Um cuidado que coloca cada vez mais a pessoa humana no centro
Vice-Presidente do Congresso Português de Geriatria e Gerontologia; Vice-Presidente da Sociedade Portuguesa de Geriatria e Gerontologia

Um cuidado que coloca cada vez mais a pessoa humana no centro

Vimos assistindo a uma mudança de mentalidades no sentido de um olhar e um cuidado que coloca cada vez mais a pessoa humana no centro desses mesmos cuidados e de uma outra forma de encarar o envelhecimento.

Deixando de se centrar apenas numa visão biológica, a ciência deixou de ser apenas médica, alargou o seu âmbito de intervenção e interpretação das doenças e problemáticas que mais afectam a população mais idosa e, para além da pessoa em si, considera-a no seu ambiente, no seu contexto social, nas suas oportunidades ou falta delas ao longo da vida, na sua capacidade funcional, na sua segurança e participação, nas suas atividades da vida diária e nas atividades instrumentais da vida diária.

A interpretação do que determina o nosso melhor ou pior envelhecimento e bem-estar ao longo da vida já não está fechada num gabinete, ela envolve o que nos estimula, o que nos agride, o que nos isola, o que nos deprime, o que nos sedentariza e o que nos sociabiliza e estimula.

Não somos mais vistos como uma pessoa cuja definição da sua complexidade se limita à idade que está inscrita nos nossos documentos oficiais. A idade é um factor, mas não é o único factor da nossa saúde e do nosso envelhecimento. Cada pessoa recupera a sua individualidade, o seu direito a ser cuidada e olhada como uma pessoa, e a ciência, tal como a vemos e utilizamos, obriga-nos a uma cada vez maior abrangência nos diagnósticos, nos tratamentos, nos prognósticos e na humanização dos processos da saúde em todas as fases da vida.

Em mais um Congresso de Geriatria e Gerontologia, nos quais colaboro há mais de 40 anos, procurámos enquadrar cada vez mais as perspetivas de reflexão científica, considerando as pessoas no seu meio habitual de vida. Hoje em dia, cada vez mais nos meios urbanos, sem esquecer os polos de isolamento rurais. De igual modo, as estratégias de cuidados, o estado da arte atual e a pluridisciplinaridade e interdisciplinaridade estão presentes, a especialização centrada numa abordagem global da complexidade humana. A articulação e integração dos cuidados, as estratégias numa perspetiva de favorecer uma longevidade ativa e saudável, numa mudança de paradigma para os cuidados cada vez mais de proximidade e ao encontro dos cidadãos mais velhos, são igualmente considerados tendo por pano de sustentabilidade uma nova visão da economia do envelhecimento.

Cada vez mais apoiada nas novas tecnologias, a ciência e investigação estão sempre presentes, numa perspetiva holística da saúde, da participação social, da prevenção, da segurança e da solidariedade entre as gerações, procurando que a formação nestas áreas olhe cada vez mais as pessoas como pessoas, de forma integrada, de forma também especializada, e não apenas como a visão de um conjunto de órgãos ou sistemas físicos.

Sendo que as dependências atingem os seres humanos, cada vez mais perigosamente e precocemente nos mais variados contextos sociais, estas problemáticas enquadram-se neste congresso como um alerta para todas as idades.

A urgente mudança de paradigma de oferta e qualidade de cuidados, que desafia todos os actores em saúde, obriga-nos a uma urgente reflexão sobre se são os cidadãos à medida que envelhecem que devem adaptar-se às diferentes ofertas de cuidados existentes, ou se são as respostas existentes, e as que se projetam, que devem cada vez mais adaptar-se às necessidades e anseios de uma população que exige hoje abordagens diferentes de respostas.

Olhando para a forma como o sono ou a falta dele nos afecta, e é afectado, precisamos que os mais velhos saibam gerir os tempos de sono e vigília e a interpretação das alterações destes ritmos ajude a diagnósticos precoces. Porque sabemos que uma significativa percentagem da população, ao longo do tempo, consome demasiados medicamentos “para dormir”… com todas as consequências nefastas nos acidentes, nas quedas, nas fracturas, no cérebro, na nossa capacidade de trabalho e de relacionamento saudável, incluímos no programa uma matéria que raramente é falada e aprofundada e que influencia toda a nossa vida.

Queremos, com a Formação e uma cada vez maior literacia nas áreas do envelhecimento humano, chegar a todos os que têm a dignificante tarefa de prestar cuidados aos nossos mais velhos. Sem esquecer que, as próprias pessoas não são meros receptores passivos de cuidados e que têm uma palavra a dizer.

Desejo um ótimo Congresso! Agradeço a participação de todos os Congressistas e de todos os Conferencistas, e em nome da SPGG, os melhores votos de que encontrem sempre novos caminhos para a qualidade da saúde e da vida humana.

 

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