Quase no final de um ano marcado por múltiplas conferências e debates sobre como atingir a meta de erradicação da Hepatite C enquanto problema de saúde pública, com que Portugal se comprometeu com a Organização Mundial de Saúde (OMS), fomos fazer um ponto de situação do caminho já percorrido e do que ainda falta trilhar para que país se distinga, pela positiva, no panorama internacional.

SaúdeOnline (SO) – Qual o balanço que faz da “corrida” pelo objetivo com que Portugal se comprometeu de erradicar a hepatite C enquanto problema de saúde pública até 2030?

Professor Rui Tato Marinho (RTM) – Acho que estamos a fazer o nosso caminho. Claro que para nós, gastrenterologistas e hepatologistas, identificar os doentes com cirrose constituiu uma prioridade. A cirrose é das doenças mais oncogénicas que se conhece no campo médico. Cerca de 10 a 40% dos doentes vão surgir com carcinoma hepatocelular.

O tratamento antivírico, que elimina de forma definitiva a replicação do Vírus da Hepatite C, reduz de forma significativa o risco de carcinoma hepatocelular. Não há dúvidas.

“Cerca de 10 a 40% dos doentes vão surgir com carcinoma hepatocelular”

Visito muitos países e constato que Portugal tem uma estrutura muito boa de apoio aos grupos em que a prevalência é elevada. As excelentes organizações no terreno fazem um trabalho notável. Não tem preço a atividade da Ares do Pinhal, Crescer, GAT, Vitae, AJPAS, o Centro das Taipas, Abraço, Casa Jubileu.. Quem dera a muitos países ter estes grupos a trabalhar com eles. Estive recentemente no Brasil, Egito, Hungria onde pude reforçar a minha opinião altamente positiva destes grupos de entreajuda social. O espírito não punitivo, restaurativo tem trazidos elevados benefícios sociais, de redução da criminalidade, de reintegração social e até do retorno do investimento económico (Social Return of Investment).

SO – O que falta à ação? Podemos fazer mais?

RTM – Claro que podemos fazer melhor, sempre, sempre. Por razões pessoais, sociais e profissionais tenho tido um contacto muito próximo com este “Mundo da hepatite C”, no que diz respeito aos presos e aos consumidores de drogas. O facto de o meu Pai ter sido Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça e, em paralelo, ter vivido muitos anos perto duma geração em que muitos morreram em acidentes de viação, overdoses e mais recentemente por causa das consequências da infeção crónica pelo VHC, como foi o caso do Zé Pedro dos Xutos e Pontapés. Estas experiências ofereceram-me um conhecimento acrescido.

Este ano, Portugal já tratou cerca de 3500 doentes. Já se nota uma redução do número de consultas por novos casos de hepatite C.

Temos que continuar a procurar e identificar os casos não diagnosticados. Defendemos o rastreio obrigatório em pessoas com comportamentos de risco. Por outro lado, entendo que todos devemos, pelo menos uma vez na Vida, fazer o teste da hepatite C, da hepatite B e do VIH. São entidades assintomáticas, silenciosas em que a Medicina moderna pode intervir e salvar vidas.

SO – Um dos objetivos declarado do estudo Portugal, da visão à ação” era o de “mobilizar a chamada sociedade civil para este problema de saúde pública”. Conseguiu-se?

RTM – Como referi, vejo uma grande mobilização da sociedade civil. E reconheço que há ainda muito a fazer, claro. O trabalho nunca vai estar acabado.

Prefiro acreditar no futuro num espírito de concertação social, profissional e institucional. É este o espírito do nosso Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, com quem me identifico nesta questão social.

SO – Quais as tarefas prioritárias?

RTM – Uma das tarefas é convencer alguns grupos da sociedade e alguns profissionais das autoridades de Saúde que é muito benéfico a aproximação aos grupos sociais mais desfavorecidos. Todos ganhamos, ajudando estes jovens a integrarem-se na sociedade. A redução da criminalidade, nesta postura de Medicina e Justiça restaurativas gera ganhos de saúde muito elevados.

Eu diria que poderemos, através dos momentos felizes que proporcionamos com a cura da hepatite C, contribuir para a pacificação social. No fundo, é uma questão de direitos humanos, justiça social, de prestar os melhores cuidados a quem deles necessita. E nós, em Portugal, temos expertise profissional e social para prestar os melhores cuidados do ponto de vista físico, mental e social, de acordo com a OMS.

“Vejo uma grande mobilização da sociedade civil. E reconheço que há ainda muito a fazer”

SO – Foi divulgada hoje informação de que “Estima-se que ainda existam em Portugal cerca de 89.000 pessoas com hepatite C”. É assim?

RTM – Não há dados precisos, aliás poucos países têm dados muito rigorosos e atualizados. No nosso entender o número é inferior. Mas mais importante que saber os números precisos, é ser proactivo em identificar, diagnosticar e tratar.

Em 2013 publicámos um artigo no World Journal of Gastroenterology sobre este tema, ainda antes dos antivíricos orais. As grandes instituições internacionais, OMS, ECDC, têm também dificuldade em ter os dados 100% corretos.

