Infeção por HPV: como orientar a mulher na consulta?
Diretora do Serviço de Ginecologia do IPO de Coimbra

Infeção por HPV: como orientar a mulher na consulta?

A infeção pelo vírus do papiloma humano (HPV) é uma das infeções sexualmente transmissíveis mais frequentes, e a maioria das pessoas sexualmente ativas contacta com o vírus ao longo da vida. Com o teste HPV como método primário de rastreio do cancro do colo do útero (RCCU), tornou-se comum o médico de família ter que comunicar resultados positivos. Este momento é clinicamente relevante e emocionalmente sensível, influenciando a ansiedade e adesão ao seguimento. 

Normalizar o resultado

Apesar de alguns tipos de HPV poderem provocar cancro, a maioria das infeções é transitória, assintomática, sendo eliminada espontaneamente, sobretudo em mulheres jovens. Um resultado positivo significa a presença de um genótipo de alto risco, não o diagnóstico de lesão ou cancro. A infeção pode persistir anos, sem ser possível determinar quando ocorreu. A transmissão é predominantemente sexual, mas o resultado não implica infidelidade ou um comportamento recente.

Orientação baseada no risco

Nem todos os genótipos identificados pelo rastreio têm o mesmo potencial oncogénico. A deteção de HPV 16 ou 18, associados a maior probabilidade de lesão de alto grau, determina referenciação prioritária para colposcopia. Ainda assim, não significa que exista lesão ou cancro, mas sim necessidade de avaliação adicional.

Nos restantes genótipos realiza-se citologia reflexa no frasco da colheita inicial. Se negativa, recomenda-se repetição ao fim de um ano nos cuidados de saúde primários (CSP), dado o elevado potencial de regressão. Persistência do HPV ou alterações na citologia determinam referenciação.

As referenciações prioritárias são convocadas dentro dos tempos recomendados. Nos casos não prioritários, o risco imediato de lesão grave é baixo. O aumento dos testes positivos, consequência de maior sensibilidade, gera pressão sobre as unidades de colposcopia. Este facto deve ser explicado, reforçando que os casos de baixo risco têm reduzida probabilidade de progressão a curto prazo. Em vários países, a repetição em um ano nos CSP, sustentada por dados de segurança e custo-efetividade, otimiza recursos sem comprometer segurança. Em 2024, a DGS introduziu a dupla marcação p16/Ki67 na triagem dos testes positivos, melhorando a estratificação do risco e reduzindo referenciações desnecessárias.

Vacinação e prevenção

A consulta é a oportunidade para promover literacia em saúde, reforçar o uso de preservativo, cessação tabágica (dado o risco de persistência e progressão) e rever o estado vacinal contra HPV.  Mesmo após infeção, a vacina confere proteção adicional contra outros genótipos oncogénicos. 

Comunicação eficaz

A comunicação deve ser clara e proporcional ao risco. Validar emoções e explicar o plano de seguimento são essenciais para garantir confiança. Uma abordagem estruturada, baseada no risco e centrada na pessoa, reduz a ansiedade, otimiza referenciações e reforça o impacto do rastreio na prevenção do cancro do colo do útero.

ler mais

Partilhe nas redes sociais:

ler mais