
Médico Família, MD, PhD; Assistente Graduado Sénior na ULS de Santo António; Coordenador USF Prelada; Vice-Presidente APMGF
Osteoporose e alterações hormonais na menopausa
No universo feminino, a osteoporose está profundamente associada à menopausa. A osteoporose é uma doença esquelética sistémica caracterizada pela diminuição da massa óssea e pela deterioração da microarquitetura do tecido ósseo, resultando num aumento da fragilidade do esqueleto e maior suscetibilidade a fraturas de fragilidade. Estas fraturas ocorrem habitualmente após traumas de baixo impacto, como uma queda da própria altura, que não provocariam lesão num osso saudável.
Trata‑se da doença óssea mais comum, afetando cerca de 200 milhões de mulheres em todo o mundo. Em Portugal, a prevalência na população adulta é de 10,2%, aumentando para 17% no sexo feminino. Estimam‑se cerca de 40.000 fraturas de fragilidade por ano (aproximadamente oito por hora) sendo muitas fraturas vertebrais clinicamente silenciosas e apenas suspeitadas pela perda de estatura superior a 4 cm.
A menopausa, definida como a última menstruação após 12 meses consecutivos de amenorreia, ocorre geralmente entre os 45 e os 55 anos e reflete a falência da atividade endócrina ovárica, com uma queda abrupta da produção de estrogénios. Esta alteração hormonal tem impacto direto na saúde óssea, tornando a osteoporose uma das principais preocupações nesta fase da vida. Uma proporção significativa das mulheres apresenta perda acentuada de massa óssea após a menopausa, aumentando o risco de fraturas, sobretudo da coluna, anca e punho.
O estrogénio desempenha um papel essencial na remodelação óssea, regulando o equilíbrio entre a ação dos osteoclastos e dos osteoblastos. Com a diminuição dos níveis hormonais, a reabsorção óssea acelera e a formação não acompanha o mesmo ritmo. Esta hormona atua através dos recetores ERα, promovendo a sobrevivência dos osteoblastos e inibindo a atividade osteoclástica. A perda óssea resultante pode evoluir silenciosamente durante anos até à primeira fratura. Em situações de menopausa precoce (antes dos 40 anos) ou iatrogénica, a perda óssea tende a ser mais rápida e clinicamente mais significativa, exigindo intervenção precoce.
O objetivo prioritário na abordagem desta doença é “dar mais anos à vida e mais vida aos anos”, prevenindo a primeira fratura e preservando a autonomia feminina. A prevenção deve iniciar‑se ainda antes da menopausa, através de hábitos de vida saudáveis: alimentação rica em cálcio, exposição solar adequada, prática regular de exercício, especialmente atividades de impacto e treino de resistência e evicção do consumo de tabaco e álcool. Após a menopausa, estas medidas mantêm‑se fundamentais, aliadas a uma vigilância clínica regular.
Em mulheres pós‑menopáusicas, a terapêutica hormonal com estrogénios demonstrou reduzir significativamente o risco de fraturas vertebrais, da anca e fraturas totais. Embora a perda óssea volte a acelerar após a suspensão do tratamento, a proteção pode prolongar‑se durante vários anos. Independentemente da densidade mineral óssea, a terapêutica hormonal pode ser considerada pelos seus benefícios extra‑ósseos, sobretudo em mulheres com menopausa precoce.
Ainda não temos poder sobre o tempo, apenas sobre a forma como caminhamos dentro dele. Osteoporose deve significar prevenção, rastreio e intervenção precoce. Com educação, prevenção e acompanhamento adequado, é possível reduzir de forma substancial o risco de fraturas e promover uma vida ativa e saudável ao longo dos anos.
Artigo relacionado
Quando o silêncio da osteoporose se torna um problema de saúde pública





