6 Mai, 2026

Ordem dos Médicos alerta que recurso a tarefeiros nas urgências afeta organização e pode influenciar cesarianas

Carlos Veríssimo Batista, presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, aponta diferentes variáveis para o aumento das cesarianas como a organização das equipas, a pressão de médico-legal ou a idade materna.

Ordem dos Médicos alerta que recurso a tarefeiros nas urgências afeta organização e pode influenciar cesarianas

A Ordem dos Médicos alertou, esta quarta-feira, que o recurso a médicos tarefeiros é atualmente indispensável para assegurar o funcionamento das urgências de Obstetrícia e Ginecologia no Serviço Nacional de Saúde, mas tem efeitos negativos na organização dos serviços e poderá influenciar o aumento das cesarianas.

A posição foi transmitida por Carlos Veríssimo Batista, presidente do Colégio de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos, durante uma audição na comissão parlamentar de Saúde, a pedido da Iniciativa Liberal. “O recurso a tarefeiros é necessário, mas é disruptivo para os serviços”, afirmou o responsável, apontando o exemplo do Algarve, onde cerca de 65% da atividade nestas áreas é assegurada por médicos prestadores de serviço.

Segundo o especialista, esta realidade dificulta a organização das equipas, a aplicação consistente de protocolos clínicos e a realização de reuniões, fatores que podem ter impacto direto na prática médica. “Equipas desfalcadas e com forte dependência de tarefeiros influenciam seguramente a taxa de cesarianas”, sublinhou. Apesar das dificuldades, Carlos Veríssimo Batista destacou sinais recentes de melhoria, nomeadamente com a criação de urgências regionais de Obstetrícia e Ginecologia na Península de Setúbal e no Hospital Beatriz Ângelo, que contribuíram para maior previsibilidade na resposta.

O responsável apontou ainda a crescente pressão médico-legal e o aumento da litigância como fatores que podem levar a uma prática mais defensiva por parte dos profissionais, reduzindo a tolerância ao risco clínico e favorecendo a opção por parto cirúrgico em alguns casos. Entre outros fatores, destacou também o aumento da idade materna, a maior prevalência de comorbilidades e a diversidade de contextos clínicos associada a populações migrantes, que podem chegar ao SNS com antecedentes de cesarianas ou práticas obstétricas distintas.

O especialista alertou ainda para situações de grávidas que recorrem às urgências sem acompanhamento adequado, apesar de uma ligeira melhoria recente, e sublinhou a importância dos médicos de família no seguimento das gravidezes de baixo risco — uma área onde reconhece existir недостатiciência de profissionais. Para reforçar este acompanhamento, está em curso um trabalho conjunto com a Ordem dos Enfermeiros, visando um maior envolvimento de enfermeiros especialistas em saúde materna.

Em 2025, o SNS registou um número recorde de cesarianas, ultrapassando as 22 mil intervenções, o que representa mais de 33% do total de partos no sistema público. Segundo Carlos Veríssimo Batista, a taxa tem vindo a crescer cerca de 0,5% ao ano, acompanhando tendências internacionais. Ainda assim, Portugal mantém indicadores positivos ao nível da mortalidade neonatal, considerados entre os melhores a nível global.

O responsável defendeu também a criação de uma base de dados nacional que permita uniformizar e consolidar a informação clínica, alertando que a atual fragmentação dos sistemas limita uma análise rigorosa da evolução das cesarianas no país.

SO/LUSA

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