Pensar o futuro a partir da pandemia. “É preciso organizar e agilizar os recursos”

O risco de novas pandemias exige um plano de ação capaz de antecipar a deteção da ameaça e, depois, de intervir de forma célere sobre ela, defende o especialista em Saúde Pública, em entrevista ao SaúdeOnline.

Ricardo Mexia foi uma das personalidades convidadas a expor a sua visão para o futuro de Portugal no livro 67 Vozes por Portugal – A Grande Oportunidade, editado pelo ISCTE Executive Education  e pela Leya, que junta várias as visões do futuro de Portugal, entre empresários, artistas, gestores, académicos e tantos outros.

 

Que lições considera que podemos retirar desta pandemia para o futuro, nomeadamente em relação à gestão dos riscos pandémicos?

A situação que vivemos agora é ímpar. No entanto, há potencial para que ela se repita, fruto das circunstâncias várias que levam a que este tipo de ameaças biológicas se repitam. Por isso, temos de estar devidamente capacitados para responder a essas ameaças. Todos os países aprenderam essa lição.

Espero que esta pandemia possa servir de alerta para investirmos mais na preparação. A Global Health Security Agenda já previa identificar as principais fragilidades dos países a este nível para as melhorar. A própria OMS tem também ferramentas para identificar essas tais fragilidades.

O modelo tem de assentar em três grandes domínios: prevenção (evitar que acontença), deteção (identificar rapidamente o problema) e a resposta (a forma como lidamos com o problema). Portugal, tal como outros países, não estava preparado para responder a esta pandemia. Tal como digo no livro, é preciso “transformar ameaças em oportunidades”.

Concretamente no caso de Portugal, o que poderia ser feito?

É preciso alocar mais recursos, mas, mais do que isso, é preciso pensar e organizar essa capacidade. Isso implica ter recursos humanos treinados com este propósito, mecanismos mais ágeis e uma estrutura com capacidade de respostas (e, principalmente, com capacidade de escalar essa resposta de forma célere).

É um pouco como as forças armadas, isto é, não estamos na expectativa de enfrentar um conflito armado, mas temos de ter umas forças armadas que, perante uma ameaça deste género, possam ser mobilizáveis e possam ter uma resposta adequada. Enquanto não temos esse conflito armado, penso que as forças armadas podem dar um contributo importante ao país em diversos domínios. Aqui também. Não estamos sobre uma ameaça pandémica mas a abordagem que fazemos às doenças infeciosas, por exemplo, é útil em contextos mais pequenos – antes da pandemia, tivemos o surto de doença dos legionários, surtos de sarampo, etc. Aliás, todos os dias temos pequenos surtos que afetam uma ou outra comunidade.

A questão dos sistemas de informação é outros dos aspetos imprescindíveis. Temos até, em Portugal, uma elevada digitalização na Saúde. Contudo, depois falta-nos olhar para os dados e transformar essa informação em conhecimento.

A baixa literacia em saúde e a desinformação são ‘batalhas’ atuais que, na sua opinião, estamos em condições de vencer?

A desinformação só se dissemina porque temos uma baixa literacia em saúde e em ciência. Temos de ter capacidade de intervir sobre isso, sendo que a própria OMS já reconhecia que a desinformação é uma ameaça importante. É um caminho longo mas necessariamente temos de trilhar. Proteger a saúde das pessoas também passa por assegurar que elas têm a informação necessária e capacidade de perceber a informação que lhes vai chegando, para tomarem as melhores decisões.

SO

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