23 Out, 2025

Fisiopatologia da obesidade – Doença neuro(bio)lógica com sequelas metabólicas?

Os objetivos da apresentação de José Silva Nunes, presidente da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO), são claros: mostrar que a obesidade é, de facto, uma doença e explicar as suas consequências.

Fisiopatologia da obesidade – Doença neuro(bio)lógica com sequelas metabólicas?

“Não resulta de falta de força de vontade, mas de uma base neurobiológica geneticamente determinada, que leva ao desenvolvimento de excesso e disfunção do tecido adiposo”, observa.

Portugal foi pioneiro no reconhecimento da obesidade como doença crónica, há 21 anos, sendo o primeiro país europeu a fazê-lo. Apesar disso, e segundo o diretor do Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo da Unidade Local de Saúde São José, durante décadas, manteve-se a narrativa de que a obesidade era consequência de hábitos errados e sedentarismo, responsabilizando o doente. “Hoje, há evidências científicas sólidas da base neurobiológica da doença, que é também um fator de risco para outras patologias, nomeadamente metabólicas, como a diabetes tipo 2”, refere.

E continua: “O estudo Custo e Carga da Obesidade, promovido pela SPEO, aponta que a obesidade é responsável por 79,4% dos casos de diabetes tipo 2, o que significa que a sua erradicação reduziria quase 80% destes casos.”

Porém, e de acordo com José Silva Nunes, “as consequências não se limitam ao metabolismo dos hidratos de carbono”. Há também impacto a nível de vários órgãos e tecidos, nomeadamente com o desenvolvimento da doença esteatósica hepática associada a disfunção metabólica (MASLD – Metabolic Dysfunction-Associated Steatotic Liver Disease). “Prevê-se que, no futuro, a MASLD venha a ultrapassar o álcool como principal causa de cirrose”, salienta.

O endocrinologista refere ainda que a obesidade tem também consequências mecânicas, como a aceleração da patologia osteoarticular degenerativa, insuficiência venosa, síndrome da apneia obstrutiva do sono; e do foro psiquiátrico e psicológico, aumentando o risco de depressão e ansiedade, que também podem agravar a obesidade num ciclo vicioso.

Nenhum país conseguiu controlar a sua prevalência, e Portugal não é exceção. Segundo o endocrinologista, o tratamento baseia-se na intervenção cognitivo-comportamental, farmacológica e, nos casos elegíveis, cirúrgica, sustentando a mudança no estilo de vida. Mas, tal como menciona, estes pilares não estão implementados de forma eficaz.

Como conclusão, o orador refere que o foco deve ser tratar a “doença-mãe”, ou seja, a obesidade, para reduzir a expressão epidemiológica de mais de 200 patologias para as quais constitui fator de risco.

 

Sílvia Malheiro

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