Precisamos de líderes
Medicina Interna na ULSSA - Porto

Precisamos de líderes

Nos tempos que correm, escasseiam os líderes. É um fenómeno mundial que atinge todas as áreas. Não sei se a falta de líderes decorre de algum percalço genético, eventualmente induzido pelo aquecimento global. Parece-me ser mais devido à massificação a que fomos votados, em que a vulgaridade prospera, e o que se tem é mais valorizado do que aquilo que somos. Um vislumbre de cultura é um ferrete, olhado com desdém. O que importa é aparecer, seja onde for, mesmo sem dizer nada de jeito. Ninguém questiona a sua competência para um cargo de nomeação. Todos conhecem casos piores, em que as dificuldades foram bem compensadas com excelentes assessores. A dívida paga-se mais tarde.

Tal como os artistas, os verdadeiros líderes têm de passar a prova do tempo. Se continuarem na recordação e admiração dos homens, é porque a sua obra perdura e tem valor. Há algumas características que indiciam estarmos na presença de um líder:

– Quando fala, os colaboradores fazem silêncio, porque reconhecem nas suas palavras a motivação necessária à superação de cada um;

– Ouve, individualmente, cada um dos colaboradores, para perceber as suas aspirações e potencialidades, com vista ao desenvolvimento de um projeto vencedor comum;

– Tem a capacidade de delegar funções relevantes, que tornam esses colaboradores designados em líderes de equipas;

– Está consciente que o seu exemplo é escrutinado, pelo que pauta todas as decisões por regras claras e conhecidas, despreza o nepotismo e não faz quaisquer desvios pelas circunstâncias;

– É capaz de reconhecer a mudança das condições, que obrigam a alteração da estratégia;

– Tem a retidão das ideias e a previsibilidade nas decisões, como é apanágio dos espíritos livres, sem subserviência ao poder;

– Interessa-se mais na análise das melhorias possíveis nos resultados obtidos, do que na celebração do que está bem.

A saúde está muito precisada de líderes, que empolguem os médicos e os enfermeiros. É fundamental que o poder decisório não esteja quase todo nas mãos dos gestores. Um hospital é uma estrutura muito complexa, que produz o bem inestimável da saúde física, psíquica e social, em pessoas de carne e osso. A quantidade é importante, mas a qualidade raramente é aferida ou auditada, e nunca é valorizada.

Há detalhes que mudam vontades. Lembro-me do tempo em que a direção clínica do hospital era eleita pelos médicos e tinha poder executivo. Há vários anos, todos os órgãos de gestão são de nomeação governamental. A eleição pelos pares não é uma solução milagrosa para um novo e necessário impulso no SNS. Mas, talvez, lhe desse uma centelha de motivação para fugir ao desalento.

 

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