O SNS em suporte avançado de vida: anatomia de um sistema desgastado
Enceto esta reflexão no papel de médico interno que percorre diariamente os corredores do Serviço Nacional de Saúde (SNS), o qual revela sinais evidentes de desgaste estrutural. Importa referir que o SNS se constitui inequivocamente como uma das maiores conquistas da democracia portuguesa, não obstante paulatinamente ter vindo a ser vilipendiado ao longo das últimas duas décadas por opções políticas, falhas gritantes de gestão, falta de recursos materiais e humanos, assim como por uma pressão assistencial que ameaça a sua sustentabilidade.
Um dos problemas centrais reside na gestão governativa do sistema. O SNS tem sido alvo de discursos laudatórios, mas raramente acompanhados por reformas estruturais coerentes e de longo prazo. A ausência de planeamento estratégico, a incapacidade de fixar profissionais com condições remuneratórias e laborais condignas com o grau de especialização e de responsabilidade, a degradação das carreiras, a falta de valorização profissional, a não inclusão do internato médico na carreira, uma ainda frágil rede de cuidados continuados e paliativos, a epidemia de casos sociais nos hospitais e a constante improvisação na resposta às crises revelam uma governação mais reativa e pouco esclarecida do que verdadeiramente reformista.
No terreno, essa má gestão traduz-se em serviços subdimensionados, infraestruturas envelhecidas e equipas incompletas com um rácio desgovernado de doentes por profissional e subsequentemente com uma sobrecarga inaceitável e contínua dos mesmos, o que acarreta consequências diretas na segurança do doente e na dignidade do próprio ato médico.
A medicina praticada sob pressão extrema perde espaço para a reflexão clínica, para a escuta atenta e para a relação humana que deve estar no centro do cuidado. Ainda importante, os médicos encontram-se submersos em burocracias e atos fúteis para a prática clínica, dos quais passo a citar a títulos de exemplo a prescrição de transporte não urgente, emissão de declarações não clínicas, resolução de problemas de índoles social e administrativa, utilização de múltiplos sistemas informáticos não interoperáveis e obsoletos e a necessidade de cumprimento de indicadores e métricas desviadas da melhor evidência médica.
Aos problemas acima referidos, aponto ainda a consternação e impotência dos profissionais pelo crónico e abusivo recurso às urgências hospitalares e dos recursos a ela associados, problemática comummente agudizada na época sazonal vigente. Esta realidade, não obstante o conhecido enfraquecimento dos cuidados de saúde primários e a frequente morosidade no acesso a consultas hospitalares, demonstram falta de civismo, responsabilização e de literacia em saúde de alguns concidadãos.
Os meios estatais e de comunicação social nas suas várias dimensões desempenham aqui um papel muito relevante em explicitar à população o que deve motivar uma avaliação médica em contexto de serviço de urgência para que doentes verdadeiramente a necessitar de cuidados urgentes/emergentes tenham uma resposta mais célere e profícua. Ainda importante, alguns destes mesmos meios de comunicação social devem ter especial precaução na disseminação de informação imprecisa, errónea e/ou mesmo falsa, confirmando devidamente os factos.
Todavia, mesmo perante os sintomas acima mencionados e prognóstico reservado do SNS, não vergando os braços e ainda impulsionados pelas palma(da)s nas costas durante o surto pandémico, os seus profissionais fazem um esforço hercúleo para segurar um sistema ligado à máquina, cujos suportes aminérgico e ventilatório são assegurados unicamente por quem nele trabalha, os quais, ainda recentemente e por sinal, viram chumbada uma proposta parlamentar de reconhecimento da sua atividade laboral como sendo de desgaste rápido.
Não terá sido suficiente a realização de jornadas de trabalho sem o devido descanso previsto na lei, de horas extraordinárias infindáveis para assegurar os serviços muito acima do contratualizado e razoável, de turnos noturnos e em dias não úteis sem possibilidade com frequência de usufruir folgas, riscos infeciosos e de agressão física e psicológica, a maior litigância e exposição mediática e a responsabilidade intrínseca à atividade laboral…
Síndromes de ansiedade, depressivas, burnout e despersonalização são cada vez mais prevalentes e uma realidade, aliando-se o cansaço físico ao desgaste emocional e à sensação de impotência perante um sistema que exige cada vez mais e oferece cada vez menos em reconhecimento, condições para uma vida pessoal e familiar e perspetivas de futuro. Quando quem cuida adoece, todo o sistema adoece com ele. Muitos médicos vivem portanto um conflito ético permanente entre o compromisso com os doentes e a preservação da sua própria saúde mental, optando assim em muitos casos por se desvincularem do SNS para exercer atividade em entidades privadas ou em último cenário mesmo pela emigração.
Em suma, não obstante a profissão médica ser gratificante pelo impacto que se tem no cuidar do doente, um ser excecional que nas suas maleitas precisa de se sentir acolhido e nos confia o seu bem mais valioso, a sua vida, para que o SNS sobreviva com dignidade é imperativo cuidar não apenas destes, mas também de quem cuida, sob pena de um desmantelamento irreversível e penoso de um dos pilares e alicerces da democracia portuguesa.
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