SO – As recomendações dos especialistas são públicas, tendo sido debatidas nos mais diversos fora, incluindo na Assembleia da República. É esta a melhor abordagem?

RTM – Os especialistas têm que se aproximar do poder político chamando a atenção para os problemas de saúde do nosso país. Percebo que seja difícil alocar os recursos humanos e económicos que, por definição, são escassos. As especialidades médicas são cerca de 50, não é fácil para quem decide.

SO -Portugal comprometeu-se com a OMS na Estratégia Global da Hepatite Viral 2016-2020, que visa erradicar as Hepatites virais até 2030. No atual contexto chegaremos a esse objetivo?

RTM – No meu entender, não acredito na erradicação, é um termo bom para marketing, mas menos feliz no contexto de rigor epidemiológico. Estamos a caminhar para a eliminação da hepatite C , um passo importante para saúde pública.

SO – E é possível alcançar essa meta. Como?

RTM – Eliminação sim, erradicação não. Veja-se o caso da hepatite B com uma vacina fantástica, no terreno há mais de 30 anos…

SO – Há disponibilidade política para avançar, ou estamos ainda no período retórico, inconsequente?

RTM – Temos novos elementos no terreno, DGS, Infarmed, Ministério da Saúde. A própria Ministra da Saúde conhece bem o problema. Tenho esperança…

SO – A estratégia “rastrear e tratar” é ainda possível, ou ter-se-á que avançar com algo mais drástico? O que preconiza?

RTM – Simplificar, simplificar… É uma questão de juntar a boa vontade, ao profissionalismo e decisão política, em termos macro e micro. No meu Hospital (Hospital Santa Maria) já tive aprovações de fármacos no dia a seguir ao pedido.

SO – Falhar é uma possibilidade. Como a encararia?

RTM – Não estamos a falhar de modo algum, podemos e devemos fazer melhor, ser mais inclusivos. Mas quem dera à maioria dos países do Mundo, incluindo países europeus, ter as condições e os recursos humanos que temos.

“Quem dera à maioria dos países do Mundo, incluindo países europeus, ter as condições e os recursos humanos que temos”

SO – Que conta nos dá hoje a calculadora do projeto “Let’s End HepC (LEHC), desenvolvida pela Universidade Católica Portuguesa”?

RTM – Participei na sua génese, sei que há muitos países interessados neste projeto, mas desconheço o detalhe deste interessante projeto. Tenho acompanhado, por esse mundo fora, o trabalho excelente do Dr. Ricardo Batista Leite, ultimamente com a formação de um grupo denominado UNITE, que agrega parlamentares de 52 países. A UNITE é já um importante stakeholder no cenário internacional das hepatites víricas, VIH, tuberculose.

SO – Pesem as más notícias, há projetos, no terreno, dignos de nota. Quer assinalar aqueles que mais se distingam?

RTM – Ares do Pinhal, Crescer, GAT, Vitae, Comunidade Vida e Paz. O GAT assegura um verdadeiro Serviço Nacional de Saúde para uma determinada população. Portugal deve muito a estas organizações. Não acontece assim em muitos países. O reconhecimento internacional pela sua atividade é fantástico. Eu falaria em benchmarking social e internacional de boas práticas. O que ganhei com o contato, com os seus profissionais e utentes não tem preço. Tem sido uma experiência humana inestimável.

SO – A população prisional já está coberta ou ainda continuamos com projetos piloto em Lisboa e Porto?

RTM – Desconheço em detalhe, mas sei que mais colegas têm prestado assistência noutros pontos geográficos, noutras instituições prisionais.

SO – Qual a mensagem que dirigiria aos responsáveis políticos?

RTM – Mensagem de esperança, entreajuda e colaboração, confiança.

SO – Esteve há dias em Valência na conferência SLTC 2019. Quais as principais mensagens que recolheu no evento?

RTM – Que há muitos profissionais no terreno,  o denominado “point-of-care”, desenvolvendo ações de “linkage-to-care”, em vários pontos do Mundo. Foi muito interessante partilhar experiências com colegas e amigos de outros países.

Por outro lado, a interação entre os grupos multidisciplinares de Portugal foi muito enriquecedora.

SO – Uma nota final….

RTM – A cura da hepatite C, com a eliminação do VHC em quase todos os utentes, é um momento de felicidade, que devemos aproveitar para transmitir mensagens de cuidados de saúde (incluindo sobre vida saudável, tabagismo, ingestão de álcool, acesso aos cuidados de saúde, ligação aos grandes hospitais, etc.).

Estamos a falar de um grupo de portugueses do qual alguns tiveram infâncias muito traumáticas. Na década de 70-80, o consumo de drogas atingiu níveis muito elevados, com ameaças para a saúde pública e até segurança interna. Muitos morreram e todos os estratos sociais foram afetados.

Entendo que  alavanca desta inovação única da Medicina Moderna poderá ser uma oportunidade para cumprir a nossa Missão de profissionais de saúde: prevenir, tratar, curar, ajudar. Salvar Vidas. A evidência científica de que os antivíricos salvam vidas é muito forte.

MMM/SO

ler mais