7 Out, 2021

Um em cada sete doentes oncológicos falharam cirurgias no confinamento

A investigação envolveu 435 doentes oncológicos de 15 hospitais portugueses. Médicos alertam para o "impacto a longo prazo" destes adiamentos.

Um em cada sete doentes oncológicos não foram submetidos a cirurgias que poderiam salvar vidas durante o confinamento total na primeira fase da pandemia, concluiu um estudo que envolveu 20 mil doentes de 61 países, incluindo Portugal.

O estudo, publicado na revista The Lancet Oncology, contou com a participação de 5.000 cirurgiões e anestesistas de 61 países que analisaram dados de 15 tipos de cancro sólido mais comuns. A investigação envolveu 435 doentes oncológicos de 15 hospitais portugueses.

“Aquilo que o estudo mostra é que quanto mais restritas são as medidas de confinamento maior é a probabilidade de as cirurgias oncológicas serem adiadas, o que pode obviamente ter repercussões para aquilo que são os resultados para os doentes em termos de sobrevida a longo prazo e recorrência dos cancros”, disse Joana Simões, médica interna de Cirurgia Geral do Hospital Garcia de Orta, em Almada, que participou na investigação.

Segundo Joana Simões, doutoranda da Universidade de Birmingham, que coordenou o trabalho, entre os países analisados Portugal “situava-se na gama de países com medidas mais restritivas em termos de confinamento”, o que significa que “terá sido dos países em que os doentes estiveram mais suscetíveis a este tipo de atrasos nas suas cirurgias oncológicas”.

Doentes que falharam cirurgias têm diminuição da sobrevida

 

“O estudo revela, do ponto de vista pragmático, que em situações com confinamentos tão restritos como aquele que foi adotado em Portugal, o adiamento de cirurgias pode ir até 15% dos doentes, ou seja, que um em cada sete doentes acaba por não conseguir ter a sua cirurgia feita durante o período em estudo”, afirmou Joana Simões, sublinhando que “mesmo aqueles que são operados têm atrasos significativos no ‘timing’ da cirurgia”.

Explicando que o estudo só avaliou resultados da cirurgia a curto prazo – “três a cinco meses após a decisão” -, a especialista sublinha que está descrito na literatura que “estes doentes têm maior probabilidade de recorrência dos cancros a longo prazo e de diminuição da sobrevida global”.

“Obviamente que isto pode ter um impacto a longo prazo naquilo que é o resultado do tratamento do cancro e é por isso que é tão importante lançar o alerta, a partir destes dados, não só para as administrações hospitalares, mas também para a Direção Geral da Saúde e o Ministério de Saúde, para que isto seja planeado de forma coordenada sob o ponto de vista intra e inter-hospitalar”, disse.

Liderados por especialistas da Universidade de Birmingham, os investigadores concluíram que embora os confinamentos mais restritos impostos pela pandemia de covid-19 tivessem sido essenciais para proteger o público em geral da propagação de infeções, levaram a “atrasos significativos na cirurgia oncológica e potencialmente mais mortes por cancro”.

“Estas poderiam ter sido evitadas se as operações tivessem prosseguido a tempo”, defendem os autores do estudo, em comunicado.

Os investigadores pedem uma reorganização global durante a recuperação da pandemia para fornecer “vias cirúrgicas eletivas protegidas” e “camas de cuidados intensivos que permitirão que a cirurgia continue em segurança”, bem como o investimento na capacidade de aumento para futuras emergências de saúde pública.

“Esta reorganização é fundamental porque nós sabemos que há uma assimetria muito grande naquilo que é a gestão das listas de espera do ponto de vista regional e do ponto de vista hospitalar e não é admissível que um doente tenha maior ou menor probabilidade de ver seu cancro tratado e curado a longo prazo dependendo do sítio onde vive e do tipo de planeamento que existe no hospital ou no serviço a que recorre”, defendeu Joana Simões em declarações à agência Lusa.

“Aquilo que é importante fazer é, nesta fase – em que poderá haver outros fatores de stress no sistema, sejam eles uma nova onda de pandemia, um surto de gripe ou falhas dos serviços por outros motivos quaisquer -, proteger estes doentes porque são doentes muito vulneráveis àquilo que é depois o impacto na sua sobrevida a longo prazo”, acrescentou.

Os investigadores compararam cancelamentos e atrasos antes da cirurgia do cancro durante os confinamentos mais restritos com os períodos apenas com restrições ligeiras. Durante os confinamentos totais, um em cada sete doentes (15%) não recebeu a cirurgia programada numa mediana de 5,3 meses após o diagnóstico, todos tendo como motivo a pandemia de covid-19. Durante períodos de restrição ligeira, a taxa de não operação foi muito mais baixa (0,6%).

Joana Simões lembra que, apesar de nestes casos os doentes com cirurgia atrasada não terem tido “uma menor taxa de receção dos seus cancros” – os cirurgiões conseguiram remover cirurgicamente o tumor -, outras investigações dão conta de que os efeitos a longo prazo podem ser piores nestes doentes.

“Sabemos por outros estudos que foram publicados por outros grupos de investigação que os efeitos a longo prazo, por exemplo, a cinco anos após o diagnóstico de cancro, podem ser piores em doentes cuja cirurgia foi atrasada”, exemplificou.

Para monitorizar estas situações, os investigadores defendem que estes doentes possam vir a ser seguidos de forma mais próxima pelos seus médicos assistentes.

“Aquilo que os médicos, os cirurgiões e os projetos de investigação futura precisam de fazer daqui para a frente é perceber que estes doentes (…) talvez precisem de um seguimento mais apertado, ou diferente. É nisso que os próximos projetos de investigação precisam de se focar e os cirurgiões e os médicos em geral precisam também de estar alerta para isso e, provavelmente, ter uma atenção diferente com estes doentes”, concluiu.

SO/LUSA

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