18 Abr, 2022

60% dos portugueses alegam não ter tido os cuidados de saúde necessários, o dobro do valor europeu

O motivo que mais contribuiu para esta perceção foi o cancelamento da atividade assistencial por parte dos diversos serviços de saúde.

Cerca de 60% dos portugueses dizem não ter tido os cuidados de saúde necessários durante a primeira vaga da pandemia de SARS-CoV-2 (de Março a Agosto de 2020), segundo avança o jornal Público, com base em dados de um estudo publicado recentemente na Acta Médica Portuguesa. Este valor representa quase o dobro do registado a nível europeu (33%), onde o estudo foi também desenvolvido.

De acordo com o trabalho, que se baseou num inquérito feito a 1118 pessoas com 50 ou mais anos, o motivo que mais contribuiu para esta perceção foi o cancelamento da atividade assistencial por parte dos diversos serviços de saúde. “Verifica-se que quer em Portugal, quer nos outros países, o motivo mais frequente para Necessidades Não Satisfeitas (NNS) foi a desmarcação de consultas e tratamentos por parte dos médicos ou dos serviços de saúde (54,5% em Portugal e 24,2% nos outros países)”.

“A prevalência de necessidades não atendidas diferiu dependendo do nível de rendimento e do estado de saúde. Os índices evidenciam a concentração de necessidades não atendidas em indivíduos com pior estado de saúde, embora pelo motivo de medo de infeção a concentração tenha ocorrido naqueles com maiores níveis de rendimento e escolaridade”, sublinha o trabalho Covid-19 e necessidades em saúde não satisfeitas para indivíduos com mais de 50 anos em Portugal, da autoria dos académicos Óscar Lourenço, Carlota Quintal, Luís Moura-Ramos e Micaela Antunes.

Os investigadores salientam que os indivíduos que apresentavam pior estado de saúde teriam, à partida, com mais agendamentos e, por essa via, eram “mais suscetíveis a cancelamentos ou falta de comparência”.

Em Portugal, foi também superior a percentagem de doentes que não tiveram os cuidados que julgavam ser necessários por receio de serem infetados: 15%, contra 11,7% dos restantes países europeus.

O inquérito incluía as seguintes questões: “Desde o início da pandemia desistiu de algum cuidado de saúde porque tinha medo de ficar infetado pelo coronavírus?”, “Tinha alguma consulta médica agendada que o médico ou estabelecimento de saúde decidiu adiar devido ao coronavírus?” e “Desde o início da epidemia do coronavírus solicitou alguma consulta para receber um cuidado de saúde e não a obteve?”

Os dados usados provêm do projeto Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe (SHARE), que abrange 27 países da União Europeia, Suíça e Israel e que tem como população alvo pessoas com 50 ou mais anos. Em Portugal foram inquiridas 1118 pessoas, através de entrevista telefónica, entre junho e agosto de 2020. Com uma média de idade de 68 anos, dois terços dos entrevistados tinham apenas concluído o primeiro nível do ensino básico. Mais de 70% tinham duas ou mais doenças crónicas identificadas.

Numa análise mais prolongada, que abarcou os primeiros 12 meses da pandemia de covid-19, o Plano Nacional de Saúde 2021-2030 citava recentemente dados de 2021 que mostram um aumento da proporção de necessidades não satisfeitas de cuidados médicos tem Portugal para os 34%, um valor muito superior à média da OCDE (22 %).

SO

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