
Professor na Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Porto, onde é Diretor do Mestrado em Cuidados Paliativos. Acredita que cuidar é também contar histórias. Escritor de livros técnicos ligados à saúde, este é o seu primeiro livro infantil, inspirado pelo seu papel de avô.
A história de ‘Mel, a elefanta na sala’ como uma oportunidade para abordar o tema da morte com as crianças
Falar sobre o morrer e a morte continua a ser extremamente difícil entre nós, mesmo quando um dos interlocutores é um profissional de saúde. É um tema “pesado”. E acrescenta dificuldade quando do outro lado está uma criança, sobretudo num contexto de doença grave. Parece paradoxal, porque seria expectável, pelo menos para um observador externo, que aqueles profissionais tivessem, não só o conhecimento, mas sobretudo a capacidade para o fazer de uma forma construtiva e positiva. E não é assim, na verdade, porque nem todos terão a preparação adequada, a experiência ou até mesmo as condições pessoais que lhes permitam abordar o assunto como ele deve ser tratado, no momento próprio. E se é assim, é melhor que ninguém o faça. A discussão sobre o morrer e a morte confronta-nos com a nossa finitude e com as vivências e as fragilidades de seres humanos que somos, integrando emoções que condicionam uma atuação estritamente profissional, por muito que o queiramos.
E essa dificuldade advém, em primeiro lugar, da cultura de uma sociedade onde fomos criados, que valoriza aspetos materiais, o ter coisas, o sucesso e o estatuto, que deixam de ter importância quando nos consciencializamos de que não somos eternos. É uma ideia que queremos afastar do pensamento, até porque o tempo que estimamos – o Chronos – é implacável e conduz ao fim da vida, podendo aí aproveitar melhor cada momento e valorizar mais a qualidade de vida.
Daí que seria de extrema importância falar com as crianças sobre o assunto, com a normalidade que ele merece, no lugar e no tempo que se justifique, de forma honesta, aquando da morte de um animal doméstico ou de um familiar próximo, por exemplo. E nesta equação, os pais são um elemento essencial, que pode ser ou não facilitador do processo, porque têm receios e impreparação, o que é compreensível, mas, em simultâneo, querem o melhor para os seus filhos.
O livro “Mel, a elefanta na sala” foi escrito com o propósito de ajudar todos na abordagem do tema. Agora, os profissionais de saúde dispõem de uma ferramenta que os pode auxiliar, através de uma história que cativa as crianças do princípio ao fim, com animais simpáticos, como a protagonista principal, uma elefanta curiosa, que as diverte, e da figura sempre importante de um avô, a reconstruir a noção verdadeira da vida, quando necessário, porque é disso que se trata.
E também as outras pessoas, nomeadamente os pais e educadores, que podem fazer toda a diferença logo no início, ajudando a um desenvolvimento intelectual saudável das crianças, através de uma abordagem, com verdade, do tema da morte para que não seja mais um tabu e se possa falar dele abertamente, deixando de ser um “elefante na sala” de cada um de nós.
É uma verdade de La Palisse que todas as pessoas nascem, crescem e acabam por morrer, mas isso não significa que deixem de existir. Permanecem vivas, ainda que não fisicamente, enquanto conservarmos as memórias que temos delas e valorizarmos o seu legado. Difundamos isto!
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