20 Mai, 2024

Geriatria em Portugal. Encontro internacional apela a mais formação e a criação de especialidade

A ausência da Geriatria no sistema de saúde português, de uma forma generalizada e estrutural, é um dos motivos para que a formação em Geriatria ainda não seja obrigatória em Portugal, segundo Sofia Duque, internista, com competência em Geriatria, e uma das responsáveis pelo projeto europeu PROGRAMMING.

Geriatria em Portugal. Encontro internacional apela a mais formação e a criação de especialidade

“Face ao envelhecimento da população, a Medicina Geriátrica contribui para que se tenha um sistema de saúde de qualidade e custo-efetivo.” As palavras de Sofia Duque resumem as conclusões a que se chegou após três dias do evento Top 10 Value-based Geriatric Care Models and Interventions: Towards a sustainable healthcare system, improving older adults quality of life, que reuniu profissionais de saúde de diferentes áreas e nacionalidades, em Lisboa.

Esta iniciativa surgiu na sequência da COST Action PROGRAMMING (PROmoting GeRiAtric Medicine IN countries where it is still eMerGing), que visa a implementação ou reforço da Geriatria nos países em que esta ainda se está a desenvolver.

Na sessão final, que decorreu na Ordem dos Médicos, e que juntou várias entidades de saúde, a responsável realçou que ainda não existe uma aposta em Geriatria em Portugal por receio do esvaziamento de outras especialidades. “Existe uma barreira ideológica, por se considerar que a Geriatria irá retirar doentes a outras especialidades… mas tal não é verdade, já que a Geriatria pretende focar-se principalmente nos doentes mais complexos, vulneráveis e fragilizados, como casos de demência avançada ou de quedas recorrentes e deterioração funcional”, disse.

Continuando: “A Geriatria pode ainda colaborar com outras especialidades que lidam com doentes idosos, por exemplo ortogeriátricos e oncogeriátricos. Por outro lado, o seu crescimento permitirá desenvolver institucionalmente uma cultura geriátrica, de forma que todos os profissionais de saúde, ainda que estejam fora de serviços de Geriatria organizados, obtenham competências básicas para tratar melhor os idosos.”

“A sociedade está a envelhecer e temos que nos preparar para esta realidade. Os conhecimentos em Geriatria são fundamentais nas diferentes especialidades médicas e cirúrgicas, porque, à exceção óbvia da Pediatria e da Obstetrícia, todos têm de lidar com doentes idosos e complexos”, acrescentou.

Mesmo quem não tem interesse em seguir a área, deve ter, na sua perspetiva, ações formativas. “Viver mais anos é uma conquista importante da sociedade, mas é fundamental ter conhecimento sobre as particularidades dos idosos. No ensino pré-graduado já existem algumas cadeiras, facultativas, mas com nomes alternativos por causa da barreira ideológica.”

Olhando para a realidade portuguesa, a especialista destaca os projetos que foram sendo criados nos últimos 10 anos em diferentes hospitais, como por exemplo em Oncogeriatria ou em Ortogeriatria, assim como a criação da competência de Geriatria pela Ordem dos Médicos, em 2014.

Mas, como especifica, esperava-se muito mais neste momento. “Quando foi criada a competência, acreditou-se que a Geriatria se iria desenvolver muito mais rapidamente, contudo, com a pandemia houve, inclusive, projetos que foram cancelados.”

No evento foi dado a conhecer aos participantes estrangeiros o trabalho que tem sido feito no país, apesar dos constrangimentos. E, assegura Sofia Duque: “Demonstraram como existe forte evidência científica  dos benefícios clínicos e económicos da Medicina Geriátrica, nomeadamente na redução do tempo de internamento e da mortalidade, assim como da perda de autonomia que leva à institucionalização.”

Em jeito de conclusão, na sessão, foi realçado  o facto de ainda haver um longo caminho a percorrer: é importante não se desistir. “A Medicina Geriátrica não está implementada no sistema de saúde português de forma estruturada, os profissionais de saúde não têm formação adequada nesta área e a Geriatria ainda não é reconhecida como uma especialidade médica independente em Portugal, como noutros países europeus. É preciso continuar.” Lembre-se que a Geriatria já é especialidade em vários países europeus como em Espanha, desde 1978, e em França, desde 2000.

Na sessão estiveram presentes representantes da Ordem dos Médicos, do Colégio da Competência em Geriatria pela OM, da Direção-Geral da Saúde e da Coordenação do Plano de Ação de Envelhecimento Ativo e Saudável. Todos concordaram que existem mais-valias em se dar especial atenção às particularidades dos mais idosos, aqueles que mais consomem recursos de saúde por causa da multipatologia e da polimedicação.

No âmbito do PROGRAMMING, que tem a duração de quatro anos, continuar-se-á a identificar as necessidades formativas de cada país, para que os cuidados geriátricos sejam uma realidade em diversas regiões.

MJG

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