maria João Garcia

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