17 Fev, 2021

Menos de metade dos infetados mantêm anticorpos ao fim de dez meses

Pouco mais de 40% dos infetados manteve alguma imunidade, diz um estudo realizado em Portugal com 600 pessoas infetadas na primeira vaga.

Menos de metade das pessoas que foram infetados com o novo coronavírus tinham alguma imunidade dez meses depois do contágio, segundo os dados preliminares de um estudo feito em Portugal apresentado hoje.

Na investigação realizada pela Ordem dos Médicos, Universidade Nova e várias fundações parceiras, 42% das cerca de 600 pessoas analisadas desde março de 2020 mantinham imunidade, uma das tendências foi para as pessoas que tiveram covid-19 com mais gravidade terem mais anticorpos.

O infeciologista Francisco Antunes afirmou que, nos doentes hospitalizados (6% da amostra), “menos de 10% apresentam-se sem imunidade dez meses depois de serem infetados, o que indica, “regra geral, uma imunidade mais robusta e duradoura do que nos indivíduos com sintomas ligeiros ou assintomáticos”.

A investigadora Helena Canhão, da Universidade Nova de Lisboa, afirmou que o estudo, por acompanhar as mesmas pessoas ao longo de vários meses, poderá permitir identificar “fatores preditivos” que podem influenciar a imunidade que as pessoas desenvolvem, e esse trabalho continua.

 

Imunidade maior nas pessoas com mais idade

 

Outra das tendências verificadas foi que a imunidade revelou-se maior nas pessoas da amostra com mais idade, um dos aspetos que levanta mais questões do que as respostas que já existem. “Quando a pessoa desenvolve anticorpos, isso depende da resposta imune, da agressividade do agente infeccioso e de estar mais ou menos exposta à carga viral”, afirmou Helena Canhão.

A investigadora assumiu que há vários fatores que se desconhecem em relação ao SARS-CoV-2 e que não permitem ainda ter certezas quanto à sua relação com os hospedeiros humanos. “Pode acontecer que mesmo em infeções com poucos sintomas, as pessoas têm um nível de anticorpos que lhes permita estarem protegidas de reinfeções ou de infeções com mais gravidade. É isso que ainda estamos a tentar perceber”, indicou.

Francisco Antunes salientou que pensar em dar “passaportes de imunidade” às pessoas que já foram infetadas, independentemente da gravidade dos sintomas ou de terem estado assintomáticas, “tem questões que devem ser levantadas”.

“Com estes indivíduos, já se sabe que as reinfeções são mais frequentes do que inicialmente se pensava, muito em particular com as variantes mais transmissíveis e que podem ser mais graves. Esta população tem que ter o mesmo comportamento em relação às medidas não farmacológicas, como o uso de máscaras, o distanciamento e a higienização, que têm que ser exatamente idênticas às adotadas pelos indivíduos que nunca foram infetados”, defendeu.

Questionados sobre estratégias como a que se pondera em França de dar só uma dose de vacina a quem já tenha sido infetado, contando com a imunidade humoral (desenvolvimento de anticorpos), consideraram que não há provas de que seja eficaz.

Das 608 pessoas envolvidas no estudo, 24% não tiveram anticorpos e dos 76% restantes, alguns foram-nos perdendo ao longo do tempo e em outras a quantidade de anticorpos aumentou de análise para análise.

Os assintomáticos representam 19% da amostra e 44% têm mais de 50 anos.

Todas foram contagiadas na primeira vaga da pandemia, em março e abril, e foram fazendo análises serológicas regulares. A maioria (76%) são mulheres e 24% são homens. A maioria (42%) mora no sul do país, 36% na região Norte e 22% na região Centro.

Metade das pessoas analisadas são profissionais de saúde e cerca de um terço utentes e funcionários de residências para idosos.

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