Médico e co-fundador da nobox | Enfermeiro e membro da nobox

“Só mais um bocadinho…” – e se exigir mais resiliência só agravar o problema?

A segunda vaga da pandemia está aí. Sabíamos que era uma maratona e que a maratona implica suor e lágrimas. Na maratona alguém nos grita: “sê mais resiliente, tu consegues!”. No entanto, será que o que precisamos é de mais resiliência ou de começar a perceber os limites e adaptar a nossa estratégia, quer pessoal, quer organizacional?

Os tempos dos silêncios nas ruas, das palmas à janela, dos arco-íris espalhados pelas ruas parecem memórias longínquas. Com o Verão, passou a fase heroica e a fase da lua-de-mel, e rapidamente entrámos na fase de desilusão, no que ainda parece ser só o início de um processo que será longo e custoso. Estamos na fase da desilusão e começamos a sentir as dores da maratona. Todos os dias nos pedem mais um pouquinho…

“Podes ficar mais umas horas? Precisamos mesmo…”

Há alguns meses que se espera uma recuperação dos cuidados não-covid, na expectativa de recuperar o tempo perdido. Por outro lado, a pandemia não dá tréguas e vemo-nos forçados a debruçar novamente quase toda a atenção na avalanche de casos covid.

Estamos a correr, não vemos a meta e não sabemos se aguentamos.

Essa é a grande diferença da maratona. Aí sabes quantos quilómetros vais correr, qual a meta e o percurso e isso permite-te gerir a energia e preparar-te física e psicologicamente.

Mas nesta crise, sem fim à vista, esta gestão torna-se mais difícil e mesmo assim ouvimos frequentemente:

“Sê mais resiliente, aguenta mais um bocado… tu consegues!”.

Pode vir do nosso chefe, ou de um colega de trabalho, na ânsia de resolver problemas, mesmo que isso nos leve ao limite. Faz sentido e vem normalmente de uma vontade genuína de fazer mais e melhor.

Mas quais os riscos de este esforço extra constante e de depender da resiliência dos profissionais, quando esta gestão de esforço já dura há 6 meses e não sabemos quando vai acabar?

Para isso ajuda perceber o que significa resiliência. Este conceito, da psicologia, faz parte das conversas diárias, tem interpretações diferentes por parte de cada pessoa. No fundo, o que se pede é que a pessoa dê mais um pouco, que se esforce um pouco mais, que aguente. Conceptualmente, a resiliência pode ser entendida como resistência ao stress ou como uma capacidade de superação. No entanto, como é que isso pode ser simultaneamente uma característica positiva e representar um risco elevado para o profissional de saúde?

Para situações agudas e esporádicas pode ser uma capacidade fundamental para conseguir uma resposta efetiva, sem sacrificar o efetor. Contudo, as dores numa maratona podem ser um importante alerta. Será que esta dor não é um aviso pré-ruptura? Será que pode implicar o fim da maratona para o corredor? Será que é preciso baixar o ritmo para conseguir chegar ao fim?

Todos os dias pedimos um pouco mais, sobrecarregando o corredor cada vez mais cansado. Mas enquanto acreditamos que isso pode ajudar, ignoramos o alerta para mudar e mantemos a estratégia claramente já insuficiente. Pede-se a cada um que trabalhe mais, quando devíamos mudar o trabalho exigido em si.

Nestes casos, para um maratonista, o aviso é claro: tenho que mudar a estratégia, diminuir o passo, redefinir o meu foco, encontrar os meus recursos. Porque é que demoramos tanto a fazer este processo de readaptação na saúde?

Importa perceber que a adaptação deve acontecer a dois níveis: na organização e no indivíduo.

Se os nossos resultados dependem do esforço adicional e excessivo constante dos membros da equipa, então o processo ou estratégia adotados são desadequados e devem ser alterados. A resiliência dos profissionais deve ser uma capacidade de recurso e não o sustento do dia-a-dia. Estas dores da maratona são o nosso alerta para a urgência de mudar de estratégia. Devemos ambicionar ter organizações resilientes, ao invés de depender da resiliência dos seus membros.

Adicionalmente, esta “maratona” nos cuidados de saúde tem algumas particularidades: não se corre sozinho! Não precisa de ser uma maratona individual. A ideia não é ser um corredor solitário mas sim correr em conjunto com a equipa, acordando e adaptando as táticas: talk and walk and adjust. Cada pessoa, enquanto elemento da equipa, tem a possibilidade de contribuir para que se chegue à meta. Em primeiro lugar, conhecendo as suas características, a forma como reage em momentos difíceis e quais as estratégias para melhor lidar com a situação. Só depois poderá ajudar-se a si próprio e apoiar os outros os outros a fazer este processo, de forma segura, atento às dores mas também às forças escondidas em cada um.

Fonte:

https://www.scielo.br/pdf/paideia/v21n49/14.pdf

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