16 Mai, 2018

O futebol feminino está na moda. Agora, a atenção centra-se nas lesões das jogadoras [entrevista]

A reunião da “Women’s Elite Club Injury Study” realizou-se, pela primeira vez, em Portugal - na Cidade do Futebol, em Oeiras. Em discussão vai estar um estudo-piloto sobre lesões em jogadoras de alta competição e que conta com a participação de médicos e fisioterapeutas dos clubes da elite do futebol europeu. O Saúde Online esteve à conversa com a médica da FPF Rita Tomás.

Em que consiste este estudo?

RT | É um estudo pioneiro sobre as lesões no futebol feminino nos clubes de elite europeus. Nunca nada do género foi feito. De facto, já existe algo muito semelhante feito quase há 16 épocas em equipas masculinas. Mas no futebol feminino, é uma área muito menos estudada – a área da investigação médica –e, portanto, é a primeira vez que estamos a pedir aos clubes de elite femininos para reportarem as suas lesões e as suas doenças para nós as caracterizarmos melhor. O futebol de elite feminino está cada vez a desenvolver-se mais e, por isso, nós como médicos acabamos por nos basear em informações que vêm nos estudos feitos nos homens e nem sempre tudo se aplica às mulheres.

Quando fala em clubes de elite, está a falar de que clubes?

RT | São os clubes que disputam a liga dos campeões feminina, portanto, o Ajax, o Manchester City, o Chelsea, o Barcelona, o Atlético de Madrir, o Sporting, o Bayern de Munique, o Linkoping (da Suécia), o Montpellier, o Lyon, a Brescia, a Fiorentina, a Juventus.

Está neste momento a ser feita essa recolha de dados?

RT | Nós começámos este estudo piloto de janeiro a maio para fazermos um teste de viabilidade. Normalmente nós estudamos as épocas, que começam em julho e vão até maio. Esta ideia surgiu-nos no final do ano passado mas havia receio de que os clubes de elite femininos não estivessem suficientemente organizados de maneira a poderem fornecer dados de forma regular, neste caso mensalmente, para a equipa de investigação. Então, antes de se iniciar o estudo propriamente dito – com a época inteira – decidimos fazer este estudo de viabilidade e por isso é que se chama “estudo piloto”. Mesmo assim deu para perceber que os clubes estão suficientemente organizados para reportar mensalmente as ausências do treino por lesões e por doença e dar dados de qualidade, que permitem chegar a algumas conclusões.

Este é um estudo da responsabilidade de que entidade?

RT | É da responsabilidade do Football Research Group. Este grupo já tem uma experiência acumulada de 17 anos em fazer este estudo nas equipas de elite masculinas. Este, para já, é um estudo piloto que está à responsabilidade deste grupo, que fica em Linkoping – na Suécia – e que é liderado por um médico de ortopedia, o professor Jan Ekastrand. Ele, com o todo o seu saber acumulado e em conjunto com a sua equipa, tem estado a trabalhar – de janeiro até maio – na recolha e na análise dos dados.

Que participação tem a FPF nesse estudo?

RT | Eu tive contacto com o professor Ekstrand numa conferência. Nós, como médicas das seleções, temos contacto com vários clubes europeus. Algumas das nossas jogadoras estão nestes clubes de elite e, portanto, nós temos facilidade em estabelecer contacto com os departamentos médicos dos clubes e fazer o convite para a participação dos clubes. Nesse sentido, eu na Federação tenho esse contacto e também uma outra colega na Federação belga tem um grande à vontade com os clubes francófonos – e assim ajudámos a reunir estas 14 equipas que estiveram dispostas a participar.

A Doutora só trabalha com mulheres?

RT | Aqui na Federação trabalho com as seleções nacionais femininas jovens e agora também com a seleção A. Mas sim, só trabalho com mulheres.

Que tipo de lesões são mais comuns nas mulheres? São as mesmas dos homens?

RT | Nós achamos que há algumas diferenças mas só nos baseamos na nossa experiência. Por isso é que estes estudos são importantes – de modo a passar um bocadinho daquilo que é o meu know-how para aquilo que depois se verifica nos clubes. Há também algumas diferenças entre aquilo que nós vemos numa seleção nacional e aquilo que se vê num clube. Na seleção, nós temos os calendários muito congestionados, temos muitos jogos num curto espaço de tempo e, portanto, as lesões não são as mesmas do que aquelas que ocorrem numa equipa em que treinam cinco dias por semana, descansam um dia e jogam outro. Mas as lesões mais frequentes são as musculares (na coxa) tanto nos homens como nas mulheres. Pensa-se que, em termos de distribuição de grupos musculares, podem haver algumas diferenças em termos dos músculos mais afetados.

As futebolistas e os futebolistas sofrem muito de lesões na parte posterior da coxa mas parece que os homens é mais no adutor e as mulheres mais no quadricípede. Por outro lado, temos a sensação de que as mulheres têm mais lesões graves nos joelhos do que os homens – isto deve-se a vários fatores. A verdade é que, nos poucos estudos que compararam níveis semelhantes de intensidade de jogo, os homens parecem ter uma maior incidência de lesões mas as lesões das mulheres são um pouco mais graves – sobretudo por culpa das lesões ligamentares do joelho, por exemplo [a rutura] do ligamento cruzado anterior é aquela lesão que é terrível e que leva a um grande período de paragem. E depois há aquelas lesões mais comuns, como lesões musculares ou entorses do tornozelo. Conhecendo melhor as lesões, conseguimos trata-las melhor, por um lado, e também estudar os fatores de risco e trabalhá-los para a prevenção.

A prevenção passa também por uma melhor preparação física?

RT | Também. Neste caso, um fortalecimento especifico de determinados grupos musculares, um treino de equilíbrio. O estudo da incidência das lesões é o primeiro passo. Achamos que podemos combater os fatores de risco com um programa de treino, de fisioterapia, ou de fortalecimento muscular no ginásio. E depois temos de voltar a ver, para percebermos se prevenimos aquilo que queríamos prevenir. E, se for eficaz, os clubes e as seleções femininas podem utilizar esse conhecimento de modo a terem as jogadoras menos vezes lesionadas. Isto porque nós sabemos que as equipas têm uma performance maior se tiverem jogadoras menos lesionadas. Isto não está estudado no feminino mas, no masculino, está estudado que as equipas que têm menos lesões por época são as equipas que têm melhores resultados em termos de ligas domésticas e nas competições da UEFA.

Como é que se faz a recuperação das lesões no caso das mulheres?

RT | Este estudo não vai focar os aspetos específicos da recuperação. Nós depois, se alguém tiver uma paragem grande, vamos saber quanto tempo é que demorou a recuperação dessa lesão. Mas não vamos saber detalhes específicos: se recuperou, se teve uma cirurgia, se passou pela fisioterapia. Isso é um passo a seguir que este estudo não vai conseguir dar. Mas, de facto, há diferenças entre homens e mulheres.

Há pouco dizia-me que a propensão para lesões é maior nas seleções do que nos clubes. Isso não é um contrassenso, uma vez que nos clubes existe uma maior carga de jogos?

RT | Nas competições internacionais – estamos a falar de campeonatos do mundo e da europa – normalmente uma equipa tem mais lesões do que uma equipa que está na sua liga doméstica ou na Champions. Por exemplo, uma equipa que jogue uma liga doméstica joga semana a semana. Normalmente, num campeonato da Europa e do Mundo há jogos de 3 em 3 dias – é nesse sentido que estou a dizer. Nós percebemos que há uma incidência de lesões superior do que há nas ligas domésticas. Mas isto tem a ver com o facto de os jogos serem de 3 em 3 dias, de ser no final da época e as jogadoras estarem mais cansadas.

Quando é que este estudo vai ser publicado?

RT | Normalmente há sempre uma décalage de vários meses. Isto é um estudo-piloto, de viabilidade. Na eventualidade de o estudo continuar, e se houver essa motivação por parte dos clubes, é natural que ao fim de duas ou três épocas possamos ter alguns dados interessantes para publicação. É um bocadinho vagaroso mas não quer dizer que, em congressos, não se possam anunciar resultados preliminares. Mas para que possamos ter informação de qualidade e útil, precisamos de ter algumas épocas de recolha de dados.

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