20 Fev, 2026

Ordem dos Médicos pede apuramento de alegadas mortes em lista de espera para cirurgia cardíaca

Carlos Cortes, bastonário da Ordem dos Médicos, recordou que a rede de referenciação para centros cardíacos foi atualizada em 2023, com a inclusão de Braga e Faro, num processo que contou com contributos das várias entidades.

Ordem dos Médicos pede apuramento de alegadas mortes em lista de espera para cirurgia cardíaca

A Ordem dos Médicos (OM) quer que a tutela apure se morreram doentes enquanto aguardavam cirurgia cardíaca e exige medidas imediatas, mas alerta que os recursos humanos disponíveis são limitados para a eventual criação de novos centros.

“Era do desconhecimento público, pelo menos da OM, a situação que o [hospital de] Santo António referiu de que há dificuldades e que estão a morrer pessoas. Portanto, a primeira coisa que se tem que fazer, e eu apelo à Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde, é que avalie esta situação porque não podem estar pessoas em lista de espera a morrer sem ter resposta”, afirmou à Lusa o bastonário Carlos Cortes.

Em entrevista à RTP, o diretor do Serviço de Cardiologia da ULS Santo António, André Luz, declarou na quinta-feira que “mais de 10 doentes faleceram em virtude de uma lista de espera demasiado elevada só nesta ULS”.

As declarações surgiram no mesmo dia em que o Diário de Notícias noticiou que quatro hospitais do Norte com serviços de cardiologia subscreveram uma carta dirigida à ministra da Saúde a alertar para o aumento das listas de espera para cirurgia cardíaca e implantação da válvula da aórtica.

Segundo o jornal, subscrevem a carta os serviços de cardiologia da ULS Santo António, da ULS Tâmega e Sousa, da ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro e da unidade que gere o Hospital Pedro Hispano.

À ULS Santo António é atribuída a ambição de criar um novo centro de referência em cirurgia cardíaca. Já a ULS Tâmega e Sousa esclareceu que não pretende constituir-se como centro de implantação de válvulas, embora defenda uma reflexão global sobre a capacidade instalada. A ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro admite como ambição realizar intervenções cardíacas percutâneas, garantindo que não está em causa o esvaziamento dos centros existentes.

Atualmente, os doentes que necessitam deste tipo de intervenção são referenciados para a ULS São João, para a ULS de Vila Nova de Gaia/Espinho e para a ULS Braga, onde abriu há dois meses uma nova estrutura, a funcionar, segundo foi divulgado, a cerca de 20% da sua capacidade.

Na quinta-feira à noite, fonte da ULS Santo António indicou à Lusa que o conselho de administração não iria pronunciar-se sobre o tema.

O bastonário da OM insiste que a Direção Executiva do SNS deve “apurar tudo o que puder sobre esta matéria” e “tomar medidas imediatas”, sublinhando que a afirmação sobre mortes em lista de espera “é uma afirmação grave, é uma afirmação que tem imenso impacto e que tem que ser percebida”.

“Temos que perceber exatamente quantas pessoas é que morreram em lista de espera porque não tiveram a sua cirurgia atempadamente e temos que encontrar soluções”, frisou.

Questionado sobre a eventual abertura de mais centros, Carlos Cortes falou numa “equação impossível”, lembrando que os centros de referência existem para concentrar recursos humanos, garantir equipas completas, qualidade e segurança, bem como maior experiência cirúrgica.

“Os médicos que existem neste momento são aqueles que estão nos centros de referência [atuais]. Portanto, a haver mais centros de referência, teriam de transitar os mesmos médicos de um lado para o outro. É aquilo que já está a acontecer neste momento”, alertou.

Além da intervenção da Direção Executiva do SNS, o bastonário instou o Ministério da Saúde a clarificar se valida ou não a criação de novos centros de cirurgia cardíaca, nomeadamente o defendido pela ULS Santo António.

“A decisão tem de ser sempre política, mas tem de ser política tendo em conta um parecer técnico, uma avaliação técnica. Há uma comissão para os centros de referência, há uma comissão para a rede de referenciação, há sociedades científicas, a OM tem a sua capacidade técnica, existe a Direção-Geral da Saúde, há um conjunto de organismos que são muito importantes e que têm que ser envolvidos para haver racionalidade nas decisões”, sustentou.

Carlos Cortes recordou que a rede de referenciação para centros cardíacos foi atualizada em 2023, com a inclusão de Braga e Faro, num processo que contou com contributos das várias entidades, manifestando preocupação com “eventuais distrações por causa de polémicas”.

“Não podemos acrescentar 10 centros de referência. Têm de existir recursos humanos adequados. Como é que, por um lado, o Governo diz que têm que haver cortes orçamentais, a própria DE-SNS impõe cortes orçamentais para 2026 e, ao mesmo tempo, fala-se em criação de mais capacidade de resposta?”, questionou.

A Lusa solicitou esclarecimentos ao Ministério da Saúde e à Direção Executiva do SNS, aguardando resposta.

SO/LUSA

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