8 Jan, 2026

Trabalhadores do INEM recusam ser “bode expiatório” e apontam retenção de macas como causa de falhas no socorro

A comissão de trabalhadores do INEM considera que “a morte de um cidadão no Seixal, após ter aguardado quase três horas por socorro, é um facto grave e politicamente incontornável”.

Trabalhadores do INEM recusam ser “bode expiatório” e apontam retenção de macas como causa de falhas no socorro

A comissão de trabalhadores do INEM recusou ser “bode expiatório de falhas do Serviço Nacional de Saúde”, atribuindo à retenção de macas das ambulâncias nas urgências hospitalares a indisponibilidade de meios de socorro, nomeadamente no caso ocorrido no Seixal.

Numa publicação divulgada na rede social Facebook, a comissão considera que “a morte de um cidadão no Seixal, após ter aguardado quase três horas por socorro, é um facto grave e politicamente incontornável”.

Segundo os representantes dos trabalhadores, a retenção de macas nos hospitais, apesar de não ser “nova nem excecional”, constitui “um problema estrutural” que continua a retirar meios da rua e a comprometer a capacidade de resposta do Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM), situação que, afirmam, já foi denunciada junto do parlamento e da ministra da Saúde.

“A maca e o meio de emergência pré-hospitalar não são um ‘recurso de apoio’ ao bloqueio das urgências. Quando uma maca fica retida, o sistema perde capacidade imediata de resposta, com chamadas em espera e tempos que se degradam”, sublinha a comissão de trabalhadores, defendendo que o problema “não admite desculpas”.

O caso refere-se à morte de um homem no concelho do Seixal, no distrito de Setúbal, que aguardou cerca de três horas por meios de socorro que, de acordo com a prioridade atribuída, deveriam ter chegado no máximo em uma hora. A situação motivou a abertura de um inquérito pela Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS).

O presidente do INEM, Luís Mendes Cabral, assegurou hoje que o socorro foi ativado em 15 minutos, mas explicou que não existiam ambulâncias disponíveis na margem Sul para dar resposta à ocorrência.

A comissão de trabalhadores defende que tanto o INEM como o Ministério da Saúde devem garantir que as unidades hospitalares dispõem de “capacidade, procedimentos e recursos próprios” para receber e transferir doentes, sem reter macas, ambulâncias e equipas de emergência. A ausência desses meios, acrescentam, “é uma falha grave do sistema, com impacto direto na segurança da população”.

“Há um limite que tem de ser afirmado com clareza: não podem os profissionais do INEM e o próprio Instituto continuarem a ser o bode expiatório de falhas do Serviço Nacional de Saúde que são completamente alheias ao INEM”, afirmam, sublinhando que quando o bloqueio ocorre no circuito hospitalar, a responsabilidade deve ser assumida e corrigida nesse mesmo circuito.

Também a Associação Nacional de Técnicos de Emergência Médica, em comunicado sobre o mesmo caso, questionou a adequação dos meios acionados e da prioridade atribuída, considerando que a situação “levanta dúvidas sobre a conformidade com as melhores práticas internacionais”.

Segundo a associação, a falta de uma resposta imediata “comprometeu a segurança do paciente” e colocou em risco a correta triagem e priorização de outras chamadas emergenciais, afetando a eficiência do SIEM.

A entidade defende que o estado de confusão e agitação em que o homem se encontrava após a queda deveria ter levado à ativação de uma ambulância de emergência acompanhada de uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER). Acrescenta ainda que, perante o agravamento do quadro clínico, deveriam ter sido acionados meios alternativos, como VMER, mota de emergência médica ou, em último recurso, uma viatura de combate a incêndios.

A associação pede ainda correções no SIEM, cuja alteração recente consideram ter sido “mal implementada” e sem suporte informático adequado, dificultando a gestão operacional e contribuindo para falhas críticas como a verificada no Seixal.

SO/LUSA

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