Importância da Saúde Feminina na Sociedade
Especialista em Ginecologia e Obstetrícia no Douro Centro Médico

Importância da Saúde Feminina na Sociedade

Ao longo da história, o papel das mulheres foi crucial para o desenvolvimento e progresso das sociedades. A sua função evoluiu ao longo de séculos, mas sempre presente, desde os cuidados familiares, contribuição ativa nas comunidades, até ao momento atual com intervenção ativa social, económica, política e cultural.

No século XXI, as posições de liderança no mundo do trabalho a todos os níveis, têm revelado a sua capacidade organizativa e de mobilização, fruto do equilíbrio entre a razão e a emoção.

Apesar desta evolução, ainda é desvalorizada esta participação activa nas sociedades – instabilidade e precariedade laboral, desigualdade de salários e oportunidades, discriminação de género.

Como mulher e ginecologista, compete-me a missão de abordar o tema “Saúde da mulher e bem-estar”, contribuindo para um melhor esclarecimento em termos de prevenção e diagnóstico precoce.

A saúde da mulher integra um conceito vasto, em que cada fase da sua vida é caracterizada por especificidades próprias, com diferentes questões e necessidades, influenciadas por alterações fisiológicas, físicas, mentais e sociais.

A adolescência, a saúde reprodutiva, a sexualidade, a fertilidade, a gravidez e parto, a menopausa, o envelhecimento constituem vertentes diferentes no espectro da saúde feminina.

 

Adolescência

A Adolescência é uma fase de transição da infância para a vida adulta (10–19 anos). Ocorrem intensas mudanças físicas – crescimento, alterações hormonais, aparecimento de características sexuais secundárias, mudanças cognitivas (pensamento abstrato, busca de identidade) e associada a toda a complexidade emocional, que desafia pais e profissionais de saúde – pediatras, nutricionistas e psicólogos.

Apresenta diversas formas de acordo com o contexto socioeconómico, geográfico e cultural de cada sociedade.

Saúde Ginecológica e Saúde Reprodutiva

Na consulta de Ginecologia, a partir dos 20 anos ou no início da actividade sexual, devem ser abordadas as queixas da doente, estabelecendo confiança para informar e sensibilizar para os métodos contraceptivos, planeamento de gravidez, sexualidade, infecções sexualmente transmissíveis, hábitos alimentares, dependências (tabaco, drogas).

Esta consulta, em termos de prevenção, deve ter uma periodicidade anual.

Rastreios e Exames Complementares

De acordo com a idade, devem realizar-se os exames adequados em termos de prevenção e diagnóstico precoce de patologias que podem interferir com a saúde feminina:

  • Rastreio do cancro do colo do útero (teste de papanicolau + teste de HPV);
  • Identificação e rastreio de infeções sexualmente transmissíveis;
  • Rastreio do cancro da mama (mamografia e ecografia mamária);
  • Rastreio do cancro do cólon (colonoscopia);
  • Análises de sangue de rotina;
  • Realização de exames complementares, como ecografia ginecológica, TAC e RM.
  • Deteção de patologias ginecológicas, como:
  • Miomas uterinos;
  • Quistos nos ovários;
  • Endometriose;
  • Situações oncológicas.
  • Identificação de outras patologias associadas (doenças respiratórias, digestivas, da tiróide, auto-imunes, articulares, cardíacas), com visão multidisciplinar e orientação para as especialidades.

Aconselhamento para promoção do bem-estar físico e mental

  • Informação sobre a importância do microbioma vaginal (barreira contra de agentes infecciosos);
  • Alimentação equilibrada;
  • Gestão de ansiedade e stress;
  • Prática de exercício físico;
  • Rotina de sono;
  • Sensibilização para prevenção da saúde.

Gravidez

A gravidez é um acontecimento único e muito importante na vida da mulher, caracterizada por alterações fisiológicas, físicas e emocionais, pelo que a vigilância, a informação e avaliação do risco são fundamentais na prevenção de complicações.

Em Portugal e nas sociedades desenvolvidas, a acessibilidade aos cuidados de saúde, que se inicia na consulta de pré-concepção, vigilância da gravidez, realização do parto e orientação no pós-parto, tem diminuído drasticamente a morbilidade e mortalidade materna, fetal e infantil.

