
Assistente Graduado Sénior de MGF (Reformado); Mestre em Comunicação em Saúde pela Universidade Aberta; Doutorado em Clínica Geral pela Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Nova de Lisboa
O Coração da Clínica
Diz-se que a Medicina é ciência e arte. Na verdade, ela é a integração de múltiplas ciências: umas nomológicas (explicativas, baseadas em leis universais) e outras ideográficas (dedicadas ao estudo de eventos únicos e individuais). Das primeiras fazem parte a matemática, a física e a biologia; das segundas, a história, a literatura, as artes, a antropologia e a psicologia clínica. Quando falamos em “medicina tecnológica”, pensamos no nomológico; quando dizemos “arte”, referimo-nos ao ideográfico.
Na nossa formação, pré e pós-graduada, o ensino limita-se quase exclusivamente ao domínio nomológico, salvo raras e diminutas exceções. Poderão argumentar que 90% dos casos são resolvidos pela evidência científica (o conhecimento nomológico) e “apenas” 10% dependem da subjetividade do paciente e seu contexto. Já prevejo o ceticismo: “Por 10%, mais vale investir no que responde a 90% das necessidades”.
Pois bem, pensem comigo: o coração corresponde a menos de 10% do peso corporal, mas um corpo sem coração deixa de ser um “ser” para passar a ser um cadáver. Tal como o coração é vital para que o sangue circule, a formação nas ciências ideográficas é o que permite que o conhecimento nomológico seja bem aplicado. Além disso, o saber nomológico pode, facilmente, ser executado por uma Inteligência Artificial (IA) — que o fará melhor que qualquer médico. Já o conhecimento ideográfico não será superado pela IA, desde que o médico seja “ideograficamente” competente.
Para nós, Médicos de Família, o investimento nas humanidades é incontornável para interpretar a história única de cada paciente. O conhecimento nomológico oferece as ferramentas, mas é o ideográfico que permite conhecer o “terreno” onde estas serão usadas. Cerca de 70% dos diagnósticos fazem-se apenas com a história clínica — ou seja, através da escuta e interpretação da narrativa. Além disso, a adesão terapêutica depende de uma experiência comunicativa eficaz: alcançar o entendimento mútuo através da fala (aqui, uma homenagem necessária a Jürgen Habermas[1], recentemente falecido, cujo legado sobre a ação comunicativa é o alicerce da relação médico-doente).
As ciências nomológicas dão-nos “certezas estatísticas” (perdoem-me o oxímoro), mas a nossa realidade prática está impregnada de ambiguidade onde a maioria das situações estão entre os extremos de branco e preto. Como dizia Michael Apter[2]: “A medicina é como o amor: nunca se pode dizer sempre, nem nunca”. Só o conhecimento ideográfico permite ajustar a ciência à realidade do indivíduo, mitigando inclusive o burnout do médico ao dar-lhe o fundamento racional para não transpor cegamente a “verdade” dos números para a complexidade do mundo. Trata-se de valorizar tanto as palavras como os números, o subjetivo como o objetivo, as pessoas como os exames, a relação como a tecnologia. A aceitação da importância do conhecimento nomológico traz consigo outro aspeto: a hipervalorização das metodologias quantitativas em desfavor das qualitativas. Com as primeiras procura-se a explicação dos fenómenos, mais precisamente o quanto, é o ensaio clinico com quanto menor o “p” e maior a amostra (o nn) mais “certos” estamos. Já com as qualitativas procura-se compreender os fenómenos, saber o como e o porquê, como é o caso clinico, com o conhecimento da história única do paciente (o n1).
Vivemos um paradoxo: na era do Big Data e do nn (o auge do nomológico), nunca se falou tanto de Medicina Centrada na Pessoa (a expressão máxima do ideográfico). É tempo de investir seriamente nesta formação. Este desafio não se resolve com “introduções” isoladas; exige a integração destes conteúdos em todos os níveis do ensino.
Trata-se de um saber que não se resume ao “saber fazer”, mas ao saber pensar. É o exercício do autoconhecimento e da autoconsciência: como penso? Porque penso assim? Como posso melhorar? Este é o conhecimento mais difícil, pois exige tempo e atualização permanente — afinal, o nosso principal instrumento de avaliação (nós próprios) está em constante mudança.
[1] Michael Apter: Psicólogo e autor da Teoria da Reversibilidade, conhecido pelas suas reflexões sobre a ambiguidade e motivação humana
[2] Jürgen Habermas (1929-2024): Filósofo alemão, autor da “Teoria da Ação Comunicativa”, cuja obra é fundamental para entender o entendimento mútuo através da linguagem.
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