  • Consulta de pré-concepção 

Avaliação da saúde geral e ginecológica da mulher, rastreios clínicos (colo do útero, mama) e exames de sangue, recomendação para o casal e suplementação.

  • Consultas durante a gravidez 

As consultas de obstetrícia são programadas de acordo com o risco: Baixo ou Alto Risco.

O objetivo do acompanhamento e vigilância de gravidez é sempre a monitorização do bem-estar materno e fetal, e a prevenção de complicações.

Existem protocolos definidos:

  • Análises clínicas completas em marcadores víricos: rubéola + toxoplasmose, VDRL, HIV 1 & 2, Hepatite B, Hepatite C, citomegalovírus;
  • Realização de ecografias obstétricas: 

A avaliação da viabilidade fetal, deteção de malformações ou alterações do desenvolvimento in utero, são o foco deste exame, que pode ter periodicidade diferente de acordo com o risco ou patologias da gravidez.

  • Rastreio de cromossomopatias;
  • Teste de DNA Fetal;
  • Avaliação nutricional e alteração de hábitos;
  • Promoção do bem-estar emocional e prática de exercício físico;
  • Deteção do risco materno-fetal:
  • Patologias de gravidez (hipertensão, diabetes gestacional, parto prematuro, alterações de crescimento fetal, perdas hemáticas)
  • Patologias associadas que podem interferir com a boa evolução da gravidez (patologias cardíacas, renal, tiróide, doenças auto-imunes, entre outras)

A preparação para o parto e orientação para a parentalidade integram o conceito de uma melhor vivência e partilha a dois na gravidez – com orientação e informação sobre os cuidados ao recém-nascido, amamentação e outros conselhos úteis relacionadas com o parto e o pós parto.

Parto

O parto é o processo fisiológico do nascimento. Nas várias fases do trabalho do parto, o apoio, a confiança na equipa, a colaboração do cônjuge e o ambiente tranquilo, reúnem as condições óptimas para o culminar do objetivo do casal – o nascimento de um bebé saudável e pais felizes.

Pós-parto

O pós-parto ou puerpério é um período de aproximadamente 6 semanas após o nascimento do bebé.

Nesta fase o corpo da mulher é marcado por alterações físicas (regresso ao estado pré-gravidez) e emocionais (tristeza, ansiedade, alegria,…).

É fundamental nesta fase o controlo do bem-estar físico e emocional:

  • Repouso, cuidados com a higiene, alimentação, apoio à amamentação, identificação de estado depressivo pós-parto, prática de exercício físico de forma gradual e reestabelecimento do convívio social;
  • Alerta para sinais suspeitos de infeção: febre, dor intensa, hemorragias;
  • Aconselhamento e orientação do médico assistente obstetra, pediatra e enfermeira.

Menopausa

Fase natural na vida da mulher que pode variar entre os 47–51 anos, relacionada com a diminuição de produção de hormonas pelos ovários, condicionando mudanças fisiológicas (fim da menstruação e da fertilidade) e sintomas como afrontamento, insónias, instabilidade no humor, depressão, cansaço, dores articulares, diminuição da libido, com impacto significativo na vida sexual, familiar e social.

Com o aumento da longevidade, a mulher vive ⅓ da sua vida em menopausa, pelo que a consulta especializada, que que define a estratégia certa em função de cada caso específico, torna-se imperativa para informar, aconselhar a gestão do estilo de vida, e instituir a terapêutica adequada – terapia hormonal ou não hormonal.

A implementação de dieta equilibrada, exercício físico, gestão de stress, melhoria de sono, tem implicações na saúde a longo prazo – vigilância do sistema cardiovascular, saúde óssea e saúde mental.

Conclusão

Com os avanços e inovações tecnológicas – nas áreas de prevenção, diagnóstico e tratamento, designadamente na imagiologia, utilização de perfis genéticos e biomarcadores, dispomos hoje de diagnósticos mais precoces, tratamentos atempados e personalizados, reduzindo os efeitos adversos.

A valorização da saúde da mulher em todas as fases da vida é vital, para garantir uma sociedade mais justa e saudável no âmbito familiar, social e laboral.

A mulher é o pilar da sociedade.

 

Artigo da autoria da Dr.ª Conceição Domingues, especialista em Ginecologia e Obstetrícia no Douro Centro Médico